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domingo, 2 de março de 2014

Ambição real.

Editorial da FOLHA DE S. PAULO e os 20 anos do Plano Real.

O aniversário de 20 anos da medida provisória 434/1994, que instituiu a URV (Unidade Real de Valor) e preparou o caminho para o lançamento do real, decerto merece celebração.

Não pela nostalgia de um momento de grandes mudanças, quando os artífices do Plano Real demonstraram singular visão de Estado --destaque-se, além do então presidente Itamar Franco e seu ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, os economistas André Lara Resende, Edmar Bacha, Gustavo Franco e Pérsio Arida.

A lembrança é válida pela constatação de que, mesmo em meio às dificuldades daqueles dias, o governo construiu consensos e obteve legitimidade para um salto de qualidade nas instituições. Há, portanto, lições para o Brasil de hoje.

Sem a estabilização da moeda não teriam sido possíveis os avanços posteriores, como o alargamento dos direitos sociais e a redução da desigualdade. O fim da inflação galopante, em si, foi o primeiro passo para isso, pois eram os mais pobres os mais prejudicados.

Houve erros graves, como os desequilíbrios que fizeram o Brasil recorrer ao FMI em 1998. Mas mudanças de monta na condução da economia deram ao país uma estabilidade havia tempo esquecida.

Depois, o presidente Lula construiu sobre esses alicerces, criando um grande mercado interno de massas. Manteve, especialmente no primeiro mandato, a aderência aos pilares macroeconômicos e acelerou a inclusão social.

O bom momento mundial catalisou as ações internas, e o Brasil registrou crescimento acelerado. Foram criados mais de 15 milhões de empregos entre 2003 e 2010.

Nos últimos anos, porém, cessaram as propostas ambiciosas. A administração Dilma Rousseff, em especial, abusou do modelo de consumo, sem enxergar a necessidade de novas estratégias à luz das transformações globais e da baixa produtividade interna.

Reformas em áreas como Previdência e tributação, fundamentais para o equilíbrio das contas públicas e recuperação da capacidade de investimento do Estado, permanecem paralisadas enquanto as autoridades de turno vendem a ilusão de que tudo vai muito bem.

O ex-presidente Fernando Henrique tem razão quando fala da natural fadiga que acomete grupos políticos instalados por muito tempo no poder --regra que vale para todos os partidos, em todos os níveis da Federação.

Fundamental, nesse sentido, oxigenar o debate --não necessariamente com novos mandatários, mas sem dúvida com novas ideias.


Forças governistas e seus opositores poderiam se inspirar nos exemplos do passado. Pouco importam, no fundo, discussões sobre o mérito do que já desbota no tempo; o país demanda uma visão de futuro. O ano é propício.

sábado, 19 de outubro de 2013

Brasil: um país atrasado.

O texto do FERNANDO RODRIGUES hoje na FOLHA DE S. PAULO demonstra a triste realidade brasileira. Excelente.

BRASÍLIA - Sou a favor da liberdade de expressão. Considero uma regressão civilizatória a retirada de um livro do mercado só porque um biografado se sentiu ofendido. Um cidadão incomodado deve ir à Justiça e ser ressarcido pelo dano causado. Mas quem vive e ganha dinheiro se expondo na mídia não tem como reclamar quando seus hábitos no café da manhã são revelados.

Apesar de pensar assim, acredito que Caetano Veloso, Chico Buarque e Djavan, entre outros, prestam um serviço ao ficarem do outro lado do muro. Eles nos ajudam a enxergar o óbvio: o Brasil é um país atrasado. Não estão disseminados por aqui os valores republicanos clássicos. Liberdade de expressão é uma abstração que não faz parte da vida real da imensa maioria dos brasileiros.

Caetano, Chico e Djavan compõem essa paisagem. Chocam parte dos leitores daFolha, mas será que a reação seria a mesma na maioria da população? Não somos o Brasil potência dos anúncios do governo na TV, em que os pobres estão sempre sorrindo e os direitos parecem plenos para todos.

