sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O mundo de Tombini.


Cristiano Romero, no VALOR ECONÔMICO de 28/09/2011 escreveu sobre “O mundo de Tombini.”

Nos últimos dias, motivado pela situação internacional, o mercado passou a apostar que o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) aumentaria, em outubro, o ritmo de redução da taxa de juros (Selic) - de 0,5 para um ponto percentual. Ontem, ao prestar depoimento à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, o presidente do BC, Alexandre Tombini, não sancionou essas apostas.

Para o dirigente máximo do BC, o cenário não mudou em relação àquele que levou o Copom a diminuir os juros, de forma surpreendente, no fim de agosto. A cena internacional é central na avaliação de Tombini. Ela ocupou metade do tempo de sua exposição no Senado. A outra metade foi dedicada à economia brasileira.

O prognóstico de Tombini é o de que as economias maduras estão entrando num período prolongado de baixo crescimento, com risco de crise soberana (da dívida dos países europeus) e financeira (dos bancos). O reflexo sobre o mundo será desinflacionário, à medida que diminuirá o crescimento das principais economias do planeta.

O quadro pintado por Tombini está em linha com o que pensam muitos economistas e analistas lá fora. O pessimismo aumentou na semana passada durante as reuniões e seminários realizados em Washington, sede dos encontros anuais do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial.

O presidente do BC mencionou aos senadores a elevação significativa da dívida bruta de países como Grécia (de 105,4% para 165,6% do PIB entre 2007 e 2011), Irlanda (de 24,9% para 109,3%), Portugal (de 68,3% para 106%), Espanha (de 36,1% para 67,4%), Estados Unidos (de 62,3% para 100%) e Reino Unido (de 43,9% para 80,8%). Pior do que isso são as perspectivas para os próximos cinco anos.

Até lá, o endividamento de países como EUA e Japão deve continuar aumentando fortemente - no caso japonês, para incríveis 253,4% do PIB! Tombini explicou que o aumento da dívida dos países ricos afetou a percepção de risco, pelos mercados, dos títulos dessas economias. Grécia, Portugal e Irlanda, por exemplo, estão com risco soberano superior ao do Brasil desde o ano passado.

Itália e Espanha, duas economias fortes da Europa, também já apresentam risco-país maior que o do Brasil. A França, segundo maior PIB europeu, se aproxima rapidamente. Esse aumento de risco impactou a percepção de risco dos bancos, que possuem em seus balanços títulos dos governos. Isso está elevando o custo de captação dos bancos, principalmente no mercado interbancário, e derrubando o valor de suas ações. O risco dos bancos americanos e europeus, mesmo os da Alemanha e do Reino Unido, é atualmente comparável ao do Brasil - os da Itália, França e Espanha já ultrapassaram.

A combinação dos riscos soberano e financeiro está afetando a confiança de empresários e consumidores. A queda das ações e de outros ativos reduz, via efeito riqueza, a confiança dos agentes econômicos. "Já se fala em contração [do PIB] no quarto trimestre na Europa e no primeiro de 2012, nos EUA", observou o presidente do BC.

Os indicadores antecedentes da atividade industrial caminham para o território negativo nos EUA e já o fizeram na Zona do Euro. Nas bolsas de valores, a destruição de riqueza nos últimos quatro meses chegou a quase US$ 10 trilhões, fato que, enfatizou Tombini, também tem efeito "negativo e perverso" sobre o comportamento dos agentes econômicos.

Para completar o quadro aterrador, o presidente do BC lembrou que as economias maduras têm hoje espaço limitado para ampliar os gastos públicos. "Muitas economias terão que reduzir seus déficits ou mesmo gerar superávits primários", observou. Além disso, essas nações esgotaram os instrumentos convencionais de política monetária - as taxas de juros estão próximas de zero e, em alguns casos, são negativas.

Um dado fornecido por Tombini impressiona. Os dois principais bancos centrais do mundo - o Federal Reserve e o Banco Central Europeu (BCE) - ampliaram seus balanços por meio da compra agressiva de ativos nos últimos cinco anos, uma forma não convencional de expansão da política monetária. No primeiro caso, o total de ativos saltou de US$ 875 bilhões em 2006 para US$ 2,867 trilhões este mês; no segundo, de US$ 1,519 trilhão para US$ 2,856 trilhões.

Quando falou de economia brasileira, Tombini mostrou as defesas do país, defendeu a ideia de que o Brasil está hoje menos vulnerável do que em 2008 e reiterou a aposta de que a inflação começa a declinar no último trimestre do ano e volta à meta de 4,5% no fim de 2012. Aqui, há um problema.

Tombini disse que a inflação média mensal dos últimos cinco meses (setembro incluído) foi de 0,34%, face a 0,77% dos sete meses anteriores. Jogando para 12 meses o 0,34% mensal, o IPCA vai a 4,3%. Ocorre que, no período considerado, a inflação costuma ser mais baixa mesmo. A dessazonalização dos valores mostra, na verdade, um número bem mais alto - 6,9% em 12 meses.

Tombini não falou uma só vez, durante a apresentação, sobre a persistente deterioração das expectativas de inflação e também do repasse da desvalorização do real para os preços (neste caso, provocado por um senador, minimizou-a ao dizer que apenas 5% da perda de valor do real será repassada).

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A armadilha mortal da zona do euro.


