domingo, 2 de setembro de 2012

A vitória do capitalismo.


Para seu domingo começar muito bem, leia abaixo a excelente entrevista da FOLHA DE S. PAULO com Sylvia Nasar sobre o seu novo livro "A Imaginação Econômica". Desde a semana passada que aguardo o envio pela SARAIVA desse livro e pela leitura que fiz da biografia do John Nash - "Uma Mente Brilhante", também escrito pela autora, acredito que terei novamente um ótimo texto para reflexão. Em 12 de agosto passado, postei sobre esse livro e continuo recomendando como imperdível leitura. Tenho certeza que alguns fiéis leitores deste blog concordarão com os comentários da Sylvia Nasar, enquanto outros, certamente, terão sérias restrições para algumas afirmações. Isso faz parte da vida econômica. Afinal, a moeda tem duas faces. Boa leitura e um ótimo domingo a todos.

Com a  formação em literatura e economia, a jornalista Sylvia Nasar investiga em livro dois séculos de história do pensamento econômico. Em entrevista, ela conta que se assustou ao descobrir que Marx não entendia conceitos básicos de economia e lamenta que seja mais lembrado que nomes como Alfred Marshall.

A lista de piores livros já escritos, para a jornalista americana Sylvia Nasar, autora do best-seller "Uma Mente Brilhante", inclui "O Capital", de Karl Marx, ao lado de "Minha Luta", de Adolf Hitler.

A falta de carinho em relação ao teórico do marxismo resultou do susto que Nasar, com formação em literatura e economia, tomou ao se aprofundar em sua obra. "Venho de um ambiente acadêmico marxista, então fiquei chocada quando percebi que Marx não entendeu conceitos básicos, como a ideia de juros", diz à Folha, em entrevista por telefone, de Nova York.

Nos últimos anos, Nasar organizou quase dois séculos de historia do pensamento econômico na obra *"A Imaginação Econômica" [trad. Carlos Eugenio Marcondes de Moura, Companhia das Letras, 584 págs., R$ 54,50]*, que chega agora ao Brasil.

O trabalho foi tão extenuante que ela prometeu a si mesma nunca mais escrever outro livro. Os questionamentos sobre Marx, no fim das contas, acabaram se tornando o elemento divertido da pesquisa. "Karl Marx e Friedrich Engels são grandes personagens, cheios de contradições", ela diz.

Contraditórios ou não, ambos foram, para Nasar, "fios constantes" na narrativa econômica nos dois últimos séculos -parte da mesma tradição que levou às manifestações do estilo "Ocupe Wall Street", que tomaram as ruas no ano passado para protestar contra o capitalismo.

Mas a acumulação de capital é um dos heróis de "A Imaginação Econômica". A autora afirma que "nunca houve outro arranjo social que tenha produzido ganhos tão sustentáveis". Essa é a "grande busca" a respeito da qual o título, em inglês, se referia ("Grand Pursuit"). Em português, sumiu a ideia de uma epopeia rumo a um mundo melhor.

Na entrevista a seguir, Nasar fala sobre o resgate de personagens esquecidos pela historiografia econômica, como Alfred Marshall e Beatrice Potter - e sobre aqueles que, acredita, deveriam ser menos lembrados.

Folha - Uma das ideias por trás de "A Imaginação Econômica" é a de que o capitalismo melhorou o padrão de vida no mundo. Mas temos visto protestos de quem pensa o contrário, como o movimento "Ocupe Wall Street".
Sylvia Nasar - Não há nada de novo nessas manifestações. Esse tipo de protesto começou ao mesmo tempo em que ocorreu a revolução nos meios de vida, no século 19. Essas críticas, como as encarnadas por Engels e Marx, foram fios constantes nessa narrativa. Isso é paradoxal. Nunca houve um arranjo social e um conjunto de instituições e de práticas que tenham produzido ganhos tão sustentáveis. Isso não apenas no que diz respeito a consumo material - hoje, a maior parte das pessoas pode fazer escolhas.

Por que então o capitalismo é visto por alguns como um mal?
Toda recessão, não importa se severa ou branda, produz questionamentos sobre se estamos realmente fazendo o melhor que podemos. Isso não é ruim. Um dos temas de "A Imaginação Econômica" é que os gênios da economia sempre pensaram que nós poderíamos fazer melhor.

Mas não acho que esses protestos sejam comparáveis às demonstrações de fúria que foram vistas durante a Grande Depressão, nos anos 30. Hoje, há uma rede de proteção muito maior. Muitos países podem proteger a população.

É o caso do Brasil?
Sim. A grande motivação de John Maynard Keynes e Irving Fisher para advogar pela intervenção estatal como modo de limitar a recessão - opondo-se à ideia de Friedrich Hayek e Joseph Schumpeter de deixar a natureza seguir seu curso - era evitar os riscos políticos.

Não é que eles pensassem que a economia não se recuperaria sozinha, mas que as pessoas iriam buscar soluções que tornariam os desastres piores. Na América Latina, o maior risco político sempre foi o populismo. Na Europa Ocidental e na Ásia, o comunismo.

A sra. diria que o socialismo perdeu a batalha como alternativa ideológica?
O que está falido é a ideia de que um sistema controlado pelo governo poderá produzir uma performance econômica superior, uma performance social superior.

