segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Redistribuir renda reduz a pobreza?


Jagdish Bhagwati é é professor universitário de Economia e Direito na Universidade Columbia e membro sênior em Economia Internacional no Conselho de Relações Exteriores. Compartilha com Tarja Halonen, da Finlândia, a presidência do Grupo de Pessoas Eminentes na UNCTAD focado nos Países em Desenvolvimento na Economia Mundial.Copyright: Project Syndicate, 2011. Hoje, no VALOR ECONÔMICO.

Muita gente na esquerda resiste à ideia de que o crescimento econômico ajuda a reduzir a pobreza nos países em desenvolvimento. Essas pessoas argumentam que políticas orientadas para o crescimento visam aumentar o Produto Interno Bruto (PIB), não amenizam a pobreza, e que redistribuição é a chave para a redução da pobreza. Essas afirmações, no entanto, não são corroboradas pelas evidências.

Desde a década de 1950, os economistas desenvolvimentistas compreenderam que o crescimento do PIB não é sinônimo de aumento de bem-estar. Mas, mesmo antes da independência, os líderes indianos viam o crescimento como essencial para reduzir a pobreza e aumentar o bem-estar social. Em termos econômicos, o crescimento era um instrumento, não um alvo - o meio pelo qual os verdadeiros alvos, como redução da pobreza e progresso social das massas, seria alcançado.

Para a maioria dos países emergentes, o crescimento é a principal estratégia para um desenvolvimento inclusivo - mas um desenvolvimento que conscientemente inclua os membros mais pobres e marginais de uma sociedade.

Um quarto de século atrás, citei as duas maneiras pelas quais o crescimento econômico produziria esse efeito. Primeiro, o crescimento traria os pobres para empregos remunerados, contribuindo, assim, para tirá-los da pobreza. Rendas mais elevadas lhes permitiriam ampliar seus gastos pessoais com educação e saúde (como parece estar acontecendo na Índia durante o recente período de crescimento acelerado).

Segundo, o crescimento incrementa as receitas do Estado, e assim o governo tem condições de gastar mais em saúde e educação para os pobres. É claro que um país não gasta, necessariamente, mais nesses setores simplesmente porque elevaram sua receita e, mesmo se o fizer, os programas que decidem financiar podem não ser eficazes.

Em ignorância quase intencional sobre o fato de que o modelo centrado em crescimento revelou-se repetidas vezes bem-sucedido, os céticos defendem um modelo alternativo, "redistributivo", de desenvolvimento, que, acreditam eles, produzirão maior impacto em redução da pobreza. Críticos do modelo de crescimento argumentam ser imperativo redistribuir renda e riqueza o mais rapidamente possível. Eles afirmam que o Estado indiano de Kerala e Bangladesh são exemplos onde redistribuição, em vez de crescimento, produziu melhores resultados para os pobres do que no resto da Índia.

No entanto, como mostram recentes estudos do economista Arvind Panagariya, da Universidade Colúmbia, estatísticas sociais de Kerala eram melhores que as do resto do país mesmo antes que fosse instituído o atual modelo redistributivo. Além disso, Kerala lucrou imensamente com as remessas de dinheiro mandadas para casa por trabalhadores emigrados no Oriente Médio, um fator não relacionado com a sua política redistributiva. Quanto a Bangladesh, o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, embora uma fonte problemática, classifica Bangladesh abaixo da Índia.

Em países pobres onde o número de pobres é muitíssimo superior ao de ricos, a redistribuição viria a incrementar apenas minimamente o consumo dos pobres - em, digamos, um chapati por dia - e o aumento não seria sustentável num contexto de baixa renda e elevado crescimento populacional. Em suma, para a maioria dos países em desenvolvimento, o crescimento é a principal estratégia para um desenvolvimento inclusivo - mas um desenvolvimento que conscientemente inclua os membros mais pobres e marginais de uma sociedade.

Mas a sustentabilidade política do modelo de crescimento "crescer primeiro" exige esforços tanto simbólicos como materiais. Embora o crescimento beneficie efetivamente os pobres, os ricos muitas vezes beneficiam-se desproporcionalmente mais. Assim, para manter os pobres comprometidos com o sistema ao mesmo tempo em que suas aspirações econômicas são despertadas, os ricos fariam bem em serem mais comedidos em seu consumo conspícuo.

Ao mesmo tempo - e mais importante - os pobres necessitam maior acesso à educação para alargar suas oportunidades econômicas e sua mobilidade social. "Menos excesso e mais acesso" precisam tornar-se o princípio que norteia as políticas de desenvolvimento. 

O paradoxo da produtividade.


José Milton Dallari, ex-secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, integrante da equipe que implantou o Plano Real, é sócio da Decisão Consultores. Hoje, no VALOR ECONÔMICO.  

O Brasil vive um paradoxo. A economia segue em expansão, mas nem mesmo o crescimento contínuo dos últimos anos tem permitido às empresas ganhar produtividade. Na prática, é esse ganho que vai fazer com que o Brasil consiga competir em vantagem no cenário internacional, reduzindo a dependência em relação às oscilações das moedas mais fortes, como dólar e euro. No mercado nacional, ao aumentar a produtividade, as empresas conseguem vencer o dilema de aumentar preços para repassar custos e, com isso, alimentar a roda inflacionária.

Na busca pela produtividade, as empresas brasileiras estão vencendo a primeira barreira, a de investir em modernização de equipamentos, softwares e instalações. Falta, porém, vencer o obstáculo mais difícil, o de ter mão de obra treinada e capaz de acelerar as tarefas sem aumentar perdas com erros e retrabalho.

Todos os empresários, independentemente do ramo - indústria, infraestrutura, comércio e serviços, sabem bem do que estou falando. Não se trata de contratar engenheiros, administradores ou economistas. Mas de trabalhadores de linha de produção, pessoas de retaguarda nas empresas de serviço e, no caso do comércio, gente que simplesmente saiba fazer o que o cliente quer comprar. Faltam açougueiros para os açougues, padeiros para as padarias, confeiteiros para docerias, costureiras para confecções.

Na construção civil, faltam soldadores, pedreiros, azulejistas ou o bom fazedor de forma para encaixar o concreto. O setor cresceu cerca de 80% nos últimos anos, mas a formação de mão-de-obra não acompanhou esse ritmo. Em São Paulo, construtoras estão contratando funcionários de concorrentes com salários até 70% maiores e a disputa ocorre na porta dos canteiros de obras O piso salarial de um pedreiro é de R$ 1.086,00, segundo o Sinduscom, mas é difícil achar quem ganha esse valor.