PAUL KRUGMAN, direto no UOL.
É possível estar tanto apavorado quanto entediado? É como me sinto a respeito das negociações em andamento sobre como responder à crise econômica da Europa, e suspeito que outros observadores compartilham o sentimento.
Por um lado, a situação da Europa é realmente assustadora: com países que representam um terço da economia da zona do euro atualmente sob ataque especulativo, a própria existência da moeda única está sendo ameaçada –e um colapso do euro poderia infligir um vasto dano ao mundo.
Por outro lado, os autores de políticas europeus parecem decididos a fazer mais do mesmo. Eles provavelmente encontrarão uma forma de fornecer mais crédito para os países em dificuldades, o que pode vir ou não a impedir um desastre iminente. Mas eles parecem não estar prontos para reconhecer um fato crucial –o de que sem políticas fiscais e monetárias mais expansionistas nas economias mais fortes da Europa, todas essas tentativas de resgate fracassarão.
A história até o momento: a introdução do euro em 1999 levou a um vasto boom de empréstimos para as economias periféricas da Europa, porque os investidores acreditavam (equivocadamente) que a moeda comum tornava as dívidas da Grécia ou da Espanha tão seguras quanto a da Alemanha. Diferente do que você costuma ouvir, este boom de empréstimos não estava em grande parte financiando gastanças do governo –a Espanha e a Irlanda apresentavam na verdade superávits orçamentários às vésperas da crise, e apresentavam níveis baixos de endividamento. Em vez disso, o afluxo de dinheiro alimentava principalmente um boom de gastos privados, especialmente em imóveis residenciais.
Mas quando o boom de empréstimos terminou repentinamente, o resultado foi uma crise tanto econômica quanto fiscal. Recessões selvagens derrubaram a receita de impostos, colocando os orçamentos no vermelho; enquanto isso, o custo do resgate aos bancos levou a um aumento repentino da dívida pública. E um resultado foi o colapso da confiança dos investidores nos títulos da dívida dos países periféricos.
E agora? A resposta da Europa tem sido exigir uma dura austeridade fiscal, especialmente cortes profundos em gastos públicos, por parte dos devedores com problemas, fornecendo enquanto isso um financiamento tapa-buraco até o retorno da confiança do investidor privado. Essa estratégica pode funcionar?
Não para a Grécia, que realmente gastou excessivamente durante os anos bons, e deve mais do que plausivelmente pode pagar. Provavelmente não para a Irlanda e Portugal, que por motivos diferentes também têm um fardo pesado de dívida. Mas com um ambiente externo favorável –especialmente uma economia europeia de modo geral forte, com inflação moderada– a Espanha, que ainda possui uma dívida relativamente baixa, e a Itália, que apresenta uma dívida elevada, mas déficits surpreendentemente pequenos, possivelmente poderiam escapar.
Infelizmente, os autores de políticas europeus parecem determinados a negar a esses devedores o ambiente que precisam.
Pense desta forma: a demanda privada nos países devedores caiu com o fim do boom financiado pelo endividamento. Enquanto isso, os gastos do setor público também estão sendo profundamente reduzidos pelos programas de austeridade. Então, de onde viriam os empregos e o crescimento? A resposta é das exportações, principalmente para outros países europeus.
Mas as exportações não podem passar por um boom se os países credores também estão implantando políticas de austeridade, possivelmente levando a Europa como um todo de volta à recessão.
Além disso, os países devedores precisam reduzir preços e custos em relação a países credores como a Alemanha, o que não seria difícil se a Alemanha tivesse 3% ou 4% de inflação, permitindo aos países devedores ganharem terreno, simplesmente ao terem inflação baixa ou zero. Mas o Banco Central Europeu tem uma tendência deflacionária –ele cometeu um erro terrível ao elevar as taxas de juros em 2008, enquanto a crise financeira estava ganhando força, e mostrou que não aprendeu nada ao repetir o erro neste ano.
Como resultado, o mercado agora espera inflação muito baixa na Alemanha –em torno de 1% nos próximos cinco anos– o que implica em deflação significativa nos países devedores. Isso aprofundará suas recessões e aumentará o fardo real de suas dívidas, mais ou menos assegurando que todos os esforços de resgate fracassarão.
E eu não vejo sinal de que todas aquelas elites europeias de políticas estão prontas para repensar seu dogma de empréstimo com dinheiro de confiança e austeridade.
Parte do problema pode ser que essas elites de políticas tenham uma memória histórica seletiva. Elas adoram falar sobre a inflação alemã do início dos anos 20 –uma história que não tem nenhuma relação com nossa situação atual. Mas elas quase nunca falam sobre um exemplo muito mais relevante: as políticas de Heinrich Bruening, o chanceler da Alemanha de 1930 a 1932, cuja insistência em equilibrar o orçamento e preservar o padrão ouro tornou a Grande Depressão ainda pior na Alemanha do que no restante da Europa –preparando o caminho para você sabe o quê.
Agora, eu não espero que algo ruim assim aconteça na Europa do século 21. Mas há um abismo muito grande entre o que o euro precisa para sobreviver e o que os líderes europeus estão dispostos a fazer, ou mesmo falar em fazer. E diante desse abismo, é difícil encontrar razões para otimismo.

IC-PMN volta a subir, depois de três quedas consecutivas


O Índice de Confiança de Pequenos e Médios Negócios (IC-PMN), que reflete as perspectivas dos empresários do setor, voltou a subir no levantamento para o quarto trimestre deste ano, após três quedas consecutivas. O indicador registrou 73,7 pontos, em uma escala de 0 a 100, ante 72,3 pontos apurados na pesquisa para o terceiro trimestre. No entanto, o resultado não supera o alcançado no 4º trimestre de 2010, quando o IC-PMN teve sua maior pontuação, aos 75,5 pontos. Com periodicidade trimestral, o estudo é realizado em parceria entre Insper e Santander e está em sua 12ª edição.

Entre as questões que compõem o IC-PMN, foi registrado crescimento na confiança em relação ao desempenho da economia (72,3 pontos contra 70,5 no terceiro trimestre), expectativas de faturamento (78,4 contra 76,5) e de lucro dos empresários (76,2 contra 74,5). Já as previsões de investimento e de contratações tiveram pouca alteração em relação à última pesquisa.