Essa grandiosidade, a não ser para um número pequeno de pessoas, está morta por ora. A ideia de que há um modelo único que será seguido por todos para atingir sucesso econômico não é comprovada por evidência empírica.

Mas, se você está falando sobre socialismo como aquele do Estado de bem-estar social, acho que ele está aqui para ficar.

Recentemente você citou "O Capital", de Marx, como um dos piores livros já escritos.
Eu me diverti enquanto escrevia sobre marxismo. Marx era realmente esperto. Mas, infelizmente, ele nunca entendeu, ou quis entender, a coisa a que ele se dedicava, que era a economia inglesa.

Estudei economia depois de me formar em literatura. Estava em desvantagem. Era tão difícil, para mim, que nunca terminei meu PhD. Mas fiquei chocada quando percebi que Marx não entendeu conceitos básicos, como a ideia de juros. Os erros dele são tão elementares!

As pessoas têm suspeitado da economia como ciência, dizendo que não previu a crise.
Fazemos o melhor em termos de resolver as questões econômicas, e não há uma alternativa real ao pensamento econômico. Não é como na psicologia ou na engenharia, em que teorias competiram por território.

Você disse durante uma entrevista que, se pudesse escolher um livro para o presidente dos EUA ler, seria "A Imaginação Econômica". Em que essa leitura mudaria a política econômica americana?
Eu disse isso? [Risos] Foi realmente sagaz. Acho que, em tempos de crise, ter liderança é realmente importante.

As políticas de Franklin D. Roosevelt não fizeram nada para terminar com a Grande Depressão. As de Herbert Hoover, idem. As pessoas não sabiam o que fazer. Mas eles exalavam otimismo - não um otimismo ingênuo, de que o céu está limpo, mas a confiança de que, na economia de mercado e na democracia, há fundamento para sermos otimistas.

O que eu gostaria de ver é o presidente dos EUA, seja ele quem for, inspirar esse tipo de confiança. Será útil para as pessoas enxergarem que esse não é o fim do progresso. É um problema solucionável.

Na Europa, a impressão que se tem é de que não há solução.
Me surpreende que ainda haja quem argumente que não fazer nada é melhor do que fazer. Que equilibrar o Orçamento é prioridade máxima. Essa ideia não funcionou nos anos 1930!

As pessoas falam em uma "crise europeia", mas hoje há coisas como o seguro-desemprego. A crise não está causando o tipo de sofrimento visto na década de 30. Agora, há um grande colchão. Eles [os europeus] são tão ricos! As pessoas têm tempo de pensar no que funciona melhor. Não foi assim nos EUA.

Estive na Polônia, no outono passado. Todas as vitrines, nos shoppings, tinham como alvo o público jovem. Todas tinham descontos para estudantes. Minha filha me perguntou: "Ei, mãe, mas como estudantes conseguem comprar aqui?"

"Uma Mente Brilhante" era sobre uma pessoa. "A Imaginação Econômica", sobre uma ciência. São abordagens opostas?
Sim. Foi isso o que me deu trabalho. "Uma Mente Brilhante" foi uma tarefa de repórter. Só um jornalista conseguiria fazer. Não havia textos de referência, foram necessárias centenas de entrevistas.

Em "A Imaginação Econômica", lidei com ideias. Foi como escrever dez biografias diferentes. Organizar tantos personagens e teorias em uma história linear exigiu muito esforço. Não sou uma grande pensadora. Sou boa para os detalhes e para as conexões.

Qual seria o resultado de "A Imaginação Econômica", se você não fosse jornalista?
Nenhum economista escreveria esse livro. Eles não dedicariam o tempo deles para isso. É preciso ser um generalista. Cada pessoa, cada evento sobre os quais escrevi no livro tem uma indústria de acadêmicos por trás dele.

Acadêmicos não fazem isso, e não deveriam - mas jornalistas podem entrar em um assunto em "estado de ignorância", confiando na sua habilidade de reunir informações e contar histórias.

Nesse processo, você resgatou personagens esquecidos pelas narrativas tradicionais, como Beatrice Potter e Alfred Marshall.
E Irving Fisher. Quando entrevistei [o economista] Milton Friedman, ele me disse voluntariamente que o maior economista americano do último século foi Fisher. Mas ninguém fora do meio econômico sabe quem ele é. Ele desapareceu do conhecimento popular.

É como Alfred Marshall, que todos tratam como um vitoriano fora da realidade, mas que era muito mais consciente sobre a situação inglesa do que Marx.

Acho isso engraçado. Como é que Marx, o cara que estava errado, terminou como um santo e Marshall, o cara que era realmente uma força criativa, teve suas contribuições minimizadas?

Você esteve ocupada com grandes projetos nos últimos 15 anos. Qual é o impacto na sua vida?
No final de "A Imaginação Econômica", disse aos meus filhos - se eu disser que vou escrever um livro de novo, por favor peguem uma arma e atirem em mim.

Quando você está fazendo uma reportagem, pode entregar o texto ao editor e aproveitar o fim de semana. Quando escreve um livro, está sempre se sentindo culpado. Ou está trabalhando, ou está evitando trabalhar.