O Brasil real é o das ruas com calçadas esburacadas e ônibus sujos e lotados. Da Justiça lenta e improdutiva. O Brasil é conservador. Seu conjunto de valores está em formação. A democracia só tem 25 anos.

Talvez o Datafolha pudesse perguntar a brasileiros que circulam no viaduto do Chá, em São Paulo, ou na Cinelândia, no Rio: "Você é a favor ou contra retirar do mercado um livro que exponha a vida de Roberto Carlos, incluindo a intimidade do cantor, dramas pessoais na infância sobre os quais ele não fala em público, casamentos malsucedidos e um lado menos conhecido da vida desse artista? Está certo publicar um livro que seja verdadeiro, porém constrangedor para Roberto Carlos?".


Suspeito que muitos aprovariam a censura prévia. O Brasil profundo é assim. Continua refém daquela velha profecia: corre o risco de ficar obsoleto antes de ficar pronto.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Mudanças.

Leio na FOLHA de S. PAULO, o otimismo de Delfim Netto, embora não acredite em tudo que o mestre escreveu.  

Na última semana, alguma coisa se moveu. No campo político, assistimos à redução de dois estresses institucionais que devem trabalhar na direção de diminuir a angústia depressiva que se apropriou da sociedade.

Primeiro, a presidente tomou a iniciativa do diálogo e diminuiu a tensão entre o Executivo e o Legislativo, que ameaçava tornar-se um cabo de guerra na apreciação de cada projeto e de seus vetos. Segundo, o Supremo Tribunal Federal reconheceu que pode eventualmente condenar membros do Legislativo, mas que a cassação do mandato obtido na urna deve ser feita pelo Congresso.
Dois movimentos no sentido do mútuo respeito à independência harmônica dos Poderes da República e, portanto, no sentido da consolidação institucional.

No campo econômico externo algumas notícias como a aceleração das exportações chinesas e coreanas, e o aumento dos indicadores de compras industriais nos EUA e Europa, parecem dar alento a uma recuperação ainda que lenta da produção. No interno, tem havido uma mudança no comportamento do governo em relação à cooptação do setor privado para competir nas obras de infraestrutura cuja eficácia será testada nos próximos leilões de concessões de rodovias, ferrovias, portos e energia.

Talvez nada indique melhor a confusão que está levando os agentes econômicos a cultivarem um desânimo devastador do que a sua reação à situação externa mencionada acima. Em resposta ao que pode ser um movimento pontual aleatório das exportações chinesas, a Bovespa subiu 3,12%. Até a ação da OGX-ON subiu 9,25% (infelizmente para R$ 0,50!).

Isso revela que boa parte do pessimismo é, seguramente, exagerado. É claro que nossa situação não é confortável: crescimento medíocre por falta de investimento público e dificuldade de cooptar o do setor privado; taxa de inflação no teto superior da "meta" e um déficit em conta corrente de mais de 75 bilhões de dólares. Mas deve ser claro, também, que não há qualquer ameaça à estabilidade de nossa economia.

Recentes mudanças na política econômica: 1º) a melhoria da interlocução do governo e o reconhecimento de que ele deve melhorar a qualidade dos leilões nas concessões; 2º) o reconhecimento de que não há mais espaço para a política fiscal e que empréstimo interno do Tesouro não é recurso, a não ser quando financiado com superavit fiscal; 3º) a nova disposição do Banco Central de buscar a "meta" da inflação num prazo adequado, mas não indefinidamente prorrogável e 4º) Tudo isso e mais a flutuação da taxa de câmbio, que deverá aliviar a indústria, sugerem que estamos nos preparando para melhorar.


domingo, 14 de julho de 2013

Luciano Coutinho fala sobre a economia brasileira.

Leio na Folha entrevista concedida pelo Luciano Coutinho, presidente do BNDES, e sua análise sobre a cotação do dólar e outros pontos da economia brasileira. 

