terça-feira, 30 de abril de 2013

Situação fiscal e cambial no Brasil.


Delfim Netto, na FOLHA, comenta a atual situação fiscal e cambial brasileira.

A situação fiscal da economia brasileira e o seu equilíbrio externo apresentam alguns sinais nebulosos. Nada que possa ser considerado ameaçador no curto prazo, mas cuja evolução exige cuidado. O último "Fiscal Monitor do FMI" ("Fiscal Adjustment in a Uncertain World", April 2013) compara a situação fiscal dos países do mundo entre 2008 (o ano em que se iniciou a crise que teima em não terminar) e 2012.

A situação do Brasil revela três fatos importantes: 1º) a crise não produziu um aumento substancial da relação dívida pública bruta/PIB; 2º) esta estabilizou-se em nível desconfortável quando comparada com a dos outros países emergentes; e 3º) a relação dívida pública líquida/PIB é muito mais alta do que a deles. 

Os efeitos do nível de endividamento e das exigências de seu financiamento devem exercer alguma pressão sobre a formação da taxa de juros real. Por outro lado, como a participação do financiamento externo é relativamente baixo, tudo se passa hoje como se o Brasil estivesse endividado em sua própria moeda, o que reduz o seu risco. O problema é que a nossa relação dívida pública bruta/PIB continua igual ao dobro da dos países emergentes. É a quarta mais elevada do mundo.

Um fato curioso é revelado pelos números da tabela: a queda da relação entre a dívida líquida e a dívida bruta. Vemos que em 2008 ela era menos discrepante da média dos países emergentes (69% contra 60%, ou seja, 15% de diferença). Em 2012 a distância aumentou (70% contra 51%, ou seja, 37% de diferença). Isso sugere que provavelmente estamos misturando um pouco menos do que deveríamos, de dívida "bruta" no cálculo da "líquida". É claro que a situação não é a mesma de 2008 (basta olhar para a acumulação de reservas), mas é inegável que sem adequado esclarecimento, criam-se dúvidas sobre a situação fiscal.

Para se ter uma ideia do que significa uma dívida pública bruta/PIB de 68,5%, basta lembrar que antes da crise (2008), essa era a relação na Alemanha, 66,8% (hoje é de 90,3%), e na França, de 68,2% (hoje é de 92,9%). De qualquer forma não acreditamos que a correção eleve a relação dívida líquida/PIB em muito mais do que 3% ou 4%. A questão é que ela já é muito elevada quando comparada com a média dos outros países emergentes (35,2% contra 24,7%).

Uma boa solução para melhorar a credibilidade dos números fiscais, que sentiram os efeitos das inúteis manobras contábeis, seria aprovar o projeto de lei que cria o Conselho de Gestão Fiscal. Estabelecido na Lei de Responsabilidade Fiscal, dorme esquecido no Congresso há pelo menos uma década.

O segundo assunto que ocupou o tempo dos analistas na última semana foram os resultados do balanço de transações correntes do primeiro trimestre, que atingiu 4,31% do PIB, contra 2,41% no seu homólogo de 2012. A balança comercial revelou redução de US$ 7,6 bilhões e depende de esclarecimento sobre os registros das importações da Petrobras.

As previsões do BC para o ano são menos sombrias: superávit comercial de US$ 15 bilhões, com as exportações crescendo 8,6%, e as importações, 11,6%. A estimativa para o déficit em transações correntes é da ordem de US$ 67 bilhões, quase igual ao montante dos investimentos diretos esperados para 2013, algo como US$ 65 bilhões. Entretanto, com as incertezas que cercam a economia, é natural que esses números sejam vistos com certa desconfiança.

Tal resultado não deveria ser surpresa, porque o comportamento da taxa de câmbio nominal e o salário nominal, ambos produto das próprias políticas social e econômica (ver gráfico), produziu fantástica valorização do câmbio real (a relação entre o câmbio nominal o salário real). Ela explica boa parte do persistente aumento do déficit em transações correntes. Um significativo montante desse déficit financia o consumo e não o investimento, o que tem sérias implicações para o longo prazo.

As alterações do câmbio real levam, em média, dois anos para influir no déficit em transações correntes. É o tempo que nos resta - em condições normais de pressão e temperatura - para reduzi-lo a partir de 2015.

Análise das contas públicas.


ÍTALO MARTINS, pesquisador do Centro de Conjuntura e Política Econômica da Unicamp e PEDRO ROSSI, professor do Instituto de Economia da Unicamp, analisaram a atual situação da política fiscal para a FOLHA DE S. PAULO.

Os números recentes da arrecadação federal devem ser compreendidos no âmbito de uma mudança do papel da política fiscal como instrumento de política econômica.

Esta passou a ter três frentes de atuação.

A primeira segue a concepção keynesiana, que atribui à política fiscal o papel de afetar a demanda agregada no curto prazo de forma anticíclica.