Mas foi bom que eu tenha demorado tanto para escrever esse livro. A única época em que as pessoas se interessam por economia é durante recessões.

sábado, 1 de setembro de 2012

Leituras imperdíveis.

A EXAME desta quinzena está imperdível. 

1 - Guzzo cita que o volume de falsificações feitas no Banco do Brasil, revelado pelo processo do mensalão, é um possível recorde mundial: 80.000 notas frias.

2 - Uma entrevista com Paul Krugman, Nobel de Economia, colunista mais odiado e mais admirado dos Estados Unidos e que visitará o Brasil em setembro,  afirma que "o ambiente no Brasil não é perfeito, mas tem sido calmo e positivo".   

3 - A resenha do novo livro do Thomas Friedman, "Éramos Nós: A Crise Americana e Como Resolvê-la", lançado no Brasil em junho pela Companhia das Letras. E informa, por exemplo, que "hoje, 75% dos jovens americanos entre 17 e 24 anos não conseguem se candidatar a uma vaga nas Forças  Armadas. E um dos motivos é que parte deles não completou o ensino médio". Isso é preocupante mesmo.   

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A Educação faz a diferença na política?

O economista GUSTAVO IOSCHPE é um estudioso da educação brasileira e rotineiramente através da VEJA tem demostrado que o ruim pode ficar péssimo. 

Recentemente foi divulgado o IDEB - Índice de desenvolvimento da Educação Básica e o Gustavo fez algumas análises interessantes, o que nestes tempos de eleições, bem que os candidatos deveriam delas tomar conhecimento. 

Por exemplo, algum prefeito do nordeste brasileiro pode explicar porque seu município citado abaixo está entre os dez piores no IDEB, enquanto no sul e sudeste maravilha, os dez primeiros lugares estão com eles?

Redes Municipais com MAIOR IDEB:
  1. Salto-SP
  2. Sorocaba-SP
  3. Americana-SP
  4. Sertãozinho-SP
  5. Patos de Minas-MG
  6. Jaraguá do Sul-SC
  7. Joinville-SC
  8. Ribeirão Pires-SP
  9. São José dos Campos-SP
  10. Bento Gonçalves-RS
  11. Conselheiro Lafaiete-MG


Redes Municipais com MENOR IDEB:
  1. Maceío-AL
  2. Olinda-PE
  3. Jequié-BA
  4. São Lourenço da Mata-PE
  5. Vitória de Santo Antão-PE
  6. Salvador-BA
  7. Santa Rita-PB
  8. Igarassu-PE
  9. Recife-PE
  10. Campina Grande-PB


Será que os prefeitos das cidades acima não choram ao ver seu município numa situação tão desabonadora? Enquanto o Brasil não for um país com educação de qualidade, de nada adiantará eventos tipo Copa do Mundo e Olimpíadas. Estaremos sempre atrasados no que existe de mais novo no campo das ciências, com determinada parte da classe política sendo beneficiada pelo atual status quo. 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Marcelo Neri no IPEA: uma vitória da pesquisa.


Leio na FOLHA DE S. PAULO que, oficializado ontem no cargo, o novo presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), Marcelo Neri, 49, afirma que tentará aproximar o instituto dos ministérios para transformar ideias nascidas no meio acadêmico em políticas públicas.

Ele assume um orçamento que, no ano passado, foi de R$ 305 milhões e uma equipe de cerca de 250 pesquisadores. Na sua visão, estrutura de primeira grandeza: "[Essa estrutura] equivale a dez grandes departamentos de economia. As pessoas ganham bem, os salários são bons", diz. "Dá para fazer mais com o que temos".

Neri indica que seu foco é dar uso prático ao conhecimento do instituto. "O que mais ouço é: 'Para que serve o Ipea?'. Como fazer o instituto trabalhar mais para os ministérios é o nosso desafio", diz.

Em uma crítica velada ao ex-presidente do instituto Márcio Pochmann, Neri afirma que buscará unir as diferentes correntes de pensamento econômico que convivem no instituto. Nos últimos anos, o Ipea esteve no centro da rivalidade entre desenvolvimentistas e liberais. "Vejo o Ipea como a seleção. Todos estão jogando pelo Brasil e não pelo time A ou pelo time B", disse Neri, formado na escola liberal.

A ida do economista para o Ipea é atribuída a seus estudos que popularizaram o conceito de "nova classe média" -nome dado à população que saiu da pobreza com ganho de renda. O tema passou a integrar a lista de feitos políticos do PT. Neri, contudo, diz que suas pesquisas nem sempre agradaram ao governo: "Fomos os primeiros a dizer que a miséria havia aumentado no primeiro ano do governo Lula e que a crise de 2009 não tinha sido só uma 'marolinha'". 

Nota: Marcelo Côrtes Neri é economista do 1º time, pesquisador rigoroso e criador de uma agenda de pesquisa fascinante e central. Parabéns ao novo presidente e muito sucesso em sua nova atividade. Destaco que em 23 de junho passado este blog registrou a real possibilidade do Neri assumir o IPEA. Mais uma vez, acertamos.   

sábado, 25 de agosto de 2012

Entrevista na FOLHA com Mônica de Bolle.