Folha - O dólar não deve voltar a ficar abaixo de R$ 2,10?
Luciano Coutinho - Não volta ao patamar do começo do ano. Fizemos um teste de estresse com o câmbio fechando o ano a R$ 2,30 e é perfeitamente palatável para a estrutura empresarial brasileira absorver o impacto. Não estou projetando esse câmbio, foi apenas um teste de estresse. É diferente do que ocorreu [no início da crise global] em 2008, quando houve pesadas perdas provocadas pelos derivativos de câmbio. Qual é o desafio paralelo a isso? Administrar os efeitos do câmbio na inflação. É imperioso manter a inflação sob controle. É uma orientação de governo.

O setor empresarial critica a taxa de retorno do programa de concessão. Isso pode afetar os leilões e pôr em risco o crescimento do país?
Não creio, porque o governo ajustou vários fatores. O que tenho verificado nas consultas ao banco é que teremos muitos interessados. É preciso diferenciar o que se diz em público para conseguir melhorias adicionais e o que observamos no diálogo individual com as empresas.

Após os protestos, Estados e municípios seguraram reajuste de tarifas. Isso vai afetar o interesse dos investidores?
Pelo que entendi, as tarifas de pedágio serão compensadas, protegendo os investidores. Logo, não vai criar efeitos negativos sobre as expectativas. O meu sonho é que a taxa de investimento chegue perto de 19% do PIB neste ano e dê um salto adicional em 2014.

O BC subiu os juros. O senhor vê necessidade de um ajuste fiscal mais rigoroso para ajudar a controlar a inflação?
A gestão macroeconômica precisa avaliar o andamento da economia. Ainda não sabemos qual será o impacto dessa transição, que pode afetar o crescimento negativamente. A calibragem fiscal não é algo trivial. Tem que ser muito cuidadosa. A orientação da presidente é manter a inflação sob controle.

O sr. teme que um arrocho forte derrube o crescimento?
O que estou dizendo é que precisamos considerar o que já aconteceu na esfera privada. Se houver uma redução do gasto privado, vai ter impacto. É claro que a política fiscal deve ajudar a política monetária e trabalhar coordenadamente. O mercado exige, às vezes até por cacoete, que se tomem certas iniciativas.

É preciso calibrar inflação e crescimento na política fiscal?
Sim.

Mas a credibilidade do governo na área fiscal foi muito questionada após a contabilidade criativa. Isso não prejudica a calibragem?
Eu olho para os resultados. A trajetória de dívida do Brasil é invejável. Acredito que há uma cobrança desfocada da realidade do Brasil.

domingo, 7 de julho de 2013

Delfim Netto na Folha de S. Paulo: A voz da rua não é a voz de Deus nem a voz da lógica.

Folha - Por que as pessoas foram às ruas?
Delfim Netto - É uma emergência. Alguns fenômenos vão ocorrendo aos poucos e, de repente, a acumulação provoca uma mudança qualitativa. São Paulo é um inferno, mas aos poucos as pessoas se convenceram de que a solução é impossível, porque não tem recursos. De repente, aparece recurso para fazer estádio. O povo é muito sábio. Recurso não é dinheiro, mas cimento e ferro. O povo concluiu o seguinte: o cimento e o ferro que construíram o estádio são o cimento e o ferro que não construíram o metrô.

Mas há recursos para fazer mais metrô?
Claro que não. O problema é que as prioridades do governo não eram as que a sociedade desejava. A primeira reação do governo foi de susto e produziu uma esquizofrenia hiperativa. De repente, o Congresso aprova projetos parados há dez anos em quatro horas. Mas aprovou sonhos, ideias. Ou seja, nada será cumprido. Teremos de devolver racionalidade ao sistema.

Qual vai ser o resultado dessa esquizofrenia hiperativa?
Provavelmente vamos ter uma reforma política. O cerne da questão é se o financiamento de campanha deve ser público ou privado. Numa sociedade decente, quem pertence a um partido tem que colocar seu dinheiro para eleger seu deputado. No Brasil, como não há controle, vai haver duplo financiamento. Não há nada mais conservador do que eleição financiada por governo, porque tende a reforçar a maioria do governo.