 “É importante destacar que a interrupção de três quedas consecutivas do IC-PMN sinaliza uma estabilização do nível de confiança do setor, além de retratar o efeito sazonal do último trimestre, afetado essencialmente pelo aquecimento das vendas de Natal. Não podemos falar em recuperação do otimismo antes de avaliar os próximos trimestres”, aponta o professor do Insper José Luiz Rossi Junior. 

“ O  índice demonstra que os empresários estão confiantes no desempenho da economia brasileira no 4º Trimestre e esse otimismo  se  reflete numa evolução positiva, principalmente para os setores de Comércio e Serviços. O setor de Serviços tem um destaque especial, porque o índice de confiança está praticamente igual ao do 4º Trimestre do ano passado, quando a economia brasileira teve um grande desenvolvimento",  diz  César Fischer, Superintendente do Santander Pequenas e Médias Empresas.

Na segmentação por ramo da economia, o Comércio mostrou o crescimento mais significativo em relação ao último levantamento, de 71,3 para 73,2 pontos e o setor de serviços está quase tão confiante quanto no 4º trimestre de 2010 (74,9 e 75,1 respectivamente).

Todas as regiões, com exceção da Norte, apresentaram aumento de confiança em relação ao trimestre anterior. A região Centro-Oeste se destaca em otimismo, seguida pela região norte, mesmo com a queda em relação ao último levantamento.

O estudo para o IC-PMN envolve 1,2 mil empresas das cinco regiões do país. Foram ouvidos empresários de três ramos de atividade (comércio, serviços e indústria) e que faturam até R$ 30 milhões/ano.




3TRI 2011
4TRI 2011
IC-PMN NACIONAL
72,3
73,7
Economia
70,5
72,3
Ramo
75,4
76,7
Faturamento
76,5
78,4
Lucro
74,5
76,2
Empregados
67,1
68,3
Investimento
70,0
70,5

IC-PMN POR REGIÃO
3º Tri/11
4º Tri/11
Centro-Oeste
73,1
77,3
Nordeste
72,2
74,4
Norte
76,8
76,0
Sudeste
72,0
72,9
Sul
71,8
73,1

IC-PMN POR SETOR
3º Tri/11
4º Tri/11
Comércio
71,3
73,2
Indústria
73,5
73,5
Serviços
73,4
74,9

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Chico, a referência.

Do sempre bem informado Ancelmo Gois, mas neste caso acredito que não seja tese e sim dissertação. Porém, vale a leitura da nota. 


Um economista de prestígio descobriu uma curiosidade ao ler a tese de Dilma Rousseff, de 1997, sobre "Política monetária e sistema financeiro: a elevação das taxas de juros e a concentração bancária".
A única pessoa da academia citada é Francisco Lopes, professor da PUC e, à época, diretor de Política Monetária do BC.

"Ação do BC deve amenizar efeitos da crise"


No VALOR ECONÔMICO entrevista com ILAN GOLDFAJN, ex-diretor do Banco Central, sobre o atual momento econômico e a possibilidade de uma severa crise mundial.   

O mundo caminha de um cenário de desaceleração para um quadro de crise, com possibilidade concreta de um default da dívida da Grécia, acredita Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco e ex-diretor do Banco Central (BC). Tudo indica, portanto, que o mundo se aproxima de fato do quadro mais difícil traçado pelo BC na ata da última reunião do Comitê de Política Monetário (Copom).
Nesse cenário mais duro, Goldfajn acredita em desaceleração da economia brasileira, mas o recuo será minimizado pela atuação do BC, que iniciou um ciclo de corte de juros em agosto. "A economia brasileira vai crescer 3,7% no próximo ano. Se fosse só pela desaceleração mundial, [o crescimento do PIB] poderia cair um pouco abaixo de 3%", diz.
Outros efeitos da crise poderão ser sentidos, como a escassez de linha externa. Ele pondera, no entanto, que a reação do governo deveria ficar concentrada nos juros, não no aumento dos gastos. "Nessa linha, podemos mudar a qualidade da política econômica brasileira". A seguir, os principais trechos da entrevista.