Hoje na FOLHA  uma boa entrevista com a economista Mônica Baumgarten de Bolle, 40, diretora do Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças, local que reúne economistas de pensamento liberal, muitos deles formados na PUC-RJ.

Leia abaixo trechos da entrevista à Folha.

Folha - Por que a economia está parada?
Mônica de Bolle - A indústria, que não vai bem há pelo menos dois anos, é em parte responsável. O segundo fator foi uma quebra de safra agrícola brutal. Isso e o baixo crescimento nos EUA, a recessão na Europa e a desaceleração na China explicam o PIB do primeiro semestre.

Como fazer para tirar a economia dessa situação?
Mais investimento. No início dos anos 2000, a taxa de investimento do Brasil era de 15% sobre o PIB. Hoje está em torno de 19%, muito aquém de países como Chile, que investe perto de 28%, e México, 25%. Numa conta rápida, precisamos investir ao menos 8% a mais por ano para chegar a taxas comparáveis a essas nos próximos cinco anos.

O que a sra. achou do pacote de concessões em infraestrutura lançado pela presidente Dilma Rousseff?
O anúncio carrega sinalizações importantes, como o reconhecimento de que existe um problema grave de infraestrutura no país. O mais importante é a mudança de posição do governo em relação à participação do setor privado nos grandes projetos. Mas nada disso vai ter um efeito de curto prazo.

A sra. concorda que a política de crescimento econômico com base no incentivo ao consumo está se esgotando?
Não gosto desse bordão e não acho que seja verdade. Houve incentivo ao consumo, sim, e muito. Mas o crescimento de 2004 a 2010 veio também do investimento e do gasto público. Agora as famílias estão amortizando suas dívidas em um cenário de queda de juros e de pleno emprego. São condições ótimas para a volta do consumo.

Como temos pleno emprego no Brasil se a indústria vai mal e economia anda de lado?
O perfil da economia brasileira mudou. O setor de serviços, intensivo em mão de obra, ganhou espaço onde a indústria perdeu.

Quais os riscos de uma economia mais baseada em serviços do que em indústria?
Não existe na literatura acadêmica evidência de que a indústria seja superior a serviços em investimento, tecnologia e produtividade. Não dá para comparar cabeleireiro com fabricante de equipamentos para poços de petróleo. Mas o setor de serviços não é só isso. Pode incluir pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de ponta.

Qual o papel da indústria na reativação da economia?
Pelo visto o país quer um setor industrial grande. Há basicamente dois modelos. Os EUA têm o que eu chamo de indústria hipermercado. Produzem de tudo, de sapato a equipamentos médicos de alta tecnologia. Já alemães e coreanos focam em engenharia e tecnologia de ponta. São modelos, e precisamos encontrar o nosso. Com o grau de globalização do mundo, não é razoável acharmos que vamos produzir o que quer quer seja como a China, que tem mão de obra mais barata.

Qual seria nossa vocação?
Um setor que é fantástico e altamente competitivo, e que as pessoas não enxergam como indústria, é o agroindustrial. Com essa infraestrutura em frangalhos que temos, como um produtor lá no interior do Brasil consegue escoar sua produção para o porto e vender no exterior a um preço competitivo?

Qual sua expectativa para o PIB em 2012?
Acho que em 2013 chegamos perto de 4%. Neste ano, está praticamente impossível crescer mais de 2%.

Qual comparação a sra. faz entre as políticas econômicas de Dilma, Lula e FHC?
Comparar com FHC é muito difícil, porque são momentos absolutamente distintos da economia brasileira. O governo FHC estava construindo a estabilidade macroeconômica e esse foi seu grande legado. O país não tinha credibilidade nenhuma no exterior. Ele plantou as sementes que Lula colheu mais tarde.

E entre Dilma e Lula?
Em termos de cenário externo, Lula surfou uma onda inacreditável, mesmo com a crise de 2008. A Dilma pega um cenário externo mais hostil. Por outro lado, ela tem um projeto para o país, mesmo que não saibamos muito bem o que é. O Lula tinha um projeto de permanência no poder. Ela tem visões maiores. Se concordamos ou não, é outra história. O que eu acho ruim na Dilma é o seu viés intervencionista. As medidas de proteção à indústria e de conteúdo local não vão fazer bem para o país. Mas até seu intervencionismo é pragmático. O plano de concessões mostrou isso. Ela parece querer mostrar que não tem medo de mexer nesses ninhos de vespa.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O aumento do investimento.



Antonio Delfim Netto escreveu este artigo no VALOR de 21.8.2012. 

Gostemos ou não, a organização social ("simplisticamente" chamada de capitalismo) que o homem encontrou no desenrolar de sua história através de uma seleção quase natural é, até agora, a única que permitiu conciliar, numa medida imperfeita, a liberdade de iniciativa dos indivíduos com uma relativa eficiência produtiva. Ela dá resposta aos crescentes desejos de consumo criados pelo aumento constante da própria liberdade.

Trata-se de um movimento que depende basicamente da construção de um Estado forte, constitucionalmente controlado, capaz de assegurar o bom funcionamento de quantos mercados forem necessários para a manifestação da liberdade de iniciativa e assegurar que os benefícios dela decorrentes possam ser apropriados pelos agentes que a promovem. É por isso que a propriedade privada e a segurança jurídica são condições necessárias, mas não suficientes, para que o ciclo se complete continuamente, cada vez num nível produtivo mais elevado.