Por que não será possível cumprir as leis que foram aprovadas após os protestos?
Só é possível distribuir o que já foi produzido,ou tem que tomar emprestado. Chegamos ao limite. Estamos praticamente em pleno emprego e não podemos mais elevar o deficit em conta-corrente.
A voz da rua tem que ser educada a entender que pode escolher prioridades, mas que a soma das prioridades não pode ser maior do que o PIB.
Como queremos uma sociedade com liberdade individual, relativa igualdade e eficiência produtiva, é preciso escolher um mecanismo para atingir esses objetivos, que não são inteiramente conciliáveis. Esse mecanismo é o mercado e a urna. Se a urna exagera, o mercado vem corrigir. Se o mercado exagera, a urna corrige.
A educação é fundamental para que o eleitor saiba que vai ser atendido dentro de limitações. É fundamental para salvar não só a economia, mas a democracia.

Mas educar leva tempo, e a insatisfação das pessoas é imediata.
É uma questão de liderança política para convencer as pessoas de que leva tempo para as prioridades serem corrigidas.

O senhor vê na presidente Dilma essa liderança?
Não tenho dúvida. A presidente é uma mulher muito competente e séria, com desejo enorme de acertar.
Ela também vai escolher prioridades novas e entender que é preciso acelerar as concessões. Ela vai entender que, quando atende as condições do mercado, não está numa queda de braço.

Após as manifestações, os governos congelaram pedágios e tarifas. Isso vai atrapalhar os leilões de concessão?
Muito. Pioraram demais as condições de segurança jurídica das concessões. O prejuízo que o Brasil teve é imenso e contraditório com tudo o que queremos.
É por isso que eu digo: a voz da rua não é a voz de Deus. Também não é a voz da lógica. É um sinal amarelo para que façamos as as coisas corretamente.

O BC vem sinalizando que vai subir mais os juros. O senhor concorda?
O Banco Central já provou que sabe mais que o setor financeiro. Na minha opinião, Tombini [Alexandre Tombini, presidente do BC] cansou de ter esperança de que a política fiscal ajudasse no combate à inflação. O BC vai subir os juros até alcançar a meta, dentro de um horizonte de tempo de 15 ou 20 meses.

O senhor defende um ajuste fiscal rigoroso?
Tivemos truques demais. Destruímos coisas importantes. O transparente é esquecer os truques e anunciar um programa para um equilíbrio fiscal em quatro ou cinco anos.

A presidente tem credibilidade. Quando ela decide, enfrenta furacão. O sujeito que pensa que vai viajar de ônibus grátis tem que entender que vai pagar mais no feijão.

domingo, 12 de maio de 2013

A lei da demanda.


SAMUEL PESSÔA , doutor em economia e pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da FGV, escreveu neste domingo na FOLHA sobre a lei da demanda sobre escolhas morais.

Em geral, a elevação do preço de um bem reduz a quantidade consumida desse bem. Esse princípio geral é conhecido por lei da demanda.

É possível que haja exceções. A mais famosa é a demanda de alimentos baratos de elevado valor calórico e baixo conteúdo proteico.

Pode ser o caso de arroz na China de hoje; batatas na Irlanda ou pão na Inglaterra, ambos no século 19; farinha de mandioca no sertão nordestino na segunda metade do século passado etc.

Nesses casos, a maior parcela do orçamento familiar é comprometida com o consumo do alimento barato com elevado conteúdo energético e baixo conteúdo proteico.

Devido às necessidades calóricas mínimas diárias, a elevação do preço do alimento rico em calorias reduz muito a renda disponível para aquisição de alimentos de maior qualidade. A demanda pelo alimento mais barato (apesar de este ter ficado mais caro) sobe, dado que a família não tem renda suficiente para adquirir proteína.

Os bens que não obedecem à lei de demanda são chamados de bens de Giffen. O debate brasileiro em torno de escolhas morais sobre diversos assuntos aparentemente está povoado de bens de Giffen.

É comum lermos que a redução da maioridade penal elevará a criminalidade entre jovens, que a descriminalização do aborto reduzirá o número de abortos, que a liberalização das drogas reduzirá o consumo de drogas e que a criminalização da prostituição elevará a prática do comércio sexual.