Valor: A economia mundial caminha para um crise mais séria?
Ilan Goldfajn O caminho ainda não está totalmente definido, mas estamos indo de um cenário de desaceleração para um cenário de uma crise mesmo. Vemos nos Estados Unidos e na Europa a falta de coordenação para resolver os problemas da Grécia. E os mercados estão muito indóceis, com uma velocidade de reação muito maior que a dos governos. Cada país diz uma coisa e não chegam a um acordo para aumentar o fundo de estabilização da Europa, para poder financiar os problemas que podem surgir.
"O cenário internacional está mais ou menos em linha com o que o BC expressou na última ata do Copom"
Valor: Há risco de default grego?
Goldfajn O cenário de default está cada vez mais provável.
Valor: É o seu cenário base?
Goldfajn Nosso cenário base é de desaceleração forte, mas não temos colocado ainda um cenário de crise. Esse é um cenário que ainda estamos chamando de alternativo, de crise financeira ao estilo Lehman Brothers. Mas está caminhando para isso.
Valor: Qual o impacto para o Brasil? O real continua em queda?
Goldfajn Num cenário de médio prazo, o câmbio real continua forte. Isso no médio prazo, digamos, dois anos. No fim do ano já pode voltar um pouco e fechar em R$ 1,75. É um 'overshooting'. Pode até ir mais longe [subir mais], mas acho que volta depois.
Valor: Essa cotação de R$ 1,75 seria um novo patamar?
Goldfajn Sim.
Valor: O qual o impacto da crise para a inflação doméstica?
Goldfajn Neste ano, a inflação deve ficar em torno de 6,5%. Para o próximo ano, há polos opostos para a inflação. Primeiro você tem uma queda da atividade mundial, que segura o crescimento [no Brasil]. Você tem também alguma queda das commodities, que reduz a inflação e contrabalança um pouco a taxa de câmbio que subiu recentemente. Em termos de inflação, vamos provavelmente para baixo do teto da meta, em um cenário ruim [para a economia mundial]. Não que isso seja alguma virtude, porque a desaceleração global faz com que a inflação recue.
Valor: Qual seria o polo oposto?
Goldfajn As commodities não vão cair tanto assim. Há algumas questões que dão algum suporte, como problemas de oferta. Então mesmo que a inflação recue, não achamos que ela volte para a meta [em 2012]. Até porque o BC está reduzindo os juros. A inflação deve ficar em torno de 5,5%.
Valor: Há algum risco para o déficit em conta corrente?
Goldfajn O câmbio ajuda as exportações e segura [o déficit]. Algumas linhas externas podem secar, no momento da crise. Mas acredito que será algo como em 2008, com uma ida e uma volta rápida [dos fluxos]. Haverá uma tensão e o Brasil vai exportar menos. Mas o câmbio vai ajudar. No âmbito doméstico, vamos desacelerar e importar um pouco menos. Portanto, no geral, uma coisa compensa a outra.
Valor: Os impactos para o Brasil serão prolongados?
Goldfajn Estou vendo um cenário parecido com 2008, quando houve um momento de pico, mas depois voltou ao normal.
Valor: Tem algum prazo para essa volta ao normal?
Goldfajn É muito difícil saber, porque a crise está começando. A Grécia ainda não quebrou. Não sabemos as consequências. Vai depende de como as coisas vão se desenrolar. Mas é uma questão de meses [a volta], não de anos.
Valor: A economia brasileira pode apresentar um maior vigor já em 2012?
Goldfajn Com a queda de juros que o BC está promovendo, a atividade econômica segura um pouco. Acho que a economia brasileira vai crescer 3,7% no próximo ano. Se fosse só pela desaceleração mundial, [o crescimento do PIB] poderia cair um pouco abaixo de 3%. Talvez 2,9%. Mas com o BC reduzindo os juros, [o PIB] volta para 3,7%. Agora, se vier uma ruptura, uma crise muita séria, uma quebradeira, aí é outra questão e a economia cairá mais.
Valor: O cenário que o BC traçou para o mundo na última ata do Copom está se confirmando?
Goldfajn Acho que sim. O cenário internacional está indo mais ou menos em linha com o cenário que eles estavam tentando se precaver.
Valor: Essa antecipação se mostrou positiva?
Goldfajn É positivo que o BC tenha se antecipado à crise. Mas será ainda mais positivo se vier uma reação à crise via juros e não via gastos. Porque aí a queda de juros pode ser muito maior. Se ele de fato for nessa linha, podemos mudar a qualidade da política econômica brasileira.

Empreender na Internet: desafios e oportunidades do e-commerce


Insper e Santander realizam, na quinta-feira, dia 29 de setembro, o debate “Empreender na Internet: desafios e oportunidades do e-commerce” no auditório da Torre Santander, na Vila Olímpia. Voltado para executivos, empresários e acadêmicos, o evento tratará das principais aplicações das ferramentas da web aos negócios, especialmente pequenas e médias empresas brasileiras.

A mesa redonda contará com a participação de Gustavo Mota, CEO da We Do Logos, maior site de criação de logos da América Latina; Marcelo Castro, membro do Conselho da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas e membro do projeto Copa 2014; e Marcos Wettreich, CEO da Greenvana, maior e-commerce de consumo sustentável do país e criador do IBest, Mantel e Neoris.

Na ocasião, será divulgado o Índice de Confiança de Pequenos e Médios Negócios (IC-PMN), Elaborado a cada três meses, o indicador tem o objetivo de aprofundar o conhecimento das expectativas do segmento de pequenas e médias em todas as regiões do Brasil.

O evento é gratuito e tem vagas limitadas, sendo necessário se inscrever pelo http://www.insper.edu.br/institucional/empreender-na-internet-desafios-e-oportunidades-do-e-commerce.

Empreender na Internet: desafios e oportunidades do e-commerce
Data: 29 de setembro
Horário: das 19h30 às 21h50
Local: Torre Santander – Auditório
Av. Presidente Juscelino Kubitscheck, 2.235 – Vila Olímpia

Programação
19h30 – 20h – Welcome coffee
20h – 20h10 – Abertura.
Cesar Fisher (Superintendente de pequenas e médias empresas).
20h10 – 20h20 – Divulgação IC-PMN – Setembro 2001.
Prof. José Luiz Rossi Junior (Professor Pesquisador Insper – Centro de Pesquisas em Estratégia).
20h20 – 21h30 – Mesa redonda.
Gustavo Mota (CEO We DO Logos, maior site de criação de logotipos da América Latina).
Marcelo Castro (Membro do conselho da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas – CNDL – e membro do projeto Copa 2014).
Marcos Wettreich (CEO Greenvana, maior e-commerce de consumo sustentável do país e fundador do IBest, Mantel e Neoris).
Mediador: Daniel Fernandes (Editor do Estadão Pequenas e Médias Empresas).
21h30 – 21h50 – Perguntas

De volta ao desenvolvimentismo.


LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA, hoje na FOLHA DE S. PAULO e sua visão de um mundo diferente do atual. 

Desde 1991 a política econômica do Brasil se pautava pelo ortodoxia convencional ou o consenso de Washington. A partir, porém, de 2006, já com Guido Mantega no Ministério da Fazenda e Luciano Coutinho no BNDES, o governo Lula começou a mudar a estratégia de desenvolvimento em direção ao novo desenvolvimentismo.

Em 2009 um passo decisivo nesse sentido foi dado com o início do controle da entrada de capitais. Agora, no nono mês do governo Dilma Rousseff, a decisão do Banco Central de baixar a taxa de juros, surpreendendo o mercado financeiro, e a decisão do governo de taxar a importação de automóveis com menos de 35% de conteúdo nacional consolidam essa mudança.