Desde a crise de 2008, o governo brasileiro tem feito uso anticíclico da política fiscal principalmente por meio de desonerações de setores estratégicos, como o setor automobilístico e o da linha branca.

O objetivo, nesse caso, é estimular a demanda nesses setores, que possuem encadeamentos produtivos importantes, e, com isso, promover o crescimento econômico.

A outra frente de atuação da política fiscal tem o intuito de fomentar a competitividade da indústria brasileira e se expressa nas medidas de desonerações da folha de pagamento de vários setores industriais e aquelas associadas ao Plano Brasil Maior.

Nesse contexto, a política fiscal é utilizada como instrumento de política industrial, com o objetivo de atenuar a perda de competitividade recente da indústria brasileira, decorrente, entre outras coisas, do longo período de câmbio apreciado.

Assim, não se pode caracterizar tal política como meramente anticíclica, mas uma política de cunho estrutural, que se utiliza da política tributária com objetivos de médio e longo prazo.

Por fim, a terceira frente de atuação da política fiscal consiste nas desonerações em setores estratégicos, não para estimular demanda, mas com a finalidade de atenuar a pressão inflacionária e, assim, dar suporte à política monetária.

Entre os exemplos recentes, está a redução de tributos da cesta básica.

Nos três casos tratados, o instrumento fiscal utilizado foi a redução de tributos, redução essa que se desdobrou como queda de arrecadação nesse trimestre.

Apesar disso, a continuidade dessa nova política fiscal, mais flexível e abrangente, pode ser assegurada com a retomada do crescimento econômico.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart na Folha: falhas econômicas.


Até a FOLHA registra em editorial o caso Rogoff e Reinhart.

A descoberta de erros em um estudo publicado em 2010 pelos economistas Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart desencadeou grande polêmica sobre um problema macroeconômico: qual a relação entre o tamanho das dívidas e o crescimento da economia?

Em termos simples, a divisão teórica e política se refere a como governos já endividados devem reagir à lerdeza econômica.

É justificável aumentar ainda mais o endividamento, a fim de estimular a retomada do crescimento? Ou os governos devem gastar menos, para evitar problemas maiores, como inflação e desconfiança dos investidores (credores), entre outros, que poderiam solapar a economia no futuro?

Rogoff e Reinhart são professores de Harvard, autores de um respeitado estudo sobre crises financeiras ("Desta Vez é Diferente?"). Entre outras conclusões, no artigo afirmam que a relação entre a dívida do governo e o ritmo da economia não é muito relevante até um limite. Quando o endividamento supera 90% do PIB, o crescimento é severamente reduzido.

Recentemente, pesquisadores da Universidade de Massachusetts, liderados por um estudante de pós-graduação, descobriram naquele trabalho erros no uso de um programa de computador, omissão de dados e aplicação indevida de técnicas estatísticas. Mas tais falhas, bastante prosaicas, apenas reavivaram controvérsia mais séria, que vinha desde a crise de 2008.

Uma crítica essencial a Rogoff-Reinhard trata da direção da causalidade: a dívida causa baixo crescimento ou o contrário? Governos de países que crescem pouco têm receitas menores. Assim, aumentam o deficit, contraindo dívidas. De resto, o tamanho relativo do débito não diminui se uma economia não cresce.

Apesar dessas dúvidas conhecidas, o artigo dos economistas de Harvard tornou-se munição das escaramuças políticas. Reforçou os argumentos dos defensores da austeridade, da redução da dívida, em especial na União Europeia.

O episódio convida à reflexão sobre o consumo desses estudos. Cada pesquisa, por mais séria que seja, é uma contribuição preliminar, pelo menos até ser incorporada ao conjunto maior da teoria, e sempre passível de correção futura.

Qualquer aplicação científica, em particular nas ciências sociais, precisa levar em conta contextos. O sucesso de estudos e teorias muitas vezes está condicionado ao interesse social, econômico ou político que eles podem legitimar. 

domingo, 28 de abril de 2013

Feira do Livro em Belém.

Para quem está em Belém e gosta de uma ótima leitura a dica é passar na Feira Pan-Amazônica do Livro, em cartaz de 26/04 a 06/05/2013. Bom domingo e ótimas leituras! 

Brasil: ontem e hoje, nada muda OU A diferença entre Adam Smith e o Visconde de Cairu OU Capitalismo à Brasileira.


Indiferente de gostar ou não de ler o Elio Gaspari na FOLHA, a verdade é que ele tem sempre algo desconhecido a nos revelar. Abaixo um assunto relacionado a nossa turma e, retornando ao passado, pense se, no presente, o "capitalismo brasileiro" é muito diferente do padrão adotado em séculos passados... 