Em todos esses casos, o preço de um bem subiu (ou desceu) e o consumo, segundo alguns analistas, elevou-se (ou reduziu-se).

Tenho dificuldade de imaginar que a elevação do custo ao menor que cometer crimes eleve a quantidade de crimes praticados pelo menor infrator ou que a elevação do custo do comércio sexual aumente seu consumo.

É igualmente difícil racionalizar que a redução do custo de cometer aborto ou de consumir droga reduza o número de abortos ou o uso de drogas.

Nada impede que as alterações legais elencadas tenham outras consequências e que estas possam ser empregadas como argumentos contrários ou favoráveis à alteração legal.

É possível que a descriminalização do aborto reduza o número de mulheres mortas em função de procedimentos médicos inadequados.

Também é possível que a legalização do consumo e do comércio de drogas reduza a violência e o número de homicídios ou que a criminalização da prostituição aumente a criminalidade.

Finalmente, é perfeitamente possível e justo defender posições favoráveis ou contrárias a esta ou aquela instituição, independentemente de suas consequências.

É possível ser favorável à legalização do comércio e consumo de drogas em função do princípio de liberdade de escolha individual.

Analogamente, é possível ser favorável à redução da maioridade penal em função do princípio da responsabilização individual.

Novamente independentemente do impacto da redução da maioridade penal sobre a criminalidade.

O mesmo princípio de liberdade de escolha individual aplica-se à manutenção da prostituição como atividade lícita.

O que não parece muito útil nem produtivo é enxergarmos bem de Giffen em toda parte. Confunde e dificulta o avanço do debate.

Os bens de Giffen são mais raros do que imaginamos. Até hoje os economistas têm dúvidas se a batata na grande fome na Irlanda no século 19 poderia ser de fato considerada bem de Giffen!

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Economia brasileira não volta a ter expansão de 7%. Alguma dúvida?


Leio na FOLHA entrevista com o economista Dani Rodrik, professor de política econômica internacional da Universidade Harvard e um dos maiores especialistas em economia do desenvolvimento.

Segundo Rodrik, o ambiente global benéfico -- alto crescimento da China, elevados preços das commodities, países avançados em expansão -- não vai se repetir. "É realista esperar uma taxa de crescimento de 3% a 4% no Brasil", disse à Folha Rodrik, que participou de seminário da revista "Carta Capital".

Folha - O Brasil cresceu 0,9% em 2012 e há uma percepção de que o modelo de crescimento baseado em consumo se esgotou. O que o sr. acha?
Dani Rodrik - Dois anos atrás, todo mundo dizia que o Brasil estava vivendo um novo milagre econômico. Eu achava que era um enorme exagero. Agora, as pessoas estão tirando conclusões apressadas em cima de apenas um ano de crescimento.
O Brasil não vai mais crescer 7%, como no milagre econômico antes da crise da dívida ou mesmo em 2010 [7,5%]. É realista esperar uma taxa de crescimento de 3% a 4%. Se o contexto global ajudar, 5% será uma taxa razoável.

O sr diz que, a partir de agora, alto crescimento no mundo será exceção. Como se situa o Brasil nesse cenário? As condições que permitiram crescimento de 7% a 8% não vão se repetir. Antes, tínhamos os estágios iniciais da industrialização --ao tirar mão de obra da zona rural ou do setor informal e levar para as indústrias, tínhamos ganhos de 400% na produtividade. Agora, não teremos grandes ganhos sem mais investimentos em educação e tecnologia. Com as mudanças tecnológicas, a indústria é muito mais intensiva em capital e não absorve tanta mão de obra. E o Brasil, na realidade, já atingiu o pico de industrialização e está agora se desindustrializando. Mas isso é verdade para a maioria dos países. É inevitável. A discussão agora é a velocidade da desindustrialização, se está mais rápida do que deveria. A indústria não mais será o motor do crescimento. Serviços e outras áreas irão gerar ganhos de produtividade.