A boa notícia é que o Brasil tem 20 milhões de brasileiros para serem treinados, segundo dados do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA). São eles que precisam aprender ofícios para atuar nessa faixa intermediária do mercado de trabalho. São profissões que não precisam de uma faculdade, apenas de pessoas bem preparadas para exercê-las.

Os 20 milhões apontados pelo Ipea são pessoas que terminaram o Ensino Fundamental e acabaram ingressando no mercado de trabalho, por necessidade financeira, exercendo funções como empacotadores de supermercado, operadores de máquina xerox, office-boys. Sem especialização, eles também não encontram estímulo para fazer carreira.

É essa turma que, recebendo treinamento, poderá manter o crescimento econômico do Brasil num ritmo de 4% a 5% ao ano.

Um padeiro que souber fazer bem o pão será disputado pelas empresas e poderá aumentar seu salário. Um funcionário de escritório que se sobressair por sua organização, agilidade e eficiência pode se transformar num gerente.

A boa notícia é que muitos estão empenhados na busca de solução para o problema. Um estudo da pesquisadora Marisa Eboli, da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo mostrou que pelo menos 150 empresas criaram universidades e escolas corporativas no Brasil nos últimos anos. A Universidade Petrobras treina cerca de mil pessoas todos os dias em cursos oferecidos no Rio de Janeiro e Bahia.

Para reduzir o problema o Governo Federal criou o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico (Pronatec), que será executado pelos ministérios da Educação, da Fazenda e do Trabalho. A meta é capacitar 3,5 milhões de trabalhadores até 2014, começando este ano com 500 mil.

O programa prevê, entre outras medidas, treinamento de alunos do ensino médio, de profissionais reincidentes no uso do seguro-desemprego e de beneficiários do programa Bolsa Família, além de incentivos a empresas privadas para formação de seus quadros.

Também os governos estaduais estão acelerando investimentos no ensino técnico, como é o caso de São Paulo. Mas ainda é pouco.

Por trás da falta de mão de obra qualificada está a difícil situação do ensino público do país, que já não consegue formar pessoas não só alfabetizadas, mas com estímulo para buscar no aprendizado a fórmula para vencer na vida.

O mau desempenho da educação básica é o responsável por deixar no caminho jovens sem perspectivas. As centenas de faculdades particulares com suas centenas de cursos ruins acabam enganando os jovens de menor poder aquisitivo, criando um imaginário que só um diploma de ensino superior vai resolver o problema da empregabilidade.

Conseguir um bom emprego não tem nada a ver com cursar uma faculdade, e estão aí como exemplo centenas de jovens de classe média que têm canudo nas mãos, mas ainda dependem dos pais para pagar as contas.

Os anos de educação básica devem servir também para reflexão dos jovens. O bom seria se conseguíssemos mostrar a eles, desde muito cedo, que o mercado de trabalho é bem mais amplo e complexo do que fazem crer os anúncios de faculdades.

A oferta de cursos profissionalizantes em cidades médias e pequenas é crucial para romper com a ideia de "precisar sair para estudar fora". Hoje, Prefeituras cedem ônibus para que estudantes cursem faculdade em outros municípios, a maioria instituições particulares com pouca qualidade.

Esse esforço precisa ser redirecionado, dando às pessoas primeiro a oportunidade do emprego qualificado. Com dinheiro no bolso, o jovem trabalhador poderá decidir como construir sua carreira.

domingo, 30 de outubro de 2011

7.000.000.000.000


JOSÉ EUSTÁQUIO DINIZ ALVES, professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE, escreveu este artigo "Esperança de vida sobe junto com a população", especialmente para a FOLHA DE S. PAULO.

Quando nasci, em agosto de 1953, fui o habitante de número 2.610.233.456. Quando minha filha veio ao mundo, em março de 1985, ela foi o habitante de número 4.710.843.383.

Em 58 anos, a população mundial aumentou em 4,4 bilhões de habitantes. Durante os 26 anos de vida de minha filha caçula, o aumento foi de 2,3 bilhões. Nos próximos 32 anos, teremos mais 2 bilhões de pessoas, e a população mundial deve chegar a 9 bilhões em 2043.

Existem duas boas noticias acompanhando esses números. A primeira é que a população mundial cresceu, aumentando conjuntamente a esperança de vida, que era de 48 anos no quinquênio 1950-55 e passou para 68 anos no período 2005-2010. A segunda é que o ritmo de crescimento demográfico está em declínio e existe grande probabilidade de a população mundial se estabilizar na segunda metade do século 21.

O número de nascimentos no mundo ficou estabilizado em torno de 136 milhões de crianças entre 1990 e 2010. Porém esse número já começou a cair.

Com a redução da base da pirâmide populacional, a razão de dependência demográfica vai ficar abaixo de 60% entre o ano 2000 e 2050. A mudança na estrutura etária, em geral, traz um bônus demográfico que pode ajudar na redução da pobreza no mundo.

Mas essa janela de oportunidade só será aproveitada se mudar o modelo de produção e consumo que tem provocado o aumento da pegada ecológica da humanidade. O nível atual de exploração do ambiente já ultrapassou em 50% a capacidade de regeneração do planeta. Estima-se em US$ 1,3 trilhão o custo anual da transição para uma economia verde, sustentável e de baixo carbono. É 30% menos que o gasto militar do mundo anualmente.

Vamos dar as boas vindas ao habitante de número 7 bilhões. Mas, principalmente, vamos nos esforçar para deixar uma herança positiva para que esse bebê de hoje não se torne um jovem frustrado.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A resistência da política fiscal capenga.


Felipe Salto é economista pela EESP/FGV-SP, mestrando em administração pública e governo pela EAESP/FGV-SP, cofundador do Instituto Tellus e especialista em finanças públicas da Tendências Consultoria. E tem um excelente blog: blogdosalto.blogspot.com. Hoje no VALOR ECONÔMICO. 

O cumprimento da meta de superávit primário em 2011 não é uma surpresa, mas uma confirmação de expectativas formadas há algum tempo. O desafio do governo é outro. As autoridades precisam mostrar de que forma se dará o enfrentamento das pressões contratadas para 2012. Até agora, a única estratégia oficial foi o ajuste fiscal de curto prazo, que deu fôlego ao governo para ostentar importante austeridade, ao longo do ano corrente, refletida em um superávit primário robusto, como se tem observado até agosto. Contudo, este tempo não foi utilizado para a concepção de novas regras para o comportamento da despesa no médio prazo.