Nos casos dos países emergentes com contingente demográfico significativo, que pretendem ser repúblicas e democracias, o processo se repete: começam importando os padrões de consumo e a tecnologia dos mais avançados antes de criarem a sua. Diante desse quadro, é evidente que a antinomia Estado versus mercado é imprópria e prejudicial: não há administração estatal eficiente sem utilizar os mecanismos de mercado, e não há mecanismo de mercado que possa funcionar sem as garantias de um Estado suficientemente forte para controlá-lo.

Neste momento, o excesso de pessimismo que se abateu sobre a economia nacional - em parte consequência da mundial, e em parte resultado de entendimento defeituoso do mercado financeiro com relação aos objetivos da política econômica do governo -, parece começar a ceder e dar lugar a uma pequena recuperação da atividade. Nada mais oportuno e importante para acelerá-la do que o amplo programa de cooptação do setor privado anunciado pela presidenta Dilma Rousseff para a ampliação dos investimentos em infraestrutura.

Trata-se de um programa ambicioso, que revela uma nova postura do governo federal: 1) declara definitivamente superada a desconfiança mútua (sempre negada explicitamente) entre ele e o setor privado, mais dinâmico e melhor apetrechado de técnica e recursos; e 2) devolve aos programas do governo uma visão logística estratégica, que incorpora e integra as rodovias com as ferrovias, com os portos e a geração de energia.

A criação da Empresa de Planejamento Logístico (EPL) recupera e amplia o velho Grupo Executivo de Integração da Política de Transporte (Geipot) criado em 1965, transformado em empresa em 1973, extinta pela irresponsável "reforma" do Estado de 1990. A partir daí, destruiu-se a coordenação logística do governo. Lentamente ela foi sendo entregue à sanha dos partidos que apoiam o "presidencialismo de coalizão de plantão".

O resultado foi o caos temperado com uma boa dose de corrupção, como mostra, exemplarmente, o caso da Valec. Um ponto importante é que a EPL será dirigida por um técnico de reconhecida probidade e competência, Bernardo Figueiredo.

Outro aspecto significativo do novo programa foi a autorização para o aumento das dívidas de 17 Estados, cujas condições financeiras e administrativas são adequadas para acelerar suas próprias obras de infraestrutura: mobilidade urbana em suas capitais, estradas, saneamento básico e habitação, importante não apenas para ajudar a estimular o crescimento econômico mas, também, melhorar as condições objetivas de vida de suas populações.

O papel do governo federal é de integrador do território nacional, mas a vida de cada cidadão depende de condições locais, dos Estados e municípios. O montante de endividamento autorizado é razoável: da ordem de R$ 42 bilhões. Depois dos imensos abusos que destruíram a credibilidade de Estados e municípios e foram corrigidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal, é saudável a mudança do entendimento (até agora vigente), que todo e qualquer endividamento é um pecado capital.

Entre o programa e o começo da sua efetiva execução será preciso pelo menos 12 meses, se houver a colaboração dos órgãos de controle ambiental e entendimento adequado do Ministério Público e do Tribunal de Contas da União, sem esquecer o apoio rápido e decisivo do BNDES pelo seu departamento de infraestrutura, hoje dirigido pelo excelente economista Guilherme Lacerda.

Certamente haverá um efeito antecipado sobre o ânimo da sociedade, que começa a ver uma pequena retomada econômica em resposta às medidas fiscais, monetárias e cambiais executadas até agora. A redução da desconfiança mútua entre o setor privado e o governo vai melhorar o ambiente de negócios em todos os setores. O primeiro não quer e não precisa de benesses ou subsídios. Precisa: 1) de condições isonômicas para competir; e 2) de leilões bem projetados, não apenas para atender o presente, mas, principalmente, sustentar investimentos futuros que garantam a melhoria permanente da qualidade dos serviços.

Caiu a ficha! Quando a incerteza sobre o futuro é absoluta, quando o passado não contém informação sobre o futuro, só uma ação decidida e forte do Estado, como a que estamos vendo, pode pôr em marcha o setor privado e a economia. Essa ação, correta e crível, é capaz de antecipar a esperança...

domingo, 19 de agosto de 2012

Os economistas da primeira-dama da economia.

Trecho de recente matéria especial do VALOR ECONÔMICO com a       primeira-dama da economia brasileira.