O sr. ficou decepcionado com a decisão dos Brics [Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul] de criar um banco de desenvolvimento... Essa é uma noção dos anos 50, de que é preciso ter financiamento de infraestrutura. Frequentemente, o que emperra o desenvolvimento não é a falta de financiamento, mas sim instituições frágeis, excesso de regulação, falta de política industrial e moedas sobrevalorizadas. Financiamento é apenas um dos fatores. Não me parece o foco apropriado para os Brics. Faltam ideias novas de como consertar a globalização e criar uma nova relação entre emergentes e ricos.

O sr. diz que os Brics precisam parar de se comportar como "suplicantes". Qual é a mensagem que o Brasil deveria passar nos foros mundiais? Gostaria de ver o Brasil abordar o sistema internacional não como um país em desenvolvimento dizendo que é pobre e precisa de ajuda. Em vez disso, o Brasil precisa se posicionar como formador de políticas, que também tem grandes responsabilidades. Em áreas como mudança climática, por exemplo, não haverá redução de emissões se os emergentes não assumirem responsabilidade.

O que o sr. espera de Roberto Azevêdo à frente da Organização Mundial do Comércio? A agenda da OMC precisa mudar. A Rodada Doha morreu e as pessoas deveriam simplesmente declarar isso. O real desafio para a OMC é estabelecer uma nova narrativa, que não se restrinja a: "você reduz suas tarifas e em troca nós abrimos nossos mercados". No momento, o maior problema não é a falta de abertura comercial.
E o Brasil precisa mudar sua atitude. O Brasil ocasionalmente precisa proteger sua indústria, mas tem de entender que os países ricos passam por uma situação muito difícil e também precisam proteger a sua indústria. O Brasil, apesar de todas as elevações de tarifas recentes, não pode ser chamado de economia fechada. Aliás, acho que a atual estrutura de tarifas no Brasil é até positiva.

Por quê? Porque, na margem, está dando uma proteção temporária para algumas indústrias que estão sendo dizimadas pela valorização da moeda. Vivemos no mundo possível, não no mundo doutrinário.

Qual é a importância de ter um brasileiro liderando a OMC? O Brasil pode levar para a OMC uma abordagem pragmática, não doutrinária, que é uma evolução da proposta radical de livre mercado --é assim a política econômica do Brasil atualmente. Então ter um brasileiro no comando da OMC é muito positivo.

O sr. classifica os países de mercantilistas ou liberais. Em que faixa se situa o Brasil?
O Brasil é uma boa mistura -- usa regras liberais em seu sistema financeiro, políticas monetária e cambial, mas é mais mercantilista no que se refere às políticas industriais, proteção por tarifas, regras de conteúdo local e uso do BNDES. Talvez precise de menos liberalismo no fronte macroeconômico e mais no fronte comercial.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Situação fiscal e cambial no Brasil.


Delfim Netto, na FOLHA, comenta a atual situação fiscal e cambial brasileira.

A situação fiscal da economia brasileira e o seu equilíbrio externo apresentam alguns sinais nebulosos. Nada que possa ser considerado ameaçador no curto prazo, mas cuja evolução exige cuidado. O último "Fiscal Monitor do FMI" ("Fiscal Adjustment in a Uncertain World", April 2013) compara a situação fiscal dos países do mundo entre 2008 (o ano em que se iniciou a crise que teima em não terminar) e 2012.

A situação do Brasil revela três fatos importantes: 1º) a crise não produziu um aumento substancial da relação dívida pública bruta/PIB; 2º) esta estabilizou-se em nível desconfortável quando comparada com a dos outros países emergentes; e 3º) a relação dívida pública líquida/PIB é muito mais alta do que a deles. 

Os efeitos do nível de endividamento e das exigências de seu financiamento devem exercer alguma pressão sobre a formação da taxa de juros real. Por outro lado, como a participação do financiamento externo é relativamente baixo, tudo se passa hoje como se o Brasil estivesse endividado em sua própria moeda, o que reduz o seu risco. O problema é que a nossa relação dívida pública bruta/PIB continua igual ao dobro da dos países emergentes. É a quarta mais elevada do mundo.