Como se sabe, não há ajuste por "geração espontânea", tampouco há disposição política, neste momento, para mais um ano de forte contingenciamento de gastos, com queda real de investimentos, como vem ocorrendo até agosto (queda de 5,9% ante o acumulado no ano até agosto de 2010). Sendo assim, dificilmente o governo cumprirá a meta fiscal de 2012. Um cenário de recriação de tributos e outras surpresas nas receitas poderiam alterar esta percepção, mas seria um ajuste de qualidade ruim, com nova redução da renda disponível da sociedade e aumento da carga tributária.

É verdade que o cumprimento da meta, neste ano, após o uso indiscriminado de mecanismos contábeis para contornar o sistema de metas fiscais (2009 e 2010), será muito importante. E este ajuste traz consigo um custo político, uma vez que no curto prazo as despesas que mais costumam sofrer são os investimentos, pela natureza rígida do orçamento, e os gastos sociais ou previdenciários (o caso do mínimo é emblemático), em que é possível postergar reajustes.

Limitar aumento real do gasto no máximo em 50% da elevação prevista do PIB seria uma medida concreta

É aceitável que, em um ano, que os investimentos e as postergações de toda ordem paguem a conta do ajuste. No médio prazo, por outro lado, espera-se que medidas mais estruturais passem a balizar uma política menos emergencial. Para isso, no entanto, precisariam ter sido concebidas justamente no período em que o governo ganhou fôlego para fazer isso.

Essa ausência de uma estratégia para equacionar as pressões fiscais esperadas para o próximo ano (legítimas, isto é, frutos de decisões de governo) torna razoável nossa estimativa de 2,2% do PIB para o superávit primário do setor público em 2012 (abaixo da meta de 3,1% do PIB). Os gastos previstos no orçamento federal não são compatíveis com o crescimento estimado para a receita líquida do governo, que tende a desacelerar, em relação a 2011, movimento a ser impulsionado pelas renúncias fiscais de cerca de R$ 27,3 bilhões do programa "Brasil Maior".

Mesmo nesse cenário, o Banco Central segue usando como premissa para suas análises o cumprimento da meta de 3,1% do PIB no ano que vem. Isso só poderia se concretizar com a obtenção de novas receitas, via aumento de impostos e/ou recriação de tributos. Vale mencionar que a saída de recriar a CPMF, por exemplo, sob o nome de Contribuição Social para a Saúde (CSS), só traria uma receita elevada para o governo se ressurgisse já com uma alíquota elevada, de pelo menos 0,38%.

Assim, só haverá cumprimento de metas, em 2012, com um aumento importante de receitas. A estratégia ideal, que mais uma vez foi negligenciada pelo governo, seria aprimorar a qualidade do gasto público. Na prática, fixar um limite para o crescimento real do gasto corrente (em especial, do gasto com pessoal) que ficasse limitado a um crescimento de no máximo 50% do crescimento previsto para o PIB seria uma medida concreta. O projeto de lei do Senado nº 611, de 2007, trata deste assunto e, apesar de ter sido aprovado e seguido à Câmara, encontra-se fora do regime de urgência.

Como, então, o governo pode garantir o cumprimento da meta, como vem sinalizando? Recriará a CPMF? A hipótese de contenção de gastos parece pouco provável, pelos custos que uma estratégia de contenção brusca de dispêndios poderia acarretar, dado que não houve planejamento. Resta saber se a hipótese de expandir a carga tributária será levada adiante. As declarações da presidente, que chegou a sugerir que a própria sociedade perceberá a necessidade de novas receitas para a saúde, levam a crer que este é um cenário com probabilidade não desprezível. Contudo, acreditamos que o ajuste no esforço primário seja a hipótese mais provável.

O relevante é que as condições fiscais atuais não permitem o cumprimento da meta fiscal cheia, como é chamada a meta sem abatimentos dos gastos do PAC (0,6% do PIB, desta vez, segundo Projeto de Lei Orçamentária Anual - PLOA 2012), tampouco da meta "descontada".

O mais provável, depois do ajuste de curto prazo promovido em 2011, é a volta da política fiscal expansionista, pautada no avanço de despesas sem priorização e controle, em prejuízo do avanço dos investimentos. Não se trata, como no passado, de um problema de solvência fiscal, mas, sim, de qualidade da despesa pública. De que maneira um país pode avançar sem fomentar os investimentos e expandir sua poupança? É razoável seguir com um nível de 18% a 19% de formação bruta de capital fixo e uma carga tributária de 33% a 34% do PIB?

O pano de fundo é exatamente o mesmo: a resistência da política fiscal capenga, que sustenta um padrão necessariamente elevado de juros e de baixo investimento.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

É o novo-desenvolvimentismo?


José Luis Oreiro, professor do departamento de Economia da Universidade de Brasília, hoje no VALOR ECONÔMICO.  

O novo-desenvolvimentismo é definido como um conjunto de propostas de reformas institucionais e de políticas econômicas por meio das quais as nações de desenvolvimento médio buscam alcançar o nível de renda per-capita dos países desenvolvidos. Essa estratégia de "alcançamento" baseia-se explicitamente na adoção de um regime de crescimento do tipo export-led, no qual a promoção de exportações de produtos manufaturados induz a aceleração do ritmo de acumulação de capital e de introdução de progresso tecnológico na economia. A implantação dessa estratégia requer a adoção de uma política cambial ativa, que mantenha a taxa real de câmbio num nível competitivo no médio e longo-prazo, combinada com uma política fiscal responsável que elimine o déficit público e controle o ritmo de expansão dos gastos de consumo e de custeio do governo de forma a permitir um aumento sustentável do investimento público. A manutenção da taxa real de câmbio num patamar competitivo no médio e longo-prazo exige não só a adoção de uma política cambial ativa, como também uma política salarial que promova a moderação salarial ao vincular o aumento dos salários reais ao crescimento da produtividade do trabalho. A combinação entre política fiscal responsável e moderação salarial se encarregaria de manter a inflação a um nível baixo e estável, permitindo assim que a política monetária seja utilizada para a estabilização do nível de atividade econômica, ao mesmo tempo em que viabiliza uma redução forte e permanente da taxa real de juros.

O regime de política macroeconômica (RPM) adotado nos últimos anos tem muito pouco em comum com o modelo "novo-desenvolvimentista". Em primeiro lugar, o novo RPM permitiu um aumento considerável dos gastos primários do governo federal, os quais aumentaram em quase 3 p.p com respeito ao PIB desde 2008. Embora o superávit primário tenha se mantido num patamar suficiente para garantir uma modesta redução da relação dívida pública/PIB, a forte expansão dos gastos primários do governo sinalizou a realização de uma política fiscal eminentemente expansionista no período 2008-2010. De fato, conforme o multiplicador do orçamento equilibrado de Haavelmo, um aumento proporcional nos gastos do governo e nos impostos faz com que a demanda agregada aumente exatamente na mesma magnitude que os gastos do governo.