O aprofundamento da crise mundial tendo a Europa como epicentro e o desaquecimento da economia brasileira confirmam a boa qualidade da decisão. O novo desenvolvimentismo não é uma panaceia, mas está ancorado teoricamente em uma macroeconomia estruturalista do desenvolvimento, tem como critério o interesse nacional, e sabe que este só pode ser atendido por governantes que em vez de aplicarem fórmulas prontas avaliam cada problema e cada política com competência. Adotado com firmeza e prudência, o Brasil crescerá a taxas mais elevadas, com maior estabilidade financeira, e com a inflação sob controle.

Enquanto o tripé ortodoxo é "taxa de juros elevada, taxa de câmbio sobreapreciada, e Estado mínimo", o tripé novo-desenvolvimentista é "taxa de juros baixa, taxa de câmbio de equilíbrio, que torna competitivas as empresas industriais que usam tecnologia moderna, e papel estratégico para o Estado". Enquanto para a ortodoxia convencional os mercados financeiros são autorregulados, para o novo desenvolvimentismo apenas mercados regulados podem garantir estabilidade e crescimento.

Novo desenvolvimentismo e ortodoxia convencional defendem a responsabilidade fiscal, mas o mesmo não pode ser dito em relação à responsabilidade cambial. Enquanto o novo desenvolvimentismo rejeita os deficits em conta corrente, a ortodoxia convencional os promove, e, assim, se comporta de maneira populista (populismo cambial).

Argumenta que a "poupança externa" aumentaria o investimento do país, mas, as entradas de capitais para financiar esses deficits aumentam mais o consumo do que o investimento, endividam o país, o tornam dependente do credores e de seus "conselhos", e resultam em crise de balanço de pagamentos.

O Brasil, ao retornar ao novo desenvolvimentismo, está voltando a se comportar como uma nação independente. Havia deixado de agir assim em 1991, porque vivia profunda crise, e porque a hegemonia neoliberal americana sobre todo o mundo era, então, quase irresistível. Mas desde meados da década passada a sociedade brasileira começou a perceber que o projeto neoliberal era um grande equívoco, e que havia uma alternativa para ele. Como a crise financeira global de 2008 demonstrou de maneira cabal, as políticas econômicas neoliberais não eram boas nem mesmo para os países ricos.

Dessa maneira, a hegemonia neoliberal entrou em colapso, e as forças desenvolvimentistas -os empresários industriais, os trabalhadores e uma parcela da classe profissional- fortaleceram-se, o que abriu espaço para que o governo Dilma aprofundasse seus compromissos para com elas. Um novo e amplo pacto político está se formando no Brasil. Vamos esperar que leve o Brasil mais depressa para o desenvolvimento.

Um novo paradigma para a dinâmica capitalista.


Paulo R. Haddad, Professor do IBMEC MG escreveu hoje no ESTADÃO.

A crise econômica e financeira iniciada em 2008 vem se aprofundando em escala global e não há no horizonte de curto prazo indicativos de que ela possa ser superada sem que o capitalismo venha a encontrar os caminhos de um novo paradigma para sua dinâmica de desenvolvimento sustentável.
Em contextos como este, o capitalismo não tende a sucumbir. Ao contrário, concentra suas energias político-institucionais e se reestrutura. Dada a experiência histórica de evolução do capitalismo, este novo paradigma pode estar associado, em princípio, à concepção e à implementação de uma nova onda de inovações.
Desde o século 18, as ondas de inovações de natureza schumpeteriana (novos processos, novos produtos, novos mercados, novas formas de organização produtiva) são o motor das grandes transformações estruturais do capitalismo. Essas ondas, que vão desde a introdução da energia a vapor nos sistemas produtivos até as redes digitais nas últimas décadas do século 20, trouxeram grande prosperidade para muitas nações, que se tornaram as mais desenvolvidas no cenário internacional.
Que sinais dispomos, atualmente, sobre qual seria a eventual onda de inovações que poderiam retirar as economias desenvolvidas e emergentes do imbróglio recessivo ou potencialmente depressivo em que se atolaram e gerar novos ciclos de expansão?
Essa é uma questão que mal começa a ser discutida pelos diferentes analistas da atual crise, uma vez que o seu pensamento se encontra contaminado e restringido por controvérsias sobre qual seria o modelo macroeconômico de curto prazo mais apropriado para iluminar as políticas econômicas a serem manipuladas para a superação da crise. Sem deixar de considerar que a consistência macroeconômica de curto prazo é vital para a estabilidade das economias de mercado, essa consistência é tão somente uma precondição para a dinâmica capitalista de longo prazo.
Uma observação preliminar se refere às cinco ondas de inovações que se desdobraram historicamente de 1785 até o fim do século 20. Todas resultaram em aumentos significativos na produtividade da mão de obra e multiplicaram o rendimento do trabalho por algumas centenas de vezes em relação aos valores que prevaleciam até a Primeira Revolução Industrial.
A sexta onda de inovações, que já tem avançado lenta e exponencialmente ao longo das três últimas décadas, deverá estar centrada num aumento radical na produtividade dos recursos naturais visando a ampliar a capacidade de suporte do planeta para acomodar a intensificação dos níveis de produção e de consumo de milhões e milhões de habitantes que estão se incorporando às economias de mercado.
Essa incorporação se dá pela via dos incessantes ganhos de produtividade resultantes de inovações científicas e tecnológicas; da irreversível entrada da China na lógica da economia capitalista; da melhoria da distribuição de renda e da riqueza em muitos países emergentes; etc. Somam-se, a tudo isso, os impactos destrutivos que as mudanças climáticas têm provocado sobre os ecossistemas mundiais, como os colapsos e desastres ecológicos que vêm crescendo em número e intensidade.
A sexta onda de inovações (biomimética, nanotecnologia verde, ecologia industrial, sistema de design integrado, etc.) deverá gerar uma nova dinâmica da economia de mercado, que vem sendo denominada capitalismo natural. Do ponto de vista histórico, a nova configuração do capitalismo pressupõe que se está criando uma nova revolução industrial que trará grandes benefícios para a sociedade: a diminuição da exaustão dos recursos naturais numa ponta da cadeia de valor; a diminuição dos níveis de poluição na outra ponta; e a formação de uma base para ampliar o emprego de qualidade em escala mundial.
Do ponto de vista da organização dos sistemas de mercado, este novo estilo do capitalismo propõe, também, um novo modelo industrial em que nem todos os produtos sejam apenas manufaturados e vendidos, mas que surja uma economia de serviços em que os consumidores adquirem serviços de bens duráveis por meio de aluguel e arrendamento. Desta forma, a indústria será responsabilizada pelo ciclo completo de materiais; deve lidar com os resíduos e os problemas resultantes de danos ambientais (toxicidade, segurança, etc.); deve recuperar os produtos e tratá-los como ativos; etc., o que termina por aumentar a produtividade dos materiais e da energia.
Finalmente, observa-se não mais um conflito entre mercados livres e desregulamentados, de um lado, e sistemas de planejamento de médio e de longo prazos, de outro, mas a sua integração e complementação nos processos de decisão públicos e privados.
O poder público poderá alterar por meio de mecanismos de intervenção indireta (política fiscal e financeira, regulamentações, etc.) os custos e os preços relativos que se formam nos mercados e, assim, estimular ou desestimular indicativamente a produção e o consumo dos bens e serviços, de acordo com sua contribuição positiva ou negativa para o processo de desenvolvimento sustentável

