domingo, 29 de abril de 2012

Princípios de Economia.


Sugestão de leitura para o próximo feriado: a 4ª edição do Princípios de Economia dos autores Robert Frank e Ben Bernanke (atual presidente do FED).  O lançamento é de 2012  e com 892 páginas. 

sábado, 28 de abril de 2012

As cotas de Schwartzman.


Recebo e leio com atenção os textos do sociólogo e presidente do Conselho do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), Simon Schwartzman.  Evidentemente muitos concordarão com a mensagem abaixo, enquanto outros serão veementemente contrários. Por entender que o problema maior do Brasil é a educação ou, melhor dizendo, a sua falta, compartilho com os meus dois fiéis leitores a ideia do Schwartzman, também colega blogueiro no http://www.schwartzman.org.br

A decisão unânime do STF em favor das cota raciais no ensino superior confirma, infelizmente, a tradição brasileira de dar soluções aparentemente simples e populares a questões complexas e difíceis, como são as da má qualidade e inequidade no acesso à educação no Brasil. Decisões do STF são para ser acatadas, claro, mas ninguém fica obrigado a concordar com elas. Escrevi um texto em 2008 aonde mostro como esta política de cotas é, no mínimo inóqua e potencialmente prejudicial, que está disponível aqui., e acho que continua válido.

Um argumento curioso que se ouve com frequencia a favor das cotas é que o desempenho dos alunos que entram nas universidades por este sistema tende a ser igual ou melhor do que dos que entram pelos procedimentos normais. É curioso porque, se eles têm realmente melhor desempenho, não precisariam das cotas para ser admitidos.  Se eles têm pior desempenho nos vestbulares ou no ENEM mas têm melhor desempenho nos cursos, isto indica que existem sérios problemas no ENEM e nos exames vestibulares, que precisariam ser corrigidos. Problemas deste tipo certamente existem, mas não há evidência de eles consistam em discriminar sistematicamente contra pessoas de pele escura. Para entender melhor o que está ocorrendo seria preciso observar se a baixa correlaçao entre resultados dos exames de ingresso e desempenho se dá igualmente em todos os  níveis ou somente nos cursos de níveis de exigência mais baixo.

Hoje o jornal O Globo publica uma pequena entrevista minha sobre o assunto, que tanscrevo abaixo.

A cota cria situações de pessoas que se sentem discriminadas’
O Globo – 27/04/2012
Simon Schwartzman, diz ser contra a adoção de cotas raciais em universidades. Na opinião dele, elas acabam gerando mais discriminação.

O GLOBO: Por que o senhor é contra as cotas nas universidades ?
SIMON SCHWARTZMAN: Não acho que cotas sejam uma coisa boa em geral. Considero correta a ideia de uma política de ação afirmativa que dê atendimento especial para pessoas em situação de carência. O que não acho correto é diferenciar as pessoas pela cor da pele ou pela raça.

Que medidas seriam mais adequadas que as cotas?
SCHWARTZMAN: Mais adequado seria melhorar a educação para as pessoas poderem chegar à universidade e não precisarem desse tipo de ajuda. Na falta disso, poderiam ser criados cursos que preparassem melhor para as universidades, e poderiam dar ajuda financeira para quem não tem recursos, de modo a permitir que as pessoas continuem estudando. Simplesmente criar cota e colocar a pessoa na universidade sem esse tipo de apoio, não significa que ela aproveitará. Vai ter aquela situação de o “fulano é cotista”, ou o “fulano não é cotista”. Vai criar discriminação.

Por que o senhor acha que a discriminação pode aumentar com as cotas?
SCHWARTZMAN: Quando você cria uma situação em que você divide as pessoas entre cotistas e não cotistas, você está dividindo a população e tem gente que diz “ah, o fulano entrou pela janela”. As pessoas começam a se olhar se estranhando.
Cria situações de pessoas que sesentem discriminadas, que tiveram desempenho melhor nas provas e não conseguiram entrar na universidade, como aconteceu em uma das ações em avaliação pelo STF.