A política salarial teve por objetivo induzir um crescimento do salário real acima da produtividade do trabalho. Isso se deve à regra de reajuste do salário mínimo, que vinculou o aumento do salário mínimo no ano t com a inflação ano t-1 e o crescimento do PIB do ano t-2. Essa regra de reajuste de salário mínimo, além de aumentar o grau de indexação da economia brasileira ao atrelar o reajuste de um preço básico da economia à inflação do ano anterior, resulta num aumento do salário mínimo real a um taxa muito superior ao crescimento médio do PIB per-capita e, portanto, da produtividade do trabalho, supondo constante a taxa de participação. Dado o "efeito farol" do salário mínimo sobre a estrutura de salários relativos, o resultado final foi um aumento do salário real médio acima do crescimento médio da produtividade do trabalho.

No que se refere à dinâmica da taxa real de câmbio, verifica-se entre setembro de 2008 e abril de 2011, uma forte valorização da taxa real efetiva de câmbio, apesar das tentativas do governo de controlar essa valorização por intermédio da política de acumulação de reservas internacionais, bem como pela introdução de controles à entrada de capitais na economia brasileira.

A ineficácia da política cambial brasileira deve-se, em parte, à timidez dos controles de capitais adotados; mas fundamentalmente deveu-se a inconsistência do RPM adotado no Brasil nos últimos anos. Com efeito, a combinação entre política fiscal expansionista e elevação do salário real acima da produtividade do trabalho resultou numa trajetória ascendente da taxa de inflação, a qual impediu a continuidade do processo de redução da taxa de juros. A manutenção da taxa de juros em patamares elevados a nível internacional atuou como um enorme atrator de capitais especulativos, num contexto de liquidez mundial abundante devido às operações de relaxamento quantitativo do Fed, o banco central americano, induzindo a apreciação da taxa real de câmbio, o que contribuiu para acelerar a deterioração do saldo da conta de transações correntes e o processo de desindustrialização da economia brasileira.

O RPM brasileiro não permite a obtenção simultânea de uma taxa de inflação estável e um nível competitivo para a taxa real de câmbio. Isso cria um dilema para o governo na condução diária do RPM. A forte expansão da demanda agregada doméstica num contexto de elevação do salário real acima da produtividade do trabalho resulta na aceleração da taxa de inflação, caso o governo decida impedir a valorização da taxa real de câmbio resultante dessa combinação de políticas. Por outro lado, se a decisão do governo for manter a inflação estável, a taxa de juros deverá ser mantida em patamares elevados, induzindo assim uma forte entrada de capitais externos, que irá produzir a continuidade da apreciação da taxa real de câmbio.

Em resumo, o RPM brasileiro não se baseia no "modelo novo-desenvolvimentista", pois cria uma verdadeira escolha de Sofia entre aceleração da inflação e desindustrialização.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Expectativas racionais, para que te quero.


Antonio Delfim Netto, hoje especialmente para o VALOR ECONÔMICO. 

Dizemos, em sua versão mais pretensiosa, que um agente econômico tem "expectativas racionais" quando conhece a distribuição futura de probabilidades de qualquer variável do seu modelo, obtida (condicionada) pelas informações que ele dispõe no presente. Por exemplo, num sistema por hipótese não "viesado" de escolha aleatória, a probabilidade de selecionar qualquer número entre um e mil é exatamente 1/1000.

O problema é que o mecanismo é, por definição, "não viesado" quando empiricamente, num número de experimentos (que tende ao infinito), todos os algarismos de um a mil revelam a mesma frequência. Num exemplo tão simples como esse ficam evidentes as dificuldades lógicas de definição da "expectativa racional".

Os economistas são mais modestos. Na utilização do conceito de "expectativa racional", constroem modelos lineares envolvendo as variáveis econômicas e supõem conhecer não a distribuição probabilística de cada uma delas, mas apenas a sua média, baseando-se no "verdadeiro" modelo da realidade e na informação que dispõem no presente.

Eles têm lutado com esse problema desde que começaram a formalizar e, portanto, tornar mais evidentes as hipóteses envolvidas nos seus modelos. Se trata, no fundo, de fazer alguma conjectura sobre o futuro opaco, que se recusa a revelar-se antes de se tornar presente. Nessa busca de "antecipar o futuro" e tornar mais úteis os seus modelos, os economistas foram construindo diferentes mecanismos de "expectativas" e estudando as suas consequências.

A primeira hipótese, muito usada nos anos 20 e 30 do século passado, quando estava na moda o estudo empírico das curvas de procura de bens agrícolas, foi que o preço esperado para o futuro era igual ao preço do período anterior. No nível microeconômico, isso produziu a famosa dinâmica do "cobweb", em que preços e quantidades oscilavam, mas que, com restrições convenientes, terminavam num "equilíbrio".

A surpresa veio quando construíram, com a mesma hipótese, um modelo macroeconômico dinâmico elementar com "erros" (surpresas) na demanda global e na fixação dos salários para determinar o nível do PIB e a taxa de inflação. O PIB flutuava aleatoriamente em torno do objetivo desejado, mas a taxa de inflação era positiva e constante (a menos de uma variação aleatória de média zero) e independente da política monetária! Era evidente que a hipótese original (preços esperados para amanhã iguais aos de hoje) não se sustentava, porque os agentes não continuariam a utilizá-la quando verificassem uma taxa de inflação constante.

Isso levou à substituição da formação das expectativas. A nova sugestão foi supor que a taxa de inflação seria constante. A surpresa ainda maior foi que o modelo mostrava que, agora, para manter o PIB no nível desejado, era preciso não uma taxa de inflação constante, mas uma taxa de inflação permanentemente crescente!

Ficou óbvio que esses estranhos resultados obtidos a partir de modelos extremamente simples eram produto dos erros sistemáticos sobre a formação das expectativas dos agentes. No nível do desespero, os economistas fizeram uma hipótese heroica: suponhamos que conhecemos o futuro, ou seja, que sabemos qual é o preço de amanhã! É a isso que chamamos "expectativas racionais": conhecemos o preço médio de amanhã através das informações que dispomos hoje, o que equivale a eliminar os "erros" (surpresas) na equação da demanda global.

Tudo tornou-se claro. Com o futuro revelado, o modelo dá a resposta que estávamos esperando: o PIB se estabiliza no limite superior, o que dispensa a política fiscal e monetária. Esta última determina apenas o nível de preços. Os economistas aprenderam o truque e nunca mais o abandonaram. Com alguma arte e engenho sobre a formação das expectativas, podem obter, matemática e rigorosamente, o resultado que desejam. É o Santo Graal que procurávamos há séculos, comprado baratinho ao preço trivial de supor que conhecemos o futuro.