Um fato curioso é revelado pelos números da tabela: a queda da relação entre a dívida líquida e a dívida bruta. Vemos que em 2008 ela era menos discrepante da média dos países emergentes (69% contra 60%, ou seja, 15% de diferença). Em 2012 a distância aumentou (70% contra 51%, ou seja, 37% de diferença). Isso sugere que provavelmente estamos misturando um pouco menos do que deveríamos, de dívida "bruta" no cálculo da "líquida". É claro que a situação não é a mesma de 2008 (basta olhar para a acumulação de reservas), mas é inegável que sem adequado esclarecimento, criam-se dúvidas sobre a situação fiscal.

Para se ter uma ideia do que significa uma dívida pública bruta/PIB de 68,5%, basta lembrar que antes da crise (2008), essa era a relação na Alemanha, 66,8% (hoje é de 90,3%), e na França, de 68,2% (hoje é de 92,9%). De qualquer forma não acreditamos que a correção eleve a relação dívida líquida/PIB em muito mais do que 3% ou 4%. A questão é que ela já é muito elevada quando comparada com a média dos outros países emergentes (35,2% contra 24,7%).

Uma boa solução para melhorar a credibilidade dos números fiscais, que sentiram os efeitos das inúteis manobras contábeis, seria aprovar o projeto de lei que cria o Conselho de Gestão Fiscal. Estabelecido na Lei de Responsabilidade Fiscal, dorme esquecido no Congresso há pelo menos uma década.

O segundo assunto que ocupou o tempo dos analistas na última semana foram os resultados do balanço de transações correntes do primeiro trimestre, que atingiu 4,31% do PIB, contra 2,41% no seu homólogo de 2012. A balança comercial revelou redução de US$ 7,6 bilhões e depende de esclarecimento sobre os registros das importações da Petrobras.

As previsões do BC para o ano são menos sombrias: superávit comercial de US$ 15 bilhões, com as exportações crescendo 8,6%, e as importações, 11,6%. A estimativa para o déficit em transações correntes é da ordem de US$ 67 bilhões, quase igual ao montante dos investimentos diretos esperados para 2013, algo como US$ 65 bilhões. Entretanto, com as incertezas que cercam a economia, é natural que esses números sejam vistos com certa desconfiança.

Tal resultado não deveria ser surpresa, porque o comportamento da taxa de câmbio nominal e o salário nominal, ambos produto das próprias políticas social e econômica (ver gráfico), produziu fantástica valorização do câmbio real (a relação entre o câmbio nominal o salário real). Ela explica boa parte do persistente aumento do déficit em transações correntes. Um significativo montante desse déficit financia o consumo e não o investimento, o que tem sérias implicações para o longo prazo.

As alterações do câmbio real levam, em média, dois anos para influir no déficit em transações correntes. É o tempo que nos resta - em condições normais de pressão e temperatura - para reduzi-lo a partir de 2015.

domingo, 7 de abril de 2013

Capitalismo de Estado ganha mais força no Brasil.


NOURIEL ROUBINI - ESPECIAL PARA O PROJECT SYNDICATE

Na FOLHA DE S. PAULO, NOURIEL ROUBINI, professor de Economia da Escola Stern de Administração de Empresas, Universidade de Nova York e presidente da Roubini Global Economics (www.roubini.com), escreve e critica o capitalismo de estado, inclusive no Brasil.

Nas quatro últimas semanas, visitei Sófia, Kuala Lumpur, Dubai, Londres, Milão, Frankfurt, Berlim, Paris, Pequim, Tóquio, Istambul e EUA. Os inúmeros desafios que a economia mundial enfrenta estavam por perto.

Na Europa, o risco de uma dissolução da zona do euro caiu depois da decisão do Banco Central Europeu, no terceiro trimestre de 2012, de intervir para sustentar os títulos de dívida nacional.

Mas os problemas fundamentais da UE - baixo potencial de crescimento, recessão continuada, perda de competitividade e endividamento - não foram resolvidos.