Adam Smith (1723-1790), o pai da economia moderna, vivia do seu trabalho como professor e diretor de uma alfândega. Quando interrompeu um curso, tentou devolver o dinheiro das aulas que não deu. Ensinou ao mundo as virtudes da "mão invisível" do mercado. Seu similar nacional, o Visconde de Cairu (1756-1835), conseguiu sua aposentadoria pública aos 50 anos e foi o primeiro professor de "ciência econômica" de Pindorama. Ganhava 400 mil réis (mais a aposentadoria), mas nunca deu uma aula. Cairu descobriu outra mão invisível, aquela que tira dinheiro de quem não o tem e o coloca no bolso de quem o tem. 

terça-feira, 23 de abril de 2013

Inflação no Brasil.


Nosso conhecido OLIVIER BLANCHARD concedeu uma longa entrevista ao VALOR ECONÔMICO conforme matéria abaixo. Os principais trechos da entrevista estão no site do jornal.   
  
O crescimento potencial do Brasil parece mais baixo do que se pensava, diz o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Olivier Blanchard, referindo-se ao ritmo de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) que não acelera a inflação. Para ele, se a economia brasileira estivesse muito abaixo do potencial, o país veria a inflação cair mais. "Com isso, a margem de manobra para usar políticas de estímulo à demanda é provavelmente limitada", afirma Blanchard, lembrando que o FMI reduziu a previsão de crescimento para a economia brasileira em 2013 de 3,5% para 3%. Gargalos de infraestrutura e no mercado de trabalho foram apontados pelos economistas da instituição como restrições de oferta importantes que afetam o país.

O economista francês diz ainda que o desempenho mais fraco do Brasil no passado recente tem grande relação com o comportamento frustrante do investimento. "É provável que um número de distorções, assim como alguma incerteza sobre políticas, tenham um papel nisso", disse Blanchard ao Valor, em meio à maratona de encontros e seminários da reunião de primavera do FMI e do Banco Mundial, realizada na semana passada em Washington.
Blanchard diz ainda que países emergentes como o Brasil devem "ser livres" para suavizar movimentos de recursos externos mais voláteis, usando "instrumentos de administração de fluxos de capitais, medidas macroprudenciais e intervenção no mercado de câmbio". Alguns desses capitais são desestabilizadores, afirma, observando, contudo, que parte do dinheiro que chega de fora vem por um bom motivo - aproveitar as perspectivas mais favoráveis dos mercados emergentes.

Para ele, aliás, o Brasil não abandonou o regime de câmbio flutuante. "Eu chamaria de flutuação administrada. O real flutua, mas com o uso de controle de capitais", diz Blanchard, um dos principais responsáveis pela adoção de ideias mais flexíveis pelo FMI no pós-crise, como o apoio a controles de capitais em determinadas circunstâncias e a recomendação para que alguns países não exagerem na dose da austeridade fiscal.

Para Blanchard, a recuperação americana mostra sinais robustos, pelo lado do setor privado. O país vai crescer quase 2% mesmo com o ajuste fiscal equivalendo a uma contração de 1,8% do PIB. O economista elogia também a política monetária japonesa, e não a encara como uma medida voltada para produzir uma desvalorização competitiva do câmbio, mas sim para de fato tirar o país da deflação.

sábado, 20 de abril de 2013

As eleições de 2014 e a economia.