Há quem diga que as cotas são uma forma de reparar um problema histórico, desde a escravidão. Como o senhor vê isso?
SCHWARTZMAN: Temos um presente extremamente complicado, com pobreza, pessoas que não completam o ensino médio ou que completam e não sabem quase nada. Parte dessas pessoas é negra, parte é branca. Temos que lidar com o problema da má qualidade de educação. Se tivéssemos uma educação de melhor qualidade, esse problema não se colocaria.

O senhor acha mais provável que o cotista abandone o curso?
SCHWARTZMAN: Pode ficar difícil para ele acompanhar, porque supõe-se que são pessoas que não têm condições de entrar pelo processo tradicional. Ou você não deixa entrar ou você deixa e dá apoio.

Krugman é um gastador.


Paul Krugman, em sua coluna no NYT, afirma com todas as letras que as políticas de austeridade jamais cumprem o que prometem. Segundo ele, os governos deveriam fazer da maneira que os manuais de economia recomendam: gastar mais para compensar a queda na demanda privada. Ele cita o exemplo da Irlanda, hoje sofrendo com a crise e vê com esperança a provável eleição do francês François Hollande, um quase gastador. 

Pensando no que vem acontecendo com o Brasil, faz bastante sentido. Considerando que se eu gastar mais do que ganho, com certeza, terei sérios problemas, acredito que o governo deva ter um limite para os seus gastos. Para isso, temos a Lei de Responsabilidade Fiscal, promulgada no tempo do Fernando Henrique e que vem colaborando para o país apresentar bons indicadores econômicos. 

Keynes continua atual, mas com moderação, não é professor Krugman? Afinal, queremos um Estado gastador ou um Estado gestor?  

O capitalismo brasileiro de Shiller.

Felizmente ainda existe luz na direção certa.

Na EXAME que está nas bancas, Robert Shiller, professor de economia da Universidade Yale, faz uma saborosa defesa do capitalismo, especialmente do sistema financeiro, incluindo até o Brasil em seu comentário. 

Um pequeno aperitivo do texto que está na página 166.  

"Para que progressos ocorram numa nação é preciso haver muito empreendimento, e isso requer organização. É, hoje, o caso do Brasil. Parte do sucesso recente da economia brasileira se deve à evolução do CAPITALISMO no país. Nesse contexto, vemos, por exemplo, esforços de democratização das finanças, como o representado pelo programa Minha Casa, Minha Vida. Essa evolução começou a ser construída com a eleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que agiu de modo a promover o CAPITALISMO financeiro - o que se repetiu com Dilma Roussef, sua sucessora. O Brasil é um exemplo, com índices evidentes de diminuição da pobreza, de melhora da educação e de aumento da expectativa de vida. No CAPITALISMO financeiro, se todos estiverem bem, as pessoas não vão achar ruim se uma minoria estiver muito melhor - e é por isso que não há um Occupy Wall Street nas ruas das cidades brasileiras."
 

segunda-feira, 23 de abril de 2012

A Argentina de Bresser-Pereira.


O professor Bresser-Pereira é um grande economista e hoje na FOLHA, em artigo defendendo a Argentina de Cristina Kirchner, ele escreve com todas as letras: 

A Argentina tem razão: Não faz sentido deixar sob controle de empresa estrangeira um setor estratégico para o desenvolvimento do país como é o petróleo, especialmente quando essa empresa, em vez de reinvestir seus lucros e aumentar a produção, os remetia para a matriz espanhola.

Cada caso é um caso, mas neste caso acredito que a Argentina não fez uma boa escolha. E eles tem exemplo dentro de casa mesmo: a Aerolíneas Argentinas foi estatizada em 2008 e tem prejuízos diários de US$ 2 milhões... Penso que isso não aconteceria num país que levasse a sério o respeito ao contratado.  

sábado, 21 de abril de 2012

Cheque, cartão e vergonha em 2012.

O mundo é do plástico, o valor é do cheque e a vergonha é brasileira.

Estima-se que neste mês esteja circulando algo como 708.376.000 cartões nas mãos dos brasileiros, o que dá uma média de quase três cartões por habitante e que resultará num faturamento próximo a R$ 59 bilhões.