Não há, portanto, o que estranhar nas conclusões espantosas em passado não muito afastado de alguns nobelistas: as políticas econômicas quando antecipadas são absolutamente ineficazes quando conhecemos o futuro. De qualquer forma é mais do que evidente que ninguém discute a necessidade de se introduzir nos modelos alguma expectativa sobre o futuro opaco e de como a política econômica pode ajudar a formá-la.

Talvez esta seja a única mensagem duradoura das "expectativas racionais": uma hipótese sobre o futuro é indispensável para entender o presente!

A biografia do Steve Jobs.


A resenha do MARION STRECKER sobre a biografia do Steve Jons, lançada ontem, revela um Jobs rebelde, atrevido e tenaz. Direto da FOLHA DE S. PAULO.

Imagine um cara tão inteligente e tecnológico adiar a cirurgia do câncer em favor de tratamentos alternativos porque não queria ter seu corpo aberto.

Este era Steve Jobs: filho adotado, criança-problema e talento criativo, que não terminou nenhuma faculdade, amava eletrônicos, fazia molecagens como grampear todos os cômodos da casa da família para ouvir num headphone ou coisas encantadoras como criar shows de laser acoplados às caixas de som nas festas juvenis, mas não sabia escrever programas de computador. Entretanto, ele criou com um amigo mais velho e engenheiro genial chamado Stephen Wozniac o que veio a ser a empresa mais valiosa do mundo. E mudou profundamente a maneira como as pessoas lidam com computadores e com entretenimento. A biografia "Steve Jobs", lançada ontem, é um livro de encomenda, escrito por um biógrafo que hesitou em aceitar o pedido do biografado.

Walter Isaacson hesitou pelos altos e baixos da carreira de Jobs, mas aceitou a incumbência com a promessa de que o fundador da Apple não leria nem censuraria o livro antes de sair. Exceto a capa, que Jobs pediu para ver, não gostou e devolveu com contraproposta. Genioso, tenaz, vaidoso e às vezes rude, controlava de perto a criação dos produtos, o marketing, a publicidade e o departamento financeiro. Dizia que produtos quase bons não eram bons. Que queria apenas produtos insanamente bons.

O livro foi feito com base em cerca de 40 conversas recentes entre os dois, além de mais de cem entrevistas com familiares, amigos, adversários, concorrentes e colegas. Sabemos então detalhes como os problemas que causava na escola primária, a forma como uma professora soube seduzi-lo a estudar, subornando-o com pirulitos e dólares em troca de exercícios extras de matemática.

Depois recomendaram que pulasse dois anos à frente, mas o pai só aceitou que pulasse um. Transferido de escola, conviveu com gangues e sofreu bullying, ajudou a pôr explosivo na sala de aula e outras desgraças que, lá pelas tantas, o fez implorar ao pai que o mudasse de novo.
O pai, mecânico, a quem admirava profundamente, deu um jeito, pois o achava realmente especial. Deixou de frequentar a igreja luterana com a família aos 13, quando viu crianças famintas na capa da revista "Life" e confrontou o pastor, perguntando se Deus estava ciente daquilo. O pastor respondeu que sim.

Aos 15, tinha um carro e começou a fumar maconha. Depois fez viagens com LSD e foi à Índia, namorou Joan Baez, que, por sua vez, tinha namorado seu ídolo Bob Dylan. Tudo no contexto da contracultura embebida de silício. Nunca quis contato com seu pai biológico, de origem síria, um homem estudado e bem-sucedido que chegou a se gabar de gerenciar um restaurante frequentado pelas melhores cabeças do Vale do Silício. "Até por Steve Jobs", disse uma vez sem saber que falava de seu próprio filho biológico, a quem nunca procurou e a quem sobreviveu.

Briguento, Jobs ameaçou recentemente gastar todo o caixa da Apple, se preciso fosse, para destruir o Android, sistema operacional do Google que imita o da Apple. Mas ele mesmo tirou a ideia do mouse numa visita à Xerox. Alguém que ele admirava era Mark Zuckerberg, pois, se todos falam em rede social, para Jobs só há realmente uma: o Facebook. E Mark até hoje não vendeu a empresa.

Sobre a morte, comentou: "Às vezes acho que é como um botão liga-desliga. Se muda para desligar, você se vai".

STEVE JOBS
AUTOR Walter Isaacson
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 49,90 (624 págs.)
TRADUÇÃO Berilo Vargas, Denise Bottmann e Pedro Maia Soares
AVALIAÇÃO Bom

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A lei inédita de Lavoisier.


Roberto Luis Troster, doutor em economia pela USP, foi economista chefe da Febraban, da ABBC e professor da PUC-SP, USP e Mackenzie. Escreveu este artigo especialmente para o VALOR ECONÔMICO.

No século XVIII, o proeminente francês enunciou a máxima: "Na natureza nada se cria, nada perde, tudo se transforma" - é conhecida como a lei de Lavoisier de conservação das massas. Conhecido como o pai da química moderna, fez também contribuições importantes na biologia e ajudou a criar o sistema métrico. Tem outra, inédita, a lei de desperdício de riqueza que diz: "Na economia, quando não se cria e não se transforma, se perde muito". Experimentos empíricos dela abundam, o Brasil está repetindo alguns que vão comprovar sua validade.

Um é a reintrodução do populismo inflacionário, uma experiência em três etapas. Na primeira, com os preços subindo mais rapidamente, há uma queda artificial dos juros, a redução dos salários reais, do aumento de margens das empresas e de mais empregos e mais lucros, é a fase atual, a da satisfação. A segunda etapa começa com a disputa pela recuperação da remuneração dos trabalhadores e do aumento da pressão dos preços, com a economia mais vulnerável a choques de oferta. Termina na terceira, que é a de juros mais altos e menos crescimento, a da amargura. Resumidamente, troca-se crescer um pouco a mais no presente, por bem menos no futuro. Também é conhecido como miopia inflacionária ou ilusão de crescimento.

Há dezenas de casos em que momentos de complacência são seguidos de apertos posteriores. No Brasil, nas décadas de 1960 a 1990, alguns episódios ilustram o ponto. A atual curva de juros mostra que o mercado antecipa novas reduções na taxa básica de juros, mas que a mesma deve subir a partir do ano que vem e, este ano, as projeções de crescimento do PIB caíram e as da inflação subiram. São números que mostram o efeito oposto ao objetivado pelos condutores da economia.