Recentes dois artigos do Luiz Carlos Mendonça de Barros publicados no VALOR avaliam a situação econômica brasileira, bem como previsões para 2014. Neste, o foco é a eleição e a economia.
A condução da política econômica no Brasil está dando sinais de estar passando por mudanças importantes. Os analistas precisam incorporar os efeitos de uma eleição presidencial - que se mostra hoje mais difícil do que as que consolidaram a hegemonia do PT no quadro político brasileiro - em suas previsões. Vou dividir com os leitores do Valor algumas observações que tenho sobre esse tema, embora deva ressaltar que ainda são ideias iniciais e que só os próximos meses poderão robustecê-las.
Em primeiro lugar, é preciso lembrar que o PT é um partido que segue os princípios do cientista político italiano Antonio Gramsci, adaptado ao cenário brasileiro ao longo dos últimos dez anos. E nesse quadro de princípios a manutenção do poder é um de seus principais itens. Em outras palavras, para o PT e sua liderança política, eleição é uma coisa muito séria que justifica tudo, inclusive a mudança de posições consolidadas ao longo do tempo. A própria presidenta nos lembrou, recentemente, desse fato ao dizer que em época de eleições faz-se o diabo para ganhá-las.
Um segundo ponto que gostaria de desenvolver diz respeito a uma observação feita pelo ex-governador Paulo Hartung - outro político que também leva a questão de eleições a sério - em recente conversa. Para ele as eleições presidenciais do próximo ano serão as mais difíceis que o PT enfrentará na sua fase "poder". As razões são várias, mas as mais importantes me parecem as seguintes:
1 - a economia em 2014 não será a maravilha que vivemos em 2006 e 2010;
2 - a se confirmarem as candidaturas que estão postas hoje, a presidente Dilma terá que enfrentar no Nordeste um político local e de grande visibilidade como Eduardo Campos e que certamente vai roubar muitos votos do PT;
3 - em Minas Gerais (outro curral eleitoral do PT nas últimas eleições) a presença do ex-governador Aécio Neves vai alterar de forma importante a distribuição dos votos;
4 - Marina Silva também pode representar uma alternativa eleitoral interessante para eleitores que votaram nos candidatos do PT nas últimas eleições;
5 - Em um eventual segundo turno entre Dilma Rousseff e Eduardo Campos os riscos de derrota aumentam muito;
Por tudo isso o governo e o PT sabem que o estado da economia vai ter um papel importante no comportamento do eleitor. E os resultados dos dois últimos anos não garantem que um cenário de céu de brigadeiro vá acontecer em 2014. Essa é a razão porque acredito que vamos assistir a algumas mudanças significativas na condução da política econômica nos próximos meses. A direção desses movimentos será nitidamente no sentido de reduzir o mau humor do setor privado em relação ao governo em função de traços claros de um autoritarismo estatal - que não ocorreu nos anos Lula - nas suas decisões.
A presidenta Dilma mudou de forma clara o soft econômico herdado de Lula, reduzindo o espaço e a liberdade da dinâmica privada na economia e aumentando as intervenções do governo, principalmente via regulação e ações de empresas estatais. A presidenta acredita em um modelo econômico em que o Estado deve liderar as ações na economia, inclusive interferindo em contratos em vigor como aconteceu recentemente com o setor elétrico. Por outro lado o governo tem demonstrado pouca disciplina na gestão das âncoras macro que herdou dos governos Fernando Henrique e Lula.
Com isso vem perdendo o apoio de amplas faixas do setor privado, tanto no Brasil como no exterior. Hoje o Brasil é visto com desconfiança pelos mercados financeiros, apesar ainda de ser um polo importante de investimentos de empresas que querem participar do fortalecimento do mercado de consumo nos próximos anos.
Por essa razão, apesar do mau humor dos investidores meramente financeiros, o volume de investimento direto do exterior continua forte, na faixa dos US$ 60 bilhões anuais. Mas o peso dos chamados mercados na construção do clima de negócios em um país emergente como o Brasil é suficiente para que, como acontece agora no Brasil, ocorra uma redução dos investimentos privados. A realidade do PIB do ano passado, com uma queda expressiva da formação bruta de capital, deve ter mostrado aos dirigentes do PT e ao governo a necessidade de restabelecer uma ponte de credibilidade com os mercados.
Alguns sinais dessa nova postura começam a aparecer em decisões do governo e, principalmente, no vazamento pela imprensa de comentários de fontes oficiais. No caso das concessões de serviços públicos parece que o governo vai aceitar que os leilões sejam realizados com taxas de rentabilidade compatíveis com os riscos envolvidos. Também nas negociações sobre a MP dos Portos essa postura, mais realista e favorável ao capital privado, parece estar ocorrendo.
Mas virão das decisões do Copom e das intervenções no mercado de câmbio nos próximos meses as indicações mais importantes destas mudanças. A dimensão e a velocidade da elevação dos juros Selic diante de uma inflação perigosa - inclusive para as eleições - e uma valorização maior do real nos mercados de câmbio mostrarão até onde o governo pretende ir para fortalecer a reeleição da presidenta Dilma.

Os economistas que disputam 2014.


Com a campanha presidencial em andamento e como economia e política são dois assuntos  importantes demais, vale a leitura do artigo de Maria Cristina Fernandes no VALOR ECONÔMICO de ontem.

Aécio Neves e Eduardo Campos formaram-se em economia na década da hiperinflação.

Aécio entrou para o curso de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio aos 19 anos. Transferiu-o para a PUC de Minas onde se formaria em 1984, aos 24 anos.

Eduardo Campos entrou para o curso de economia da Universidade Federal de Pernambuco em 1982, aos 16 anos e se formaria quatro anos depois.

Aécio dividiu-se entre a faculdade e o governo do avô, eleito em Minas em 1982.

No último ano do curso, Campos presidiu o Diretório Acadêmico da Faculdade de Economia. O brasilianista Werner Baer percorria escolas brasileiras e oferecia bolsas de pós-graduação na Universidade de Illinois. Tentado, Eduardo optaria por ficar em Pernambuco para assessorar o avô.

Tivesse aceito, seria colega de outro economista brasileiro formado naquela atribulada década de 1980, Alexandre Tombini. Depois de concluir economia na Universidade de Brasília em 1984, Tombini foi levado por Baer no ano seguinte para Illinois de onde sairia PhD.

Quando os três economistas da mesma geração deixavam a universidade, Dilma Rousseff, outra economista, assumia a Secretaria de Finanças da Prefeitura de Porto Alegre.

Daquela atribulada década de 1980 até hoje, dois momentos passaram à história como aqueles em que o adiamento de medidas econômicas pelo calendário eleitoral mais impacto tiveram sobre a política e a economia.

Os três economistas que devem se encontrar em 2014 assistiram àqueles momentos em postos distintos.