BC deve ter meta de desenvolvimento?


Jairo Saddi, pós-doutor pela Universidade de Oxford, doutor em direito econômico (USP) e professor de direito do Insper., escreveu hoje no VALOR ECONÔMICO.

Frank Tamagna, economista italiano, funcionário do Federal Reserve System e radicado em Washington, escreveu, nos idos de 1950, um livro denominado Central banking in Latin America, que teve grande repercussão.
Nesse livro, o autor dedicou um capítulo inteiro à função de agente de fomento dos bancos centrais e recomendava que a autoridade monetária fosse também meio de realizações econômicas, de agente de fomento e fiadora do desenvolvimento nacional. (Capítulo VI - "Central banks and economic development", op. cit. Centro de Estudos Monetarios Latinoamericanos, p. 195-231)
Com o surgimento da inflação galopante nos anos 1970-80, a ideia foi simplesmente considerada absurda. O Banco Central deveria ter a única e muito definida função de zelar pela moeda e usar seu poder monetário para preservar seu valor. No entanto, com as crises mais recentes (e, curiosamente, com o recrudescimento da inflação), o assunto voltou à tona e granjeando simpatia. A revista The Economist, por exemplo, citou o atual trabalho do economista Scott Sumner, da Bentley University, que, revivendo a velha ideia de Tamanga e dos chamados desenvolvimentistas, clamou por inverter o papel dos bancos centrais. Segundo Sumner, em vez de os bancos centrais se valerem do seu arsenal para controlar a política monetária e as metas de inflação, como vêm fazendo desde seus primórdios, deveriam passar a considerar o produto nacional doméstico bruto, na sua expressão nominal.
A ideia de Scott Sumner é adotar uma "meta de desenvolvimento do produto", pela qual os banqueiros centrais deveriam receber como objetivo uma taxa nominal de crescimento, e a política monetária deveria afrouxar ou endurecer de acordo com as reações do produto doméstico.
Primeiro, é necessário alargar o entendimento sobre o que é a política monetária exercida por um banco central. A política monetária precisa ser definida como a atividade ligada ao controle da moeda e de sua oferta, visando determinados objetivos, como aqueles definidos pela política econômica. Um banco central regula a expansão dos meios de pagamento, elabora o orçamento monetário e utiliza todos os instrumentos de política monetária ao seu alcance (taxa de juros, recolhimento compulsório, taxas de redesconto e operações de compra e venda de títulos públicos no mercado aberto), além de ser também o guardião e administrador das reservas estrangeiras e, no nosso caso, o centralizador do câmbio.
Pois bem: mudar a meta dos bancos centrais não fará mudar também os instrumentos de política monetária de que essas instituições dispõem. Mesmo que o Federal Reserve continue aplicando algumas medidas, de certo modo, de maneira pouco convencional, como vem fazendo ("quantitative easing", ou seja, comprando ativos reais e afrouxando ainda mais a liquidez, enquanto mantém as taxas de juros próximas a zero), uma mudança de meta de inflação para meta de desenvolvimento apenas aceleraria o aquecimento da economia, se fossem mantidas as premissas de ampla liquidez. Caso contrário, haveria uma enorme e perigosa, perda de credibilidade.
Outro argumento proposto por Sumner trata da flexibilidade da atuação do banco central em épocas de crise. Para ele, mudar a meta implica obter maior estabilidade macroeconômica quando uma recessão se instala. Enquanto o produto doméstico cai mais dramaticamente, os preços relativos se ajustam com mais vagar. Isto significa que o banco central poderia manipular tais flutuações de forma mais eficiente, mesmo que isso possa acarretar maior volatilidade da inflação.
Ainda, outro argumento se refere ao potencial de redução de desemprego, política pública essencial em épocas de crise, e fundamental para reaquecer a economia. Mudar a meta, alega, é trazer o banco central para o time dos que apoiam a recuperação, e se ele estiver devidamente coordenado, a contribuição à economia é valiosa.
Aos problemas: primeiro, implícita está a tolerância com um pouco mais de inflação, debate antigo e pernicioso. Segundo, o que não faltou na crise de 2008-9 foi o ativismo dos bancos centrais em busca de manter a economia funcionando. Depois, os mecanismos de centrar a política na meta de inflação são conhecidos, os do desenvolvimento, não. Por exemplo, como ancorar as expectativas dos agentes quanto ao comportamento dos preços se não há parâmetros nem objetivos? Potencialmente, é muito mais difícil tratar de expectativas de crescimento do produto, além de ser igualmente complexo compreendê-las mais objetivamente (e medi-las), dependendo de muitas outras variáveis exógenas à moeda. Portanto, essa não é uma boa saída e, como todas as ideias simpáticas e simplistas, pode acabar com a reputação de banqueiros centrais, homens prudentes e conservadores que aprenderam ao longo dos séculos que preservar o valor da moeda é um bem maior a ser defendido.