Outro teste que tem o resultado conhecido, é fazer manifestações, artigos e abaixo assinados para baixar a Selic. São bem intencionados, mas comprovadamente, não alcançam seus objetivos. Se tivessem algum efeito, considerando a quantidade de protestos contra os juros altos no Brasil, observar-se-iam aqui as taxas mais baixas do mundo. Não é o que acontece. É primordial baixar os juros, mas o foco tem que ser mais ambicioso, de reduzi-los definitivamente.

Diminuir as taxas deveria ser um dos objetivos mais importantes da política econômica brasileira. Seus efeitos são perniciosos, concentram a riqueza, encarecem o crédito, postergam investimentos e desestimulam o crescimento. São centenas de bilhões de reais jogados fora com juros altos. Todavia, é um fato comprovado na economia que uma taxa de juros muito abaixo do nível de equilíbrio tem o mesmo efeito de uma acima do patamar neutro, restringe o potencial de crescimento da economia. Reduzir demais é economizar um pouco no presente, para desperdiçar muito mais à frente.

Com uma dinâmica fiscal parecida com a de outros países, o valor dos juros no Brasil é várias vezes mais alto aqui. O custo do crédito, apesar da sofisticação do sistema, é o segundo maior do planeta. Sua redução traria mais crescimento, estabilidade e lucros mais sólidos e duradouros para os bancos.

O foco das ações para baixar os juros deveria se um conjunto de medidas para reduzir a taxa neutra. Uma poderia ser a remoção do entulho inflacionário do sistema financeiro. Um exemplo, aumentar o prazo para creditar rendimentos da poupança, o mesmo foi diminuído para a cada trinta dias, na época de inflação alta, para preservar o patrimônio do pequeno poupador; atualmente, seu efeito é perverso, estimulando gastos com juros altos. Tornando-o trimestral, ou semestral, motivaria a postergação das decisões de consumo, aumentando a potência da política monetária. Falta ao país uma política de juros consistente com a nova dinâmica econômica e os novos tempos.

Falta ao país uma política de baixar os juros de maneira definitiva que inclua uma política de crédito mais sensível ao custo de captação dos bancos e menos condicionada à liquidez do mercado, a redução da cunha de intermediação, à melhoria do quadro institucional, a eliminação dos créditos tabelados e a mais transparência na gestão da política monetária. Anunciar que a meta é 4,5% e praticar 6,5%, sem um choque de oferta, gera incertezas desnecessárias que pressionam os juros de prazos mais longos.

Outra política com o resultado sabido é a de incentivar o consumo interno numa economia aberta. Não dá certo. O que acontece é um aumento nas importações de bens de consumo e uma pressão no custos dos serviços, com um resultado pífio na atividade econômica e efeitos indesejáveis na balança comercial e na inflação. O Brasil não é mais uma economia fechada, são outros tempos. Em vez de estimular a demanda, a prescrição, numa economia aberta, é fomentar a oferta, a produção.

Um exemplo emblemático é o café. Um dos melhores para tomar no Brasil é fabricado na Suíça, por uma multinacional que têm várias plantas industriais aqui. Apesar do clima melhor, da mão de obra mais barata, dos custos de transporte e da proximidade do plantio, a empresa, conhecida pela excelência de sua gestão, decide fabricar as capsulas a dez mil quilômetros de distância para vender aqui. Acontece algo parecido com a pimenta, uma das mais vendidas aqui é americana, com grãos brasileiros, ou com o chocolate, feito com cacau baiano na Bélgica.

A causa é que a política econômica não tem como objetivo prioritário melhorar as condições empresariais do país. Ilustrando o ponto, nas 182 Metas do Centenário Brasil 2022, apenas uma trata de reformar. É irônico, mas seu objetivo é mudar algo fora do Brasil o Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Há uma obsolescência nas normas para produzir gerando dezenas de milhares de empregos para burocratas, advogados, contadores e despachantes. São custos que tiram a competitividade do país. No ranking empresarial do Banco Mundial, divulgado esta semana, o Brasil caiu seis posições e está em 126º lugar. A melhor ginga do mundo tem que conviver com uma das piores burocracias.

O desenvolvimentismo tem um nome lindo, teve sua importância na metade do século passado, mas não serve mais para o Brasil do século XXI. Propõe obras públicas, que há cinquenta anos geravam empregos e atualmente aumentam a importação de máquinas pesadas. Culpa o resto do mundo pelos problemas internos, com isso consegue Ibope, mas não crescimento.

Atualmente, vive-se um momento bom, há um potencial a ser usufruído. Não se deve desperdiçar riquezas. É hora de adequar a política econômica, o país não pode ficar refém de uma visão ultrapassada.

sábado, 22 de outubro de 2011

MBA - ranking 2011.


Na The Economist o ranking annual dos programas de MBA. Abaixo os 20 melhores colocados.
   

O partido da poluição.


Hoje, na FOLHA DE S. PAULO, o excelente texto de Paul Krugman. 

No mês passado o presidente Obama enfim divulgou um plano sério de estímulo à economia -bem aquém do que eu preferiria mas ainda assim um passo na direção certa. Os republicanos o bloquearam.

Mas o novo plano, somado ao movimento "Ocupe Wall Street", parece ter provocado uma virada no diálogo nacional. Estamos concentrando atenções no emprego.

Qual é o plano de criação de empregos do Partido Republicano? A resposta é permitir mais poluição.

Tanto Rick Perry quanto Mitt Romney fizeram de uma redução na proteção ao ambiente peça essencial de suas propostas econômicas, e o mesmo se aplica aos republicanos do Senado.

Perry ofereceu um número específico -1,2 milhão de empregos-, que parece ter por base um estudo divulgado pelo American Petroleum Institute, associação das companhias petroleiras. O estudo alega que remover as restrições à extração de petróleo e gás natural teria efeito positivo sobre o emprego.

Mas o estudo depende de um suposto "efeito multiplicador", sob o qual cada emprego gerado no setor resultaria na criação de outros 2,5 empregos em outras áreas.

Seria bom recordar que os republicanos desdenharam alegações de que assistência governamental para evitar a demissão de professores ajudaria a manter empregos indiretos no setor privado.

Além disso, todos os grandes números do relatório se referem a projeções para o final da década. O relatório prevê menos de 200 mil empregos novos no ano que vem, e menos de 700 mil até 2015.

Seria útil comparar esses números a dois outros: os 14 milhões de norte-americanos desempregados e o total de um a dois milhões de novos empregos que pesquisas independentes sugerem que seriam criados pelo plano de Obama, isso em 2012, e não em um futuro distante.

A poluição causa danos reais e mensuráveis à saúde humana. E as autoridades econômicas precisam levar esses danos em conta.