A história é conhecida. Em 1986 José Sarney via o Plano Cruzado vazar por todos os lados com o fracasso do congelamento. Seis dias depois da eleição que deu ao PMDB de Sarney 22 dos 23 governos estaduais e mais da metade das cadeiras da Câmara dos Deputados, veio o Plano Cruzado II, que liberou a inflação represada e afundou os anos finais do sarneísmo.

Aécio foi um dos 260 deputados eleitos na esteira do Plano Cruzado. No meio do mandato constituinte entraria como fundador no partido que até hoje tem no combate à inflação seu mais importante ativo eleitoral.

A mesma eleição levaria Miguel Arraes de volta ao governo do Estado e, com ele, o neto se tornaria chefe de gabinete. A crise aberta com o fracasso do Plano Cruzado faria sangrar o PMDB. Arraes deixaria o partido em direção ao PSB levando o neto.

O fracasso do Plano Cruzado II também precipitaria a candidatura de Leonel Brizola à Presidência na qual Dilma se engajaria, aproximando-se dos petistas gaúchos no segundo turno com o apoio a Luiz Inácio Lula da Silva.

Doze anos e muitos planos depois o Brasil mais uma vez via coincidirem calendário eleitoral e a premência de medidas econômicas impopulares.

Fernando Henrique Cardoso disputou a reeleição em 1998 com sinais evidentes de deterioração do Real. Seus efeitos só chegariam à população dois meses depois da reeleição quando o governo se decidiu pela desvalorização da moeda.

Naquele ano Aécio seria reeleito à Câmara dos Deputados com a maior votação nominal do país e, neste mandato, chegaria à Presidência da Casa.

Em 1998, depois de passar quatro anos em oposição a FHC e enfrentar o desgaste da operação capitaneada pelo neto na emissão de precatórios judiciais, Arraes perderia a reeleição.

Naquela eleição o PT conquistaria o governo gaúcho e convidaria a então doutoranda em economia na Unicamp, Dilma Rousseff, para a secretaria de Minas e Energia, cargo que exercia ao conhecer Lula.

Um economista que gere uma das maiores carteiras de investimento do país e não frequenta a Casa das Garças diz que desde a chegada do PT ao poder este é o momento que mais se assemelha àqueles vividos em 1986 e 1998.

Não vê como o que chama de desalinhamento de juros, câmbio e salários possa chegar até o fim deste governo sem cobrar um preço exageradamente alto em 2015.

Desta vez, a encruzilhada de calendário eleitoral e política monetária atingem mais definitivamente Aécio e Campos. Os dois contendores de Dilma distinguiram-se em suas reações ao Copom.

Talvez protegido pelo colchão de segurança de seu partido no mercado, Aécio classificou de "lamentável" os 0,25% do Copom, associando a alta à falta de compromisso da presidente com os pilares da economia estabelecidos no governo tucano.

Um economista foi contratado para encontrar-se semanalmente com Aécio. Ainda não se conhecem suas ideias de política econômica mas sabe-se que, no governo, o senador mineiro seria mais próximo dos pais do Real do que o candidato tucano que o antecedeu, José Serra.

Campos não goza das mesmas referências de seu provável adversário de 2014. Os encontros já havidos entre o governador e economistas da Casa das Garças foram negados por estes últimos. Talvez por isso precise ser mais claro sobre o que pensa.

Depois de tergiversar nos últimos tempos sobre o tema, o governador deu uma sinalização que não o distancia da atual condução ao dizer que um aumento na taxa básica de juros não seria um desastre.

"A política monetária tem que funcionar na direção de preservar uma conquista brasileira, que foi a contenção da inflação". A frase é de Campos, mas poderia ser de Dilma.

Se a política monetária for capaz de segurar a inflação, a presidente ganha tempo para não colocar a questão fiscal em jogo. Daqui até a eleição de 2014 a curiosidade dos investidores em saber onde e como os gastos públicos serão cortados aumentará tanto quanto a disposição dos postulantes em não se pronunciar sobre o tema.

Se o Copom continuar nessa toada os extraordinários 96,5% de reajustes salariais acima da inflação em 2012 (Dieese) podem não se repetir este ano. Mais difícil é conter a pressão de gastos públicos atrelados ao salário mínimo.

O contrato social em vigor prevê carga tributária elevada para financiar a expansão do consumo e dos investimentos, mas apenas o primeiro quesito foi alcançado. Não se espere que os candidatos economistas respondam se será possível fazê-lo sem revogar a lei que indexa o salário mínimo.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Inflação: de volta ao passado?


Recentes dois artigos do Luiz Carlos Mendonça de Barros publicados no VALOR avaliam a situação econômica brasileira, bem como previsões para 2014. Neste, o foco é a atual inflação vista por ortodoxos e heterodoxos.  
É muito triste para o analista acompanhar o debate atual sobre a política monetária do Banco Central (BC). Este sentimento nasce principalmente em função da volta da inflação para o centro das discussões, depois de mais de dez anos de esquecimento por parte da sociedade. Esta nossa sensação de "déjà vu" fica reforçada pelo aparecimento de velhos protagonistas de corte heterodoxo - com suas mesmas ideias e soluções do passado - ao lado de novos economistas liberais, com os mesmos erros e utopias de seus colegas mais velhos. Ou seja, em mais de 30 anos, os membros destes dois grupos não esqueceram nada, mas também não aprenderam nada de novo.