Além disso, o acordo entre os países centrais da zona do euro, o BCE e as nações periféricas - dolorosa austeridade em troca de apoio financeiro - está se desfazendo porque o cansaço quanto à austeridade nos países periféricos contrasta com o cansaço de resgatar dos países centrais, como a Alemanha.

Na China, a transição de líder aconteceu sem solavancos. Mas o modelo econômico continua, na definição do ex-premiê Wen Jiabao, "instável, desequilibrado, descoordenado e insustentável".

Os problemas da China são muitos: os desequilíbrios regionais; o excesso de poupança e o baixo consumo; a alta da renda e da desigualdade de renda; e a imensa degradação ambiental.

Os novos líderes do país falam convictamente da necessidade de aprofundar as reformas e reequilibrar a economia, mas continuam cautelosos e conservadores.

Como resultado, as reformas necessárias para reequilibrar a economia podem não acontecer com rapidez suficiente para impedir uma aterrissagem dura quando a contração do investimento chegar, o que deve vir no primeiro trimestre de 2014.

Na China e na Rússia (e em parte no Brasil e na Índia), o capitalismo de Estado ganhou mais força, e isso é mau sinal para o crescimento.

No geral, esses quatro países (o grupo Bric) vêm recebendo elogios exagerados, e outros emergentes podem se sair melhor na década que vem - Malásia, Filipinas e Indonésia, na Ásia; Chile, Colômbia e Peru, na América Latina; e Cazaquistão, Azerbaijão e Polônia, na Europa Oriental e na Ásia Central.

Mais a leste, o Japão inicia uma nova experiência econômica para conter a deflação, estimular o crescimento e restaurar a confiança.

O modelo econômico tem diversos componentes: estímulo monetário agressivo; um estímulo fiscal neste ano para forçar uma retomada da demanda, seguido por austeridade fiscal em 2014; reformas estruturais; e novos acordos de livre comércio.

Mas os desafios são assustadores. Não está claro que a deflação possa ser vencida por meio de política monetária; um estímulo fiscal excessivo e a postergação das medidas de austeridade podem tornar a dívida insustentável; e a reforma está indefinida.

Temos também o Oriente Médio, que continua a ser um arco de instabilidade da África do Norte ao Paquistão. A Turquia quer se tornar uma grande potência regional. Mas o país tem muitos desafios nacionais a enfrentar. O deficit em conta-corrente é alto e a política monetária parece confusa, já que o estímulo ao crescimento tromba com o controle da inflação.

Nesse ambiente mundial frágil, será que os EUA se tornaram um farol de esperança? Eles experimentam diversas tendências econômicas positivas: o mercado de habitação se recupera, a exploração de petróleo e gás em campos de xisto reduzirá os custos da energia; a criação de empregos avança; os custos trabalhistas crescentes na Ásia estimulam o renascimento da indústria; e as medidas agressivas de relaxamento quantitativo ajudam tanto a economia real quanto os mercados financeiros.

Mas ainda há riscos. O desemprego e a dívida domiciliar continuam altos. O arrasto fiscal causado pelo aumento de impostos e cortes de gastos prejudicará o crescimento, e o sistema político é disfuncional, com a polarização entre os partidos impedindo soluções sobre o deficit fiscal, imigração, política de energia e outras questões que afetam o crescimento.

A zona do euro e o Reino Unido continuam afundados em recessão, agravada pelas política monetária e fiscal dura. Entre as economias emergentes, a China pode enfrentar uma aterrissagem dura, por volta do final de 2014, se as reformas estruturais essenciais forem adiadas, e os demais países do grupo Bric precisam deixar para trás o capitalismo de Estado.

Embora outros mercados emergentes na Ásia e na América Latina estejam mostrando mais dinamismo que o grupo Bric, sua força não bastará para virar a maré mundial.

Estadão: A demografia e o capitalismo.

Em artigo publicado na revista  Foreign Affairs  ( The Population Bust: Demographic Decline and the End of Capitalism as We Know It ), Zach...