quinta-feira, 24 de maio de 2012

Projeções para o PIB caem mais com economia fraca


No Valor, em 22/5/12, notícia sobre o PIB brasileiro. Recebi o texto do grupo de Economia Política.

Já não há mais dúvida de que o Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre, a ser anunciado no início do próximo mês, não será nada animador. A economia está devagar e são poucas as chances de o crescimento deste ano superar em muito os fracos 2,7% de 2011.

Uma previsão desse cenário nada auspicioso foi vislumbrada no comportamento do Índice de Atividade Econômica do Banco Central, chamado de IBC-Br, divulgado sexta-feira, que assustou até os mais pessimistas. Concebido como indicador antecedente do PIB, o IBC-Br caiu 0,35% em março em relação a fevereiro, a terceira queda consecutiva, acumulando crescimento de apenas 0,15% no primeiro trimestre em relação ao último trimestre de 2011 na série com ajustes sazonais; e de 1,06% frente a igual período de 2011, sem ajuste.

Espera-se que o PIB do primeiro trimestre seja um pouco melhor, mostrando expansão de 0,3% a 0,4%, mas não o suficiente para sustentar a meta do governo de que a economia cresça 4,5% neste ano nem a do Banco Central, de 3,5%. Até o ministro da Fazenda, Guido Mantega, está mais conformado e já admite que um crescimento igual ao de 2011, de 2,7%, já seria "muito bom". No mercado financeiro, há consultorias esperado índices ainda menores.

O primeiro sinal de alerta foi o comportamento da produção industrial, que diminuiu 3% no primeiro trimestre em comparação com igual período de 2011, com retração em 15 dos 27 setores industriais pesquisados. A maior queda foi na fabricação de veículos automotores, que recuou 20,4% em comparação com o primeiro trimestre do ano passado. Na comparação anual, também diminuiu a produção de máquinas e materiais elétricos (12,1%), material eletrônico e equipamentos de comunicações (13,1%), máquinas para escritório e equipamentos de informática (12,7%), borracha e plástico (5,1%), têxtil (7,5%) e vestuário e acessórios (14,1%).

O setor de veículos voltou a convencer o governo de que precisava de ajuda, com estoques equivalentes a 43 dias de vendas no fim de abril e queda de 3,4% das vendas no primeiro quadrimestre. Ainda ontem foram anunciadas medidas de estímulo. Apesar da arrecadação inferior à esperada neste início de ano, o governo reduziu o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de automóveis e utilitários e o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) do crédito para pessoas físicas. Além disso, diminuiu o recolhimento compulsório dos bancos para aumentar a oferta de financiamento para aquisição de veículos.

Já as vendas no varejo começaram o ano bem, graças às medidas de estímulo do governo ao setor de eletrodomésticos da linha branca e móveis e ao aumento da renda das famílias. O chamado varejo restrito, excluído o desempenho de automóveis, peças e material de construção, cresceu 0,2% em março em relação a fevereiro e 4% em comparação com o último trimestre de 2011. A principal sustentação do consumo das famílias está no ganho real de renda, que cresceu 5,6% em março em comparação com igual mês de 2011, uma vez que a oferta de crédito está contida pela inadimplência e endividamento elevados. Já o varejo ampliado teve aumento de 0,6% entre março e fevereiro, graças ao desempenho do setor de material de construção, que neutralizou a queda de 1,4% das vendas de veículos no mês e de 0,3% no trimestre.

A massa salarial, combinação de variação do nível de emprego com a renda real, cresceu 6,2% acima da inflação nas seis principais regiões metropolitanas no primeiro trimestre em comparação com igual período de 2011. O que explica essa expansão em um momento em que a economia rateia é o aumento do salário mínimo e da remuneração de trabalhadores de setores que não sofrem a concorrência externa, como a construção civil.

Esperava-se que a economia se recuperasse a partir do segundo trimestre. No entanto, o recrudescimento da crise na zona do euro não autoriza maiores expectativas. A piora na região, com a cada vez mais provável saída da Grécia, e a falta de consenso entre os líderes mundiais entre estimular o crescimento da economia ou fazer pé firme na austeridade vai repercutir no resto do mundo. A crise internacional vai prejudicar a expansão das exportações brasileiras, especialmente de manufaturados, e, se for muito intensa, corta a oferta de crédito, como aconteceu em 2008. Com reservas internacionais elevadas e um sistema financeiro relativamente sólido, o Brasil está preparado para aguentar a onda de choque. Além disso, tem espaço para cortar mais os juros - e tudo indica que irá fazer isso. Mas não há como passar incólume a esse novo solavanco.

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