Como escrevi acima, considero um retrocesso voltar à questão da inflação nos termos que vêm sendo colocados pela mídia, aqui e no exterior. Em um extraordinário trabalho a quatro mãos, os presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula conseguiram convencer a sociedade brasileira que a estabilidade de preços é uma condição absolutamente necessária para que o crescimento econômico seja perene. Mais do que isto, que para atingir este objetivo é preciso ter um Banco Central comprometido com uma meta clara para a inflação e com um mínimo de independência para persegui-la ao longo do tempo.

Aliás, é bom lembrar que foi por conta deste compromisso que a economia brasileira cresceu continuadamente entre 1994 e 2008, apesar das crises que enfrentamos. Nestes 14 anos, a renda real do brasileiro cresceu mais de 3,5% ao ano e a parcela da sociedade que vive na economia de mercado passou de 34% para mais de 60%. Um resultado incrível e que ganhou reconhecimento internacional. Pensava eu que, por isto, estivessem sepultadas de vez as teorias alternativas que sempre fizeram parte do programa de ação do Partido dos Trabalhadores e de parte da esquerda brasileira.

Também por isso me surpreendeu quando a presidenta Dilma começou a deixar de lado este compromisso com o aparecimento de alguns entraves ao crescimento da economia. Ela não percebeu que o problema tinha sua origem em questões estruturais não enfrentadas adequadamente nos anos Lula e no início de seu mandato. No começo, estas mudanças foram sutis, mais relacionadas a intervenções pontuais do governo. Mas, a partir da frustração com o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no ano passado, as ações passaram a ser mais abrangentes, enfraquecendo o arcabouço macroeconômico que havia prevalecido até então.

Nos anos Lula o governo considerava os mercados como um instrumento de ação do governo na busca da geração de renda para, a partir daí, alterar a natureza da distribuição dos frutos do crescimento. De certa forma, o governo Lula utilizou-se da mesma estratégia que os chineses desenvolveram nos últimos anos para construir uma nova economia.

Já a presidenta Dilma colocou a ação do governo como peça central da política econômica, sujeitando a ação privada a um papel apenas complementar e secundário. Ao fazer isto recolocou o ideário do PT tradicional - e também do PDT brizolista - novamente no comando de suas ações. Daí o teor de suas declarações recentes de que não concorda com a utilização dos juros como instrumento de redução do consumo privado no combate à aceleração da inflação. E foi mais longe ainda, ao resgatar a antiga e desgastada imagem do remédio matando o paciente.

Mas vamos também olhar de forma crítica para o outro lado do espectro ideológico e que procura vender a imagem de que estamos próximos a um total descontrole da inflação. O gráfico abaixo mostra, de forma clara, dois momentos distintos dos números do IPCA nos últimos anos. No primeiro, que corresponde à passagem do ponto A para o B, temos um período de desinflação em função da valorização do real e da existência de espaços produtivos ociosos no tecido econômico, como o índice de desemprego de dois dígitos. Por isto a inflação chega a ficar momentaneamente abaixo do centro da meta do BC entre 2006 e 2007.

Já entre B e C temos um período em que pressões inflacionárias por conta da ocorrência de vários choques externos - câmbio e commodities - em um ambiente de redução rápida dos espaços ociosos na economia, levam a inflação a mais de 6% ao ano.

Em resumo, nos últimos anos, mesmo durante o período de um Banco Central ortodoxo e com liberdade de ação, a inflação no Brasil nunca ficou abaixo dos 5% ao ano por um período mais longo. Um sinal claro de que não conseguimos sair da armadilha de um sistema de preços indexados à inflação passada e, portanto, ultrassensível a choques externos de oferta. Por isto, quando voltamos agora a uma situação limite e perigosa, temos que buscar uma política de combate a inflação menos rudimentar do que a proposta pelos dois lados do espectro ideológico que domina o debate econômico nestes dias.

Não serão apenas medidas clássicas como a elevação da taxa Selic que vão tirar a dinâmica de aumento de preços da perigosa trajetória atual. Temos que voltar os olhos ao Plano Real e buscar na sua agenda um conjunto abrangente de medidas de política econômica.

terça-feira, 9 de abril de 2013

III Encontro Nacional dos Blogueiros de Economia 2013.


Os economistas que almoçam com Dilma.


Uma notícia que pode mudar o rumo da política econômica... 