Precisamos de mais políticos como aquele corajoso governador que apoiou controles ambientais sobre uma usina de energia a carvão, a despeito de alertas de que eles poderiam resultar em seu fechamento, porque "não criarei ou manterei empregos que causam mortes".
Ah, é: esse governador era Mitt Romney, em 2003.

Qual é a dimensão dos danos? Um novo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Yale e do Middlebury College agrega dados de diversas fontes para estimar o valor monetário dos danos ambientais infligidos por diversos setores.

Pois há diversos setores da economia que infligem danos ambientais maiores que a soma dos salários que pagam e dos lucros que realizam -o que significa que, na realidade, eles destroem valor econômico e não o criam.
Isso não significa que eles devam ser desativados, mas que a regulação ambiental é pouco severa.


Os republicanos têm forte incentivo a alegar o contrário. As indústrias que mais destroem valor se concentram nos setores de energia e recursos naturais, que costumam doar verbas de campanha. Mas a realidade é que poluir mais não resolveria nosso problema de emprego



E só nos tornaria mais pobres e mais doentes.

TOPBLOG2011 - 2º Turno


O meu muito obrigado a todos os (quase dois milhões...) fiéis e-leitores que colocaram este blog no 2º turno do prêmio TOPBLOG2011. Como não existe almoço grátis, procurar manter o blog em atividade tem o seu preço. Mesmo assim, faço isso com muita satisfação. Através dos textos nele postados, bem como através da leitura dos posts de outros colegas blogueiros a Economia efetivamente torna-se uma parte da minha vida e uma luz nestes tempos de grandes transformações, especialmente as de ordem econômica e política.

Contamos novamente com todos neste 2º turno. 

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Uma tragédia grega.


André Roncaglia de Carvalho é Doutorando em Economia do Desenvolvimento pelo IPE-USP, professor de Macroeconomia e Economia Brasileira da FECAP.

A crise na Grécia vai assumindo contornos trágicos. Paralisada por uma incrível combinação de tristes circunstâncias, a nação que outrora governou o mundo e nos concedeu os mais influentes escritos filosóficos passa por uma crise existencial que questiona o seu lugar junto aos vizinhos europeus. Vejamos mais de perto os detalhes desta novela que se desenrola na mída impressa e digital.

A economia funciona como uma rede. Vários indivíduos se conectam por meio de trocas comerciais ou de promessas de pagamentos. No caso do comércio, precisamos dos outros para nos fornecer aquilo que não podemos produzir, ao mesmo tempo em que os outros necessitam daquilo que nós oferecemos. Assim, posso ter uma cárie obturada mesmo sem nunca terme detido no estudo da odontologia.

Portanto, dividimos nossa vida entre trabalho e consumo. Quando não estamos trabalhando, estamos consumindo e vice-versa. O nosso consumo deixa os donos dos estabelecimentos contentes com os seus negócios, garantindo o emprego de todos os seus funcionários e as compras que faz de seus fornecedores. Estes, por sua vez, sentirão que as vendas estão boas e manterão o emprego de todas as pessoas que ali trabalham.

Como se vê, a prosperidade é um fenômeno coletivo. Se alguns estão em situação pior, é mera questão de tempo até que todos venham a sofrer com isso. Se todos vão bem, o ciclo positivo se reforça e perdura por mais tempo.

Como as riquezas de uma sociedade estão divididas de forma desigual, é bem comum a transferência temporária de dinheiro entre uns e outros, ao que chamamos de empréstimos. Às vezes, precisamos pedir dinheiro emprestado para que possamos consumir bens que não caberiam em nosso orçamento com a renda atual que recebemos. Ao tomarmos um empréstimo, devemos considerar que o futuro nos reserva a obrigação de poupar para que paguemos nossas contas. Se o dinheiro tomado emprestado for utilizado para fazer mais dinheiro, como abrir um negócio ou investir em desenvolvimento pessoal (curso superior, pós-graduação etc.), lá na frente teremos mais dinheiro, de maneira que não será necessário poupar mais. Isto é, o que ganhamos a mais com o investimento é muito maior do que aquilo que devemos para quem nos emprestou o dinheiro. Porém, isso apenas ocorrerá se o nosso desejo de fazer mais dinheiro for compartilhado pelo que a sociedade espera do futuro.

Isto significa que, a meio caminho, aquilo tudo que ia bem passa a enfrentar visões sombrias. Por medo ou por precaução, alguns começam a rever seus planos, reduzir mão de obra, gastar menos em consumo e por aí vai. Quando isso acontece, aquele bom investimento pode se mostrar uma ilusão: quem abriu um negócio não logra vender e quem investiu em educação pode não conseguir emprego, mesmo que seja muito qualificado.

Resultado: todo mundo se recolhe do mercado de consumo, buscando proteger suas contas, poupando para poder quitar suas dívidas. Aquilo que seria bom olhando-se apenas o indivíduo torna-se uma catástrofe, quando a comunidade inteira segue o mesmo caminho simultaneamente. É o velho exemplo de um exército que marchando em sincronia pode derrubar a ponte. Trata-se de um problema de efeitos acumulados. Traduzindo: salvese quem puder.

À Grécia, então. Os gregos são uma economia pequena, isto é, produzem US$ 300 bilhões de dólares que, comparando, equivale ao valor que o Brasil vende à China anualmente em soja, e minério de ferro, dentre outras coisas. A Grécia depende muito dos seus companheiros de União Europeia, uma vez que podem vender a eles sem quaisquer impedimentos, como barreiras e tarifas, que tornariam o seu produto mais caro e, portanto, menos desejado pelos consumidores da Europa.

Por outro lado, a Grécia fica amarrada, porque deve algumas satisfações aos seus parceiros de comunidade. O governo grego deve manter as suas contas em dia, para que não precise tomar emprestado aos bancos. Governo perdulário é como um bêbado: pede emprestado para gastar em coisas que apenas aprofundarão a situação. Nas primeiras vezes, os empréstimos ocorrem, mas começa-se a cobrar uma taxa de juros cada vez maior, para compensar o risco de o devedor não honrar a sua dívida.

Ademais, a Grécia não pode utilizar alguns mecanismos que tornariam a sua economia mais próspera, como baratear os produtos vendidos via taxa de câmbio (um câmbio desvalorizado faz com que o trabalho do cidadão daquele país fique mais barato perante o custo do trabalhador do país que compra seus bens) ou mesmo imprimir moeda para bancar os gastos de seu governo. Feitas essas observações preliminares, vamos à sinopse da tragédia grega.