domingo, 25 de setembro de 2011

Dia D de Dilma.


Marco Aurélio Cabral, professor da Universidade Federal Fluminense, escreveu no VALOR ECONÔMICO sobre o “Dia D de Dilma”.

Contrariados como meninos mimados, participantes do "mercado" se exasperam nas críticas às supostas interferências políticas sobre o Banco Central, com alardes sombrios sobre o futuro próximo de todos os brasileiros. Ocorre que Banco Central independente é suposto como aquele que resiste a pressões políticas, seja de governos ou de "mercados", para o benefício dos interesses difusos, usualmente silenciosos no debate sobre juros. Nestes termos, ao reduzir juros em 31 de agosto, o Poder Executivo parece alinhar expectativas do "mercado" com o pragmatismo do agravamento da situação econômica internacional. Crises históricas são fenômenos distintos de pânico nos "mercados". Desdobram-se em acontecimentos aparentemente contraditórios se percebidos como simples sobe e desce de indicadores. Vistas de longe, as ondas longas do historiador Fernand Braudel parecem apontar para crises que se somam no momento presente dos fatos. Crises políticas e econômicas que se realimentam e se desenvolvem lentamente. E o pior. Inevitavelmente, para nós brasileiros.
Não se resolve nada ao fingir que o problema não existe e que há "normalidade" nos "mercados". A revisão do produto nos EUA para este ano aponta para taxas de crescimento negativas ao término de 2011. Aproximadamente metade dos espanhóis jovens encontra-se desempregada. Não há recuperação do Japão por conta do acidente nuclear. Pelo contrário, a chance mais concreta é que venhamos a assistir proliferação de favelas em Tóquio.
Diante disso, pragmatismo explica porque o objetivo de manutenção dos investimentos industriais previstos não é tarefa simples nestes tempos e, portanto, tanto o crescimento quanto o emprego devem ser defendidos pelo Estado brasileiro. O mesmo senso de realidade parece justificar a reorientação da política monetária em favor do enfrentamento da guerra cambial, que beneficia minoria próspera e mina a vitalidade competitiva de pequenos e grandes empresários brasileiros.
Cumpre-se lembrar que meio por cento de redução na taxa básica de juros implica em economia de cerca de R$ 7 bilhões ao ano no pagamento de juros, contribuição mais do que significativa no esforço de melhoria do resultado nominal. Caso mantida gradualismo na queda do diferencial das taxas reais interna e internacional até os níveis de 3% a 5% do "prêmio Brasil", seria necessário cerca de um ano com reduções em juros. Ao cabo deste período, estaríamos economizando cerca de R$ 70 bilhões anuais, esforço do tamanho do montante que será gasto em educação pública no país em 2011.
O Brasil de hoje se encontra em situação bem diferente daquela enfrentada ao final do século passado, quando convivia alta inflação e baixo crescimento. Após uma década de geração de empregos e renda, a fração de brasileiros sem cobertura do sistema bancário caiu, compreendendo-se hoje cerca de 40% da população (estima-se que em 1999 eram cerca de dois terços).
Da mesma maneira, a inflação que vier a resultar no futuro, se vier, pode ser reduzida considerando-se que outras instituições podem participar do esforço de contenção de preços. A Petrobrás já o faz com o preço da gasolina, vilão do passado. Mas poderiam ajudar também as agências reguladoras, em esforço coordenado de desindexação de contratos de concessão. As compensações à vista para as empresas poderiam ser canalizadas para redução de dívidas, principalmente em moeda estrangeira.
Da mesma maneira, a necessidade de redução nos juros poderia ser menor se fossem ativados mecanismos de exportação de capital via apoio financeiro público à aquisição de empresas no exterior por operadores brasileiros. Dado que a crise afeta poderosa e negativamente o segmento de bens de capital e, dado que este segmento gera inovações tecnológicas relevantes para competitividade das cadeias produtivas, espera-se que surjam oportunidades para transferência de tecnologia obtida nos países centrais para grupos industriais brasileiros. Neste contexto, os Ministérios de Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) e de Ciência e Tecnologia (MCT) poderiam acumular, de forma integrada e coordenada, inteligência tecnológica e competitiva para identificação de setores e tecnologias prioritárias. O BNDES-Exim poderia operacionalizar recursos financeiros para aquisições no exterior com emprego do Fundo Soberano.
Há ainda a opção de se introduzirem controles cambiais, sendo esta alternativa de mais difícil implementação que a penalização dos capitais de curto prazo via impostos sobre movimentações financeiras.
Finalmente, os mecanismos responsáveis pela expansão da oferta, infraestrutura e indústria, devem ser ancorados em estratégias de longo prazo, obedecendo-se a critérios de planejamento da ocupação racional e sustentável do território brasileiro. Com isso, possíveis aumentos de preços poderão ser neutralizados pelo crescimento homogêneo da renda e do emprego, principalmente nas regiões mais pobres do país.
A importância histórica do Copom de agosto de 2011 parece ser a de encerrar período marcado pela retomada do desenvolvimento (2003-2010), iniciando-se novo período de implementação de projeto nacional de desenvolvimento - só que desta vez em ambiente democrático e inclusivo, ao contrário dos nossos rivais chineses.
Em síntese, a decisão de revisão dos juros, em 31.08.2011, parece inaugurar novo período na história econômica do país. Período em que medidas de proteção ao mercado interno e regras que limitam fluxos financeiros internacionais pautarão o novo nacionalismo brasileiro. Para desgosto dos "mercados", contudo, não parece haver qualquer componente ideológico ou politiqueiro por detrás disso. Apenas o velho e bom pragmatismo de proteção do bem coletivo diante de inevitável aumento da ameaça externa.