Li no VALOR que "a presidente Dilma Rousseff almoçou ontem, em Brasília, com seus dois principais conselheiros - o ex-ministro Delfim Netto e o professor Luiz Gonzaga Belluzzo - e com um novo convidado, o professor Yoshiaki Nakano, da Fundação Getulio Vargas (FGV) de SP. Nenhum dos três se opõe ao aumento da taxa de juros, agora, como instrumento de controle da inflação. Sobre a posição da presidente, Belluzzo comentou: " Ela não tem esse tipo de dogma"."

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Thatcher, o legado da revolucionária liberal.


A FOLHA, sempre com uma fiel análise do Oscar Pilagallo, hoje sobre a Baronesa Thatcher. 

Margaret Thatcher foi um dos poucos políticos contemporâneos a quem se pode aplicar, sem exagero, o rótulo de revolucionário. O mundo em 22 de novembro de 1990, quando ela deixou o poder, não era o mesmo de 4 de maio de 1979, data do discurso de posse como primeira-ministra britânica -- e a transformação se deveu em grande parte a seu governo.

O nome da líder dos conservadores britânicos -- posto que assumiu quatro anos antes da eleição -- estará para sempre ligado ao neoliberalismo que, mais tarde, seria praticamente hegemônico no Ocidente. Foi ela quem, depois de colocar de joelhos o poderoso sindicalismo britânico, implantou uma série de políticas que liberou as forças do mercado.

Ao longo dos 11 anos à frente do governo, Thatcher levou a cabo um ambicioso programa de privatização, desregulamentou o mercado financeiro, adotou um rígido monetarismo e desmantelou em grande parte o Estado do bem-estar social implantado depois da Segunda Guerra.

O ideário de Thatcher foi seguido em muitos países. No Brasil, o presidente Collor, eleito em 1989, quando a gestão de Thatcher completava dez anos, adotou seus pontos ortodoxos, numa orientação que, após o hiato Itamar Franco, seria retomada por Fernando Henrique Cardoso e mantida por Lula e Dilma.

Do ponto de vista ideológico, Thatcher foi mais importante que Ronald Reagan, que governou os EUA na mesma época. Os dois se baseavam na mesma cartilha liberal, mas, enquanto o presidente americano tinha um enfoque mais pragmático (basicamente, reduziu o peso do Estado cortando impostos), a premiê britânica estava empenhada em fundar um capitalismo popular, pulverizando o controle das estatais e viabilizando o acesso da classe média à casa própria.

O programa econômico de Thatcher sempre foi atacado pelas esquerdas, obviamente, mas as críticas não ideológicas só ganhariam maior repercussão nas crises econômicas mundiais recentes, uma vez que uma de suas causas foi a excessiva desregulamentação do setor financeiro.

De resto, o mundo ocidental ainda tem algo da cara que Thatcher lhe deu. No próprio Reino Unido -- embora os yuppies, símbolos do individualismo que ela tanto incentivou, tenham perdido prestígio --, o thatcherismo resistiu mesmo sob o governo trabalhista que o substituiu.

A influência de Thatcher, no entanto, vai além do campo econômico. Na política internacional, a vitória do livre mercado sobre a economia de planejamento central ajudou a minar as bases da União Soviética, que se desmancharia em 1991, um ano depois da queda de Thatcher.

Na América Latina, sua influência também não foi pequena -- embora tenha sido involuntária. Logo depois da vitória militar britânica na reconquista das ilhas Falklands (Malvinas para os argentinos), em 1982, a desgastada ditadura argentina chegou ao fim. A influência foi involuntária porque evidentemente ela não estava preocupada com o destino do regime argentino. Em relação a ditaduras de direita, aliás, Thatcher apoiou até o fim o general Pinochet, do Chile.

O legado político de Thatcher é realçado pela marcante trajetória pessoal. Líder estudantil conservadora, a filha de um quitandeiro tentou uma vaga no Parlamento em 1950, aos 25 anos, mas só se elegeria em 1959, na terceira tentativa.

A partir daí, a carreira decolou: ela foi a primeira mulher a governar um país na Europa e o político britânico que ocupou por mais tempo o cargo desde o início do século 19, tendo sido reeleita duas vezes, um recorde que só seria igualado pelo trabalhista Tony Blair.

A firmeza com que defendia suas ideias lhe valeu o apelido de Dama de Ferro, que ela adotou e reforçou com um penteado austero. Centralizadora, a governante impunha sua vontade sobre seus ministros, que dispunham de limitada autonomia.

Após deixar o poder -- ela foi forçada a renunciar depois de um racha entre conservadores devido à sua posição contrária à integração europeia --, Thatcher ganhou o título de baronesa e passou a ser uma das mais requisitadas (e bem remuneradas) conferencistas do mundo.

No início dos anos 2000, uma série de pequenos derrames e a morte do marido fizeram com que ela se afastasse da vida pública. 

Margaret Thatcher: 1925 - 2013 - a verdadeira "Dama de Ferro".

Uma mulher inteligente que revolucionou toda uma geração e um belo exemplo para as mulheres de hoje. 