A crise de 2008 mostrou que os bancos de todo o mundo fizeram apostas ruins em montante estratosférico. Como resultado, quando um dominó cai, todos caem na sequência. Imagine que um dia você vai ao banco e descobre que ele emprestou dinheiro demais a pessoas que prometeram devolver e não devolveram; enfim: o banco quebrou e você está sem as suas poupanças. Mais que isso, o seu banco provavelmente estava endividado com vários outros bancos. Estes percebem que não receberão o dinheiro e também entram em falência. O corre-corre toma conta da economia e tudo fica paralisado.

Para evitar isso, os países desenvolvidos (EUA e União Européia) põem em funcionamento suas máquinas de dinheiro e compram milhões destes pedacinhos de papel para que os bancos tenham dinheiro e não entrem em colapso. Esta é a chamada operação de salvamento dos bancos.

O problema é que este dinheiro é contabilizado como gasto do governo. Ou seja, substituímos a dívida dos bancos pela dívida dos governos. Acontece que alguns tinham mais caixa que outros. Os governos que não conseguem extrair dinheiro da sociedade via impostos, fica com as contas no vermelho. Passa a procurar bancos que lhes emprestem dinheiro para financiar sua gastança. Sabendo do histórico do cliente, os bancos cobram juros de acordo com o risco de não terem o dinheiro de volta.

Quanto mais juros, mais dívida. Quanto mais dívida, mais juros. Em certo momento, a dívida assume um montante tão exagerado que nenhum banco deseja emprestar mais dinheiro àquele país. Foi exatamente o que ocorreu com a Grécia.

Com efeito, o país fica obrigado a recorrer à União Europeia, a qual exige que a Grécia corte gastos e aumente os tributos, para honrar suas dívidas. O governo planeja, então, demissão de 30 mil funcionários públicos, elevação de impostos, proibição de reajustes salariais e redução de gastos do governo com assistência social e outras despesas correntes.

Seguem-se os protestos de rua de uma população enfurecida e crescentemente sem empregos (o desemprego atinge 17% da população) e sem esperança no amanhã. Com a produção sofrendo redução de 7%, temse menos renda, menos impostos e, como a dívida do governo cresce diariamente (a taxa de juros cobrada para emprestar dinheiro à Grécia já passou dos 25% ao ano), e o rombo das contas públicas gregas apenas cresce. O governo grego declarou esta semana: temos dinheiro até meados de novembro. O andar da carruagem sugere que isso se prove equivocado e o dinheiro termine antes.

Enquanto isso, os parceiros europeus discutem demoradamente se salvam ou não o país-colega, prolongando a agonia do povo grego. A decisão ficou para novembro. Até lá, a Grécia fica presa num universo paralelo, em animação suspensa, à espera de um milagre. Que Zeus os acuda!

Fim de semana para ser lembrado.


LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS, 68, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso). Escreveu este artigo especialmente para a FOLHA DE S. PAULO.

No próximo fim de semana teremos um encontro de chefes de Estado da zona do euro para definição das regras do Feef (Fundo Europeu de Estabilização Financeira), aprovado nos últimos meses pelos parlamentos nacionais.

O Feef terá o total de € 440 bilhões para atuar na estabilização do mercado de títulos de dívida soberana de vários países da região. Em sua primeira versão, o Feef já realizou, com o Fundo Monetário Internacional, três operações de financiamento aos tesouros da Grécia, da Irlanda e de Portugal. Vivia-se então a ilusão de que esses recursos seriam suficientes para isolar esses pequenos países em crise do chamado núcleo duro da Comunidade Europeia.

Mas a crise fiscal se mostrou mais grave do que a prevista pelos políticos. A desconfiança dos mercados chegou rapidamente aos títulos da Espanha e da Itália.

Além disso, ficou claro que os bancos alemães e franceses eram os grandes detentores de títulos da dívida dos chamados Pigs. Os mercados passaram a temer, então, por uma crise bancária sistêmica, com repercussões em outras regiões fora da Europa. Pelo canal financeiro, a crise europeia ganharia dimensões planetárias.

É nesse cenário assustador que se dará a reunião na Europa neste fim de semana. Nos últimos dias, vivem-se no velho continente momentos de Terceiro Mundo. Boatos circulavam pela mídia sobre decisões que poderiam ser tomadas e que faziam oscilar -para cima e para baixo- os mercados.

Manchetes de jornais substituíram análises e considerações técnicas sobre ações de empresas e taxas de câmbio de moedas de vários países. Políticos alemães e franceses, refletindo os conflitos que existem entre os dois países sobre como enfrentar a crise atual, se sucediam em declarações conflitantes.

Os investidores de maior seriedade retiraram-se dos mercados e recolheram-se às aplicações financeiras mais seguras, deixando os mercados nas mãos dos especuladores da pior qualidade.

Vou procurar dar ao leitor da Folha uma visão simplificada sobre as principais alternativas que serão discutidas pelos líderes europeus.
A mais importante decisão a ser tomada será a possibilidade de serem utilizados os recursos do Feef para cobertura parcial de risco de crédito nos bônus emitidos pelos países europeus.

Esse mecanismo permitirá transformar os € 440 bilhões do Feef em mais de € 1 trilhão em garantia para os investidores no futuro. Uma decisão inteligente, mas que precisa ainda de aceitação pelos conservadores políticos alemães.

Outro ponto relevante que terá de ser definido é uma rodada compulsória de aumento do capital dos bancos europeus -algo entre € 100 bilhões e € 200 bilhões- para permitir a absorção dos prejuízos com os títulos dos países mais endividados -como Grécia e Portugal- no caso de uma quase certa moratória.

Nesses dois casos, deverá haver uma redução de pelo menos 50% no valor original dos títulos em circulação para adequar o tamanho da dívida pública a sua capacidade de pagamento.

Mas, para que isso possa ocorrer, sem que uma crise sistêmica seja criada -afetando principalmente Espanha e Itália-, será necessário que a garantia do Feef esteja claramente definida e aceita pelos investidores. Minha expectativa é que esses dois pontos sejam aprovados e que um pouco de calma e racionalidade possa voltar ao mercado nas próximas semanas.

Entretanto, as incertezas e as dúvidas dos investidores devem manter a volatilidade dos principais ativos financeiros por mais algum tempo. Mas pelo menos os governos terão à sua disposição instrumentos mais efetivos para agir. A crise europeia, entretanto, ficará entre nós por um tempo bastante longo. Os ajustes que se farão necessários na maior parte dos países que usam o euro vão precisar de tempo para serem implementados com algum sucesso. Nos próximos anos a economia da velha Europa vai se parecer muito com a do Japão depois da bolha imobiliária dos anos 1980.