O mundo de ponta-cabeça.


Luiz Fernando de Paula, professor de economia da UERJ e presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB), escreveu no VALOR ECONÔMICO sobre “O mundo de ponta-cabeça”. 


Um dos aspectos fundamentais do pensamento de John Maynard Keynes é a assunção básica de que as principais decisões empresariais em uma economia monetária, sobretudo aquelas relacionadas a um horizonte temporal mais dilatado, como no caso das decisões de investimento, estão sujeitas a incerteza radical. Incerteza, neste caso, significa a impossibilidade de se determinar, a priori, o quadro relevante de influências que atuarão entre a decisão de se implementar um determinado plano e a obtenção efetiva de resultados, dificultando a previsão segura que serviria de base para uma decisão "racional".
No conceito de Keynes sobre incerteza, não somente algumas premissas podem não ser conhecidas no momento de decisão como elas também podem ser incapazes de serem conhecidas. Keynes distinguia incerteza de risco probabilístico: "Desejo explicar que por conhecimento "incerto" não pretendo apenas distinguir o que é conhecido como certo do que apenas é provável. Neste sentido, o jogo de roleta não está sujeito à incerteza; nem sequer a possibilidade de se ganhar na loteria (...). O sentido que estou dando ao termo é aquele segundo o qual a perspectiva de uma guerra europeia é incerta, o mesmo ocorrendo com o preço do cobre e da taxa de juros daqui a 20 anos, ou a obsolescência de uma nova invenção (...). Sobre estes problemas não existe qualquer base científica para um cálculo probabilístico. Simplesmente nada sabemos a respeito".
É a incerteza incontornável quanto ao futuro que justifica a preferência pela liquidez dos agentes, isto é, de querer manter a riqueza sob a forma de moeda e outros ativos líquidos. Isso porque em momentos de maior incerteza percebida pelos agentes, que causa uma forte deterioração em suas expectativas, estes passam a dar preferência a flexibilidade na composição de seu portfólio, preferindo liquidez a rentabilidade. Nesse contexto, é natural que empresas posterguem seus planos de investimento, os bancos racionem crédito e os indivíduos evitem comprometimento com dívidas.
Não há dúvida que, três anos após a crise deflagrada pela concordata do Lehman Brothers, o mundo atual vive um momento de grande incerteza quanto ao futuro, com forte impacto negativo nas expectativas dos agentes: simplesmente não se sabe o tamanho do tombo que virá à frente. Em que pese o fato dos efeitos da crise financeira terem sido contidos em função da adoção de políticas anticíclicas nos países desenvolvidos, evitando que a crise, ainda que aguda, resultasse em uma "grande depressão", tais políticas não foram suficientes para permitir uma retomada do crescimento do produto e do emprego, com sinais recentes de uma nova desaceleração. Tudo leva a crer que teremos uma recuperação em W, em função da crise da zona do euro, sem solução à vista, e do fato que os EUA se comprometeram em fazer um ajuste fiscal prematuro que retira a possibilidade de fazer uso da política fiscal anticíclica.
Parece que as lições de crise não foram aprendidas inteiramente pelos "policy-makers" e muitos acadêmicos: procura-se dar soluções de mercado para problemas que foram gerados justamente por um mercado excessivamente livre. O argumento liberal é que, no caso dos EUA, empresas e indivíduos não têm confiança em gastar em função da política fiscal excessivamente expansionista que leva a um crescimento da dívida publica insustentável a longo prazo: agentes dito racionais, sabendo que o governo terá que aumentar impostos no futuro, irão poupar mais no presente. Assim, somente uma desaceleração nos gastos do governo restauraria a confiança dos agentes.
Ora, como sugerido acima, é completamente ingênuo pensar que em situação de expectativas fortemente deterioradas os agentes vão ser estimulados a gastar mais com a redução dos gastos do governo (ou redução nos impostos). Como assinalou Paul Krugman, em recente artigo no "NY Times", pesquisas feitas com empresas americanas mostram que é a falta de demanda (exacerbada pela expectativa de cortes do governo), em vez de impostos e regulação, que inibe os negócios no país.
Por outro lado, assiste-se o lento aprofundamento da crise do euro, que resulta não só dos impactos da crise mundial como também de sérios problemas estruturais relacionados à implantação da moeda única (falta de mecanismos fiscais supranacionais, ausência de uma unidade política, diferenças de estrutura econômica e social entre países, etc.). Neste caso prevalece uma solução que procure dar conta do problema do "risco moral", gerado pelo elevado endividamento público ou privado nos países da periferia do euro - diga-se de passagem, fortemente estimulado pelos reduzidos juros na periferia que seguiu a introdução do euro. Tal como no caso da Argentina, países como Grécia parecem agonizar na espera de que algum milagre aconteça.
Enfim, está claro que, três anos após a crise do Lehman Brothers, dado que a China não terá força para se contrapor a uma desaceleração mundial, a superação da crise passou a ser um problema essencialmente político. Contudo, dada a miopia das lideranças políticas, o que se pode esperar é um "mundo de ponta-cabeça".