Apesar do rarefeito clima para o livre exercício do pensamento - piorado depois do Ato Institucional nº 5, em dezembro de 1968 -, surgiu uma nova geração de economistas, que influenciaria o debate macroeconômico do país pelos 40 anos seguintes. "Era uma geração de cinco brilhantes economistas", afirma e, sem acanhamento, inclui-se entre eles. No lado do governo, destaca Antônio Delfim Netto e Mário Henrique Simonsen. Na oposição, ela própria e seus colegas, sete e oito anos mais jovens, Carlos Lessa e Antônio Barros de Castro, autores de "Introdução à Economia - Uma Abordagem Estruturalista", best-seller entre estudantes de economia, já na 31ª edição.
Aposentada. Mas não retirada, isolada, distante. Aos 82 anos, Maria da Conceição Tavares tem direito ao relaxamento, ocupar-se com outras coisas além dos gráficos, tabelas, estatísticas que povoaram sua vida e seu cérebro desde a graduação em matemática na Lisboa dos anos 50 do século passado. "Já não gosto de economia", diz. Mas isso é apenas a expressão de um desejo de tranquilidade, pois nos minutos seguintes está a falar do necessário impulso para o Brasil e o mundo voltarem a crescer: "Você paralisa uma economia com corte de investimento público e alta de juros. É como fechar uma janela puxando um cordão. Mas você não abre uma janela emperrada com um cordão, talvez seja preciso um porrete. No sentido figurado, é claro".

Sinal amarelo: consumo sem poupança.

PARAUAPEBAS, PAÇO DO LIMIAR, JUAZEIRO DO NORTE, CARUARU, cidades aqui das regiões Norte e Nordeste estão na capa da EXAME em matéria exclusiva sobre o novo mapa do consumo brasileiro. 

Em 2020, o mercado consumidor do Brasil deve se tornar o quinto maior do mundo, ultrapassando França, Inglaterra e Itália. Hoje o Brasil é o oitavo maior mercado consumidor do mundo. 

No entanto, a EXAME ressalta quenenhum economista sério encara o consumo como um fim em si mesmo. Sem investimentos, sem avanços na área da educação e sem inovação nos setores mais importantes da economia, o aumento de renda não se sustenta e os períodos de forte expansão de consumo viram voos de galinha”.  

A matéria também informa que a poupança privada brasileira gira em torno de 5% do PIB, pouco se comparada à dos chineses, equivalente a 20% do PIB.  

Paul Ryan, o vice de Mitt Romney, é economista.


Hoje, na FOLHA DE S. PAULO, Richard Hart, o mentor e professor de Paul Ryan, recorda dos tempos de universidade de seu aluno mais brilhante.  

Paul Ryan, 42 anos, se formou em economia e ciência política em 1992 antes de se mudar para Washington, onde trabalharia como assessor parlamentar até ser eleito, em 1999, aos 28 anos.

"Não tinha ideia de que ele entraria na política, tinha vários alunos como ele, superbrilhantes", conta Hart. "Mas sabia que ele teria sucesso."

Foi no plantão de dúvidas que Hart se aproximou de Ryan, em 1991. Os encontros eram frequentes e animados.

"Havia três coisas que ele lia muito na época: John Locke, Friedrich Hayek -passamos bastante tempo debatendo 'O Caminho para a Servidão'- e Milton Friedman, Paul lia muita coisa dele."

O filósofo político inglês do século 17, o Nobel de economia austríaco (1899-1992) e Friedman (1912-2006), influente economista (e Nobel)americano, formam a santa trindade do liberalismo econômico que, segundo Hart, moldou as ideias de Ryan.

Quando o deputado voltou à universidade para discursar na formatura de 2009, atribuiu ao campus sua visão econômica, a mesma visão austera repetida em comícios com Mitt Romney país afora.

O único mentor citado no discurso, em que exortou os formandos a "não cederem ao conformismo da direita nem da esquerda", foi Hart.


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Quem tem medo do mercado?


Que ótimo localizar esta matéria da VEJA - página 66 -  num site do governo. O texto tem muito a ver com o que discutimos neste blog. Leitura imperdível para todos, especialmente para quem faz parte do governo. 
Nenhum outro sistema da história humana foi mais revolucionário e tirou mais gente da miséria do que o capitalismo, mas o bacana é posar de crítico engajado em alternativas que ninguém sabe quais, para que ou como implementá-las
Alguns entrevistados ouvidos por VEJA para a reportagem de capa desta edição disseram que a presidente Dilma Rousseff foi corajosa em recorrer à iniciativa privada em busca de soluções técnicas e recursos para desatar nós que há décadas impedem a economia brasileira de crescer com todo o seu potencial. Corajosa por quê? Primeiro, porque ela e seu antecessor, mesmo governando com pragmatismo, foram eleitos com a retórica antimercado, e, portanto, não cai politicamente bem recorrer à iniciativa privada em busca de soluções para grandes problemas do país. Segundo, porque o capitalismo nunca venceria uma competição de popularidade em nenhum segmento mais expressivo da população brasileira e mundial. Sua imagem é especialmente ruim agora que o sistema de livre mercado vem sofrendo inevitáveis condenações por seu papel decisivo na eclosão da crise financeira de 2008 em Wall Street e pelo resultante desarranjo produtivo que desestabilizou as economias reais de virtualmente todos os países.
Desde que foram criadas as condições materiais, tecnológicas, culturais, políticas e legais para sua instalação na Inglaterra, há menos de 200 anos, o capitalismo é criticado. Como a matéria e a antimatéria na teoria física, o surgimento do primeiro capitalista gerou o primeiro anticapitalista. Tem sido assim. Provavelmente, sempre será assim. Em todos os tempos da era industrial e pós-industrial, o bacana mesmo foi ser uma pessoa engajada em uma alternativa ao capitalismo. Antes foram o anarquismo e o marxismo e suas representações reais catastróficas, os governos comunistas. Agora é um certo ambientalismo extremista, que prega a volta da humanidade aos tempos das cavernas, algo tão impraticável quanto empurrar a pasta de dentes de volta para o tubo.
Não é de hoje que a crítica justa e necessária aos excessos do capitalismo é apenas um aperitivo para a negação total e utópica do sistema. Sob esse ponto de vista, tem razão quem acha que a presidente Dilma precisou de coragem para anunciar a adoção de práticas do livre mercado em seu governo, por meio de associação com empresas privadas dentro da regra do jogo de mercado. Hoje em dia, governantes de qualquer país têm quase de pedir desculpas quando, a exemplo de Dilma, recorrem às virtudes da livre-iniciativa – eficiência, gestão, controle de gastos e compromisso comresultados. Na Inglaterra, berço do capitalismo, também é assim. O show de abertura da Olimpíada de Londres foi um exemplo recente. O ator Kenneth Branagh interpretou Isambard Kingdom Brunel, engenheiro do século XIX, ícone do capitalismo clássico: construtor de pontes, estradas de ferro, túneis e navios a vapor. Mostrado de fraque e charuto na mão, como os capitalistas de caricatura, Brunel teve suas realizações esquecidas no show olímpico em favor de chaminés fumarentas e operários explorados. É preciso ter coragem para celebrar o capitalismo, sistema econômico que está longe de ser perfeito, mas, a exemplo da democracia na política, é melhor do que todos os demais.