Como existem mulheres que realmente marcam a história, Baronesa Thatcher fez muito bem a sua parte. 


domingo, 7 de abril de 2013

Capitalismo de Estado ganha mais força no Brasil.


NOURIEL ROUBINI - ESPECIAL PARA O PROJECT SYNDICATE

Na FOLHA DE S. PAULO, NOURIEL ROUBINI, professor de Economia da Escola Stern de Administração de Empresas, Universidade de Nova York e presidente da Roubini Global Economics (www.roubini.com), escreve e critica o capitalismo de estado, inclusive no Brasil.

Nas quatro últimas semanas, visitei Sófia, Kuala Lumpur, Dubai, Londres, Milão, Frankfurt, Berlim, Paris, Pequim, Tóquio, Istambul e EUA. Os inúmeros desafios que a economia mundial enfrenta estavam por perto.

Na Europa, o risco de uma dissolução da zona do euro caiu depois da decisão do Banco Central Europeu, no terceiro trimestre de 2012, de intervir para sustentar os títulos de dívida nacional.

Mas os problemas fundamentais da UE - baixo potencial de crescimento, recessão continuada, perda de competitividade e endividamento - não foram resolvidos.

Além disso, o acordo entre os países centrais da zona do euro, o BCE e as nações periféricas - dolorosa austeridade em troca de apoio financeiro - está se desfazendo porque o cansaço quanto à austeridade nos países periféricos contrasta com o cansaço de resgatar dos países centrais, como a Alemanha.

Na China, a transição de líder aconteceu sem solavancos. Mas o modelo econômico continua, na definição do ex-premiê Wen Jiabao, "instável, desequilibrado, descoordenado e insustentável".

Os problemas da China são muitos: os desequilíbrios regionais; o excesso de poupança e o baixo consumo; a alta da renda e da desigualdade de renda; e a imensa degradação ambiental.

Os novos líderes do país falam convictamente da necessidade de aprofundar as reformas e reequilibrar a economia, mas continuam cautelosos e conservadores.

Como resultado, as reformas necessárias para reequilibrar a economia podem não acontecer com rapidez suficiente para impedir uma aterrissagem dura quando a contração do investimento chegar, o que deve vir no primeiro trimestre de 2014.

Na China e na Rússia (e em parte no Brasil e na Índia), o capitalismo de Estado ganhou mais força, e isso é mau sinal para o crescimento.

No geral, esses quatro países (o grupo Bric) vêm recebendo elogios exagerados, e outros emergentes podem se sair melhor na década que vem - Malásia, Filipinas e Indonésia, na Ásia; Chile, Colômbia e Peru, na América Latina; e Cazaquistão, Azerbaijão e Polônia, na Europa Oriental e na Ásia Central.

Mais a leste, o Japão inicia uma nova experiência econômica para conter a deflação, estimular o crescimento e restaurar a confiança.

O modelo econômico tem diversos componentes: estímulo monetário agressivo; um estímulo fiscal neste ano para forçar uma retomada da demanda, seguido por austeridade fiscal em 2014; reformas estruturais; e novos acordos de livre comércio.

Mas os desafios são assustadores. Não está claro que a deflação possa ser vencida por meio de política monetária; um estímulo fiscal excessivo e a postergação das medidas de austeridade podem tornar a dívida insustentável; e a reforma está indefinida.

Temos também o Oriente Médio, que continua a ser um arco de instabilidade da África do Norte ao Paquistão. A Turquia quer se tornar uma grande potência regional. Mas o país tem muitos desafios nacionais a enfrentar. O deficit em conta-corrente é alto e a política monetária parece confusa, já que o estímulo ao crescimento tromba com o controle da inflação.

Nesse ambiente mundial frágil, será que os EUA se tornaram um farol de esperança? Eles experimentam diversas tendências econômicas positivas: o mercado de habitação se recupera, a exploração de petróleo e gás em campos de xisto reduzirá os custos da energia; a criação de empregos avança; os custos trabalhistas crescentes na Ásia estimulam o renascimento da indústria; e as medidas agressivas de relaxamento quantitativo ajudam tanto a economia real quanto os mercados financeiros.

Mas ainda há riscos. O desemprego e a dívida domiciliar continuam altos. O arrasto fiscal causado pelo aumento de impostos e cortes de gastos prejudicará o crescimento, e o sistema político é disfuncional, com a polarização entre os partidos impedindo soluções sobre o deficit fiscal, imigração, política de energia e outras questões que afetam o crescimento.

A zona do euro e o Reino Unido continuam afundados em recessão, agravada pelas política monetária e fiscal dura. Entre as economias emergentes, a China pode enfrentar uma aterrissagem dura, por volta do final de 2014, se as reformas estruturais essenciais forem adiadas, e os demais países do grupo Bric precisam deixar para trás o capitalismo de Estado.

Embora outros mercados emergentes na Ásia e na América Latina estejam mostrando mais dinamismo que o grupo Bric, sua força não bastará para virar a maré mundial.