segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Indignados americanos.

CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA, é editor da revista "Política Externa" e autor, entre outros livros, de "Correspondente Internacional" (Editora Contexto). Escreveu este artigo especialmente para a FOLHA DE S. PAULO.

Em 1963, meses após o lançamento do primeiro satélite de comunicação, o Telstar 1, que fazia ligações telefônicas experimentais não acessíveis ao consumidor comum, realizou-se em Washington a maior manifestação pública que os EUA jamais viram.

A "Marcha sobre Washington por Empregos e Liberdade" reuniu 200 mil na capital dos EUA em 28/8, apesar da oposição de todo o establishment político, inclusive o governo Kennedy, e da pequena boa vontade do establishment jornalístico, que só passou a lhe dar atenção quando o sucesso já parecia certo.

Em dois meses, uma pequena equipe comandada por Bayard Rustin, negro homossexual (quando sexo entre homens era crime e a maior parte dos EUA vivia sob leis de apartheid racial), organizou a logística para a realização do evento.

Foram 2.000 ônibus, 21 trens especiais, dez voos fretados, dezenas de milhares de automóveis, mais a articulação de uma rede de voluntários na região de Washington para hospedar pessoas e orientar, alimentar e dar segurança à multidão.

Em 17 de setembro de 2011, teve início em Nova York a série de protestos sob o título de Ocupe Wall Street, com participação majoritária de jovens brancos de classe média, que foram ignorados pela mídia até o fim de semana retrasado, quando a prisão de 700 pessoas que ocupavam a ponte do Brooklyn os colocou na pauta da imprensa nacional e mundial.

Nada impede que Ocupe Wall Street se transforme em um fenômeno maior e mais relevante do que a Marcha de 1963, que ajudou a cimentar a aprovação da Lei dos Direitos Civis e deixou à humanidade uma das suas mais importantes peças de oratória, o "Eu Tenho um Sonho", de Martin Luther King Jr.

Mas, embora a comparação seja complicada por todos os motivos, ela possibilita pensar sobre algumas hipóteses que tentam se afirmar como verdades, como a de que tecnologias de comunicação e redes sociais são quem garante o êxito de movimentos sociais, como os da Primavera Árabe ou dos indignados na Espanha.

Não. Os meios de comunicação, como seu nome indica, são apenas meios. Por mais que possam facilitar a organização de manifestações, não determinam sucesso ou fracasso.

Diversos outros fatores são mais relevantes para isso, entre eles especialmente a "justeza" da causa defendida, a qualidade dos líderes e inspiradores, o sentido de urgência das reivindicações.

Ocupe Wall Street está crescendo e deve crescer mais ainda. Mas ainda precisa dizer melhor a que veio.

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