Um Brasil que sobe e desce.


Na FOLHA DE S. PAULO de ontem:

Pela quinta semana, o mercado elevou as projeções para o IPCA, índice oficial da meta de inflação, devido ao aumento internacional nos preços dos alimentos.

A expectativa agora é que o IPCA suba 5,11% em 2012. No início de julho, a previsão era de alta 4,85%. Até julho, o índice subira 2,76%. Para o PIB, a projeção é de alta de 1,81%. Há um mês, era de 2,01%. 

Ainda sobre o Dia do Economista.


José Maria Alves da Silva, doutor em economia, professor da Universidade Federal de Viçosa, escreveu este texto na FOLHA DE S. PAULO no Dia do Economista, 13.08.2012.

Hoje, formamos técnicos sem sintonia com questões sociais. Livros americanos que usamos não ensinam economia política e não servem para a soberania.

Ainda na vigência da ditadura militar, houve no Brasil um grande movimento reivindicatório de reforma curricular do ensino de economia.

Ansiava-se por escolas que também contribuíssem para a formação de massa crítica e atenta à realidade nacional, em vez de meramente formar técnicos para empresas ou burocratas estatais alienados, como se acreditava ser o intento da ditadura.

Depois de intensas discussões, a reforma foi implementada, em meados dos anos 1980. Como parte dela, introduziu-se a economia política no currículo mínimo, junto com distribuição mais equilibrada entre disciplinas de história, teóricas e instrumentais, e a obrigatoriedade da monografia de conclusão de curso, para iniciar os alunos na pesquisa aplicada a problemas nacionais.

Mas, após tantos anos, temos a impressão de que a formação dos nossos economistas está pior que antes.

As economias políticas estão aí nos currículos, só que marginalizadas. Servem mais para adornar grades curriculares e preencher a carga horária exigida do que cumprir o papel que se esperava delas.

O núcleo duro dos cursos mais conceituados é pleno de teorias e modelos difundidos por manuais norte-americanos, do chamado "mainstream economics", com seus acessórios matemáticos, econométricos e tudo aquilo que, como diria o filósofo Álvaro Vieira Pinto, pode servir para formar "serventuários do poder supremo", mas não "agentes de desenvolvimento econômico", sintonizados com a nossa história e com nossos grandes problemas sociais.

Até o curso economia brasileira serve mais de pretexto para a aplicação de técnicas do que para a análise histórica do país. A monografia se tornou atividade burocrática extremamente vulnerável à corrupção. A despeito das dificuldades crescentes de leitura e escrita, ninguém deixa de tirar o diploma por falta dela.

Antes, ao menos existiam grandes polêmicas, como o célebre debate entre monetaristas e estruturalistas, com posições pró- EUA e pró-América Latina. No time dos estruturalistas, muitos não tinham pós-graduação, mas eram intelectuais de notório saber. Paradoxalmente, de lá para cá o número de doutores aumentou muito, mas o debate foi se esvaziando à medida que íamos sendo arrastados pelo que Mário Possas chamou de "cheia do mainstream".

O que motivou a reforma curricular nos anos 1980 foi a crença de que o Brasil precisava de um ensino de economia menos teórico-abstrato e mais político-normativo.

Mas, por incrível que pareça, depois de quase 20 anos de partidos no poder que se declaravam de esquerda ou centro-esquerda, nos quais ocupam lugares de destaque muitos dos que haviam ardentemente lutado pela reforma, a situação do ensino de economia é causa de profunda frustração entre aqueles que depositaram grandes esperanças nela -e ainda sonham com um país soberano e socialmente progressista.

Para esses objetivos, o "mainstream economics" é totalmente contraindicado. Não serve para orientar a saída do subdesenvolvimento e, como a crise econômica mundial tem demonstrado, nem mesmo para a compreensão dos graves defeitos do capitalismo contemporâneo.

Essas impropriedades, descortinadas por Hyman Minsky há mais de duas décadas, estão em processo de amplo reconhecimento, como bem indica episódio recente envolvendo o curso de economia oferecido por Gregory Mankiw, em Harvard.

Depois da leitura de um manifesto no qual o acusavam de "apresentar uma visão específica e limitada da economia, que contribui para perpetuar um sistema problemático e ineficiente de desigualdade econômica", os alunos abandonaram a sala de aula, em solidariedade ao movimento Occupy Wall Street.

Mankiw, ex-assessor econômico de George W. Bush, não por acaso, é o autor do livro de economia mais vendido no Brasil.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

13 de Agosto - Dia do Economista.



Parabéns a todos os colegas economistas nesta data, cuja origem foi uma lei sancionada pelo presidente Getúlio Vargas. 

Vale salientar que Getúlio, que não era Economista, foi ministro da Fazenda no governo Washington Luís. Dessa época, o cearense Lira Neto, autor do ótimo GETÚLIO 1882 - 1930, destaca o seguinte diálogo:

"O senhor tem inimigos?" perguntou um biógrafo.

"Devo ter; mas não tão fortes que não possa torná-los amigos", responderia. 

"E amigos?", insiste o biógrafo.

"Claro que os tenho; mas não tão firmes que não venham a se tornar inimigos", replicaria Getúlio.   

   

Lições de Economista - 13.08.2012


Roberto Luis Troster, doutor em economia pela USP, é consultor. Foi economista-chefe da Febraban e professor da PUC-SP, Mackenzie e USP e escreveu este artigo na FOLHA DE S. PAULO de hoje.  

Os economistas estão em dívida com o país. A categoria tem de insistir em reformas trabalhista e tributária, contra crescimento baseado em mais gasto público.

A origem do nome da profissão vem da Grécia Antiga. O desafio do profissional da área é saber combinar princípios científicos, uma leitura crítica da realidade e conhecimentos de outras disciplinas para gerir, planejar, prescrever, prever e explicar, procurando soluções adequadas para a sociedade.

No Brasil, alguns economistas já passaram à imortalidade, como Celso Furtado e Mario Henrique Simonsen. Outros ainda nos agradam como analistas, professores, estrategistas e gestores de empresas, de cidades e de países. Dois destaques especiais: a presidente, que é economista, e Roberto Macedo, merecidamente eleito economista do ano.

Bons economistas contribuem para que alguns países tenham desempenho melhor do que outros, com mais crescimento, menos inflação e distribuição de renda mais justa.

Nesse quesito, a categoria está em dívida com a sociedade brasileira.

Ela tem o dever de fazer o Brasil, que é um país rico, um país próspero. A diferença é fundamental.

Ilustrando o conceito: um país fica rico se descobre uma jazida de ouro. A cada ano que passa, extrai o metal, e esse será o seu produto. No dia em que a mina se exaurir, acabará a sua riqueza aurífera. Se tiver consumido todo o produto, entrará em crise. Mas se tiver usado parte para investir, vai ser tornar próspero e continuar crescendo. Essa é a questão chave no Brasil de hoje.

Até agora, os resultados nesse sentido são pífios.

Nossa história econômica é de ciclos, fases de ilusão, como a borracha e o café, seguidas de decepções. O crescimento é obtido consumindo a abastança, aumentando gastos públicos correntes até que o endividamento irresponsável se esgota.

A única parcela da riqueza que perdura é a que foi transformada em prosperidade. O Brasil é rico, descobriu o pré-sal, tem jazidas de minérios abundantes, o preço das suas exportações está em alta, a sua pirâmide demográfica é conveniente e o ambiente externo lhe é favorável, com taxa de juros baixas e investimentos diretos volumosos.

Todavia, as projeções de crescimento são baixas, o Brasil é lanterna na América Latina. Não se justifica, é possível mudar. A agenda para fazer o país próspero é extensa e complexa, mas viável. Inclui avanços na educação, reformas tributária, trabalhista, do Judiciário e administrativa e a inclusão de marginalizados. Exige adequações urgentes em dois itens fundamentais: na oferta de crédito e no papel do Estado.

A intermediação financeira brasileira é sofisticada e tem potencial de ser propulsora do crescimento, mas está se tornando uma trava em razão de distorções existentes. É imperativo soltar o freio de mão com uma nova arquitetura que promova o crédito responsável, a inclusão financeira e o investimento.

Fatores como globalização, tecnologia, Google, abertura comercial e financeira, formação de cadeias produtivas mundiais e interconectividade decretaram a obsolescência da nossa gestão pública. Urge mudar a política reacionária do governo.

As soluções para tornar este rico país próspero exigem imaginação, suor, cidadania, perseverança e pressa de todos os brasileiros. A importância dos economistas é fundamental, propondo a direção a ser seguida para concretizar a tarefa.

Nesse sentido, a pergunta que não pode calar hoje, dia do economista, é se o Brasil que temos é o Brasil que queremos. Se a resposta é não, mãos à obra, temos que mostrar serviço.

Hoje, parabéns a todos os colegas.

Marcos Lisboa: A conversa intelectual do economista.

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