Enquanto isso, o nosso tradicional cheque compensado continua em sua esperada queda, porém permanece no mercado, sem risco de extinção. Em fevereiro passado foram compensados cerca de 72.990.000 cheques no valor total de R$ 78 bilhões.

Vale salientar que dessa quantidade de cheques, cerca de 2,1%, ou seja, 1.465.300 foram devolvidos sem fundo. Uma vergonha tipicamente brasileira. Lamentável.    

Fonte: Bacen - Abecs - Acsp.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Paul Krugman no Brasil.


Paul Krugman, em breve entrevista ao VALOR ECONÔMICO de ontem, elogia a política monetária do BC brasileiro.

O Banco Central brasileiro está certo em sua política de redução dos juros, disse ontem o economista Paul Krugman, Nobel de Economia de 2008. "A economia está claramente se desacelerando, e a inflação, provavelmente como em todos os lugares, é transitória", afirmou ao Valor. "O relaxamento monetário é apropriado."

Professor da Universidade de Princeton, nos EUA, Krugman vê problemas na valorização do real, por criar pressões que minam a competitividade da indústria. Ao mesmo tempo, lembrou que o Brasil mantém a própria moeda, que pode ser desvalorizada em algum momento, diferentemente do que se passa com os países da zona do euro. Segundo ele, a situação cambial do Brasil se parece mais com a dos EUA em meados dos anos 80. Naquela época, o dólar estava forte demais, mas não foi difícil desvalorizá-lo. " Krugman deu breve entrevista antes de participar do Seminário Internacional sobre Pequenos Negócios, promovido pelo Serviço de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae), que teve apoio do Valor.

Valor: A presidente Dilma Rousseff reclama do "tsunami monetário", que seria causado pela política monetária dos países desenvolvidos. Diz que isso mina a competitividade dos emergentes e provoca uma guerra cambial. O sr. concorda com ela?
Paul Krugman: Não, embora entenda o problema. Há muito capital buscando os países emergentes e grande valorização da taxa de câmbio. Isso é um problema, mas não por causa de política monetária não apropriada nos países avançados. Esses países têm uma crise econômica grave. Ainda há grande crise de desalavancagem, o que mantém as economias deprimidas. É claro que os juros estão muito baixos. Há excesso de poupança nos países avançados. Se você olha para relação histórica entre desemprego, inflação e juros, as taxas dos Fed Funds deveriam estar em menos 4,5%. É razoável que esteja em zero. Eu entendo, a presidente tem suas preocupações. Há, de algum modo, um tsunami de dinheiro, mas não por causa de Ben Bernanke [presidente do Fed] ou Mario Draghi [do BC Europeu].


Valor: Quão preocupante é a valorização do real?
Krugman: Não é algo positivo, porque cria pressões. O setor manufatureiro perde competitividade e vai ser difícil recuperá-la. De outro lado, o Brasil ainda tem sua própria moeda. O real pode se desvalorizar de novo. O Brasil não tem muita dívida em moeda estrangeira. Quando olho para o Brasil, penso que pelo menos não é a Espanha. A Espanha teve uma valorização em termos reais nos bons anos do euro [devido aos diferenciais de inflação] parecida com a brasileira, mas está numa crise terrível, porque não pode desvalorizar. O Brasil pode. A situação do Brasil parece mais com a dos EUA em meados dos anos 80, quando o dólar ficou muito forte, mas não foi um processo especialmente difícil desvalorizar a moeda de novo.


Valor: Há um grande debate no Brasil sobre desindustrialização. Em 2011, a participação da indústria de transformação no PIB ficou abaixo de 15%. O governo deve tentar proteger a indústria?
Krugman: Não fiz muita lição de casa sobre a situação brasileira, mas acho que há de fato uma questão aí. O Brasil tem os fluxos de capital e as exportações de commodities, e faz algum sentido pelo menos tentar lidar contra os efeitos desses fatores.


Valor: O BC adotou postura mais agressiva desde agosto, quando começou a cortar os juros, apesar de algumas pressões inflacionárias, especialmente nos preços de serviços. Como o sr. vê a política monetária brasileira?
Krugman: Não tenho uma visão forte a respeito, mas acho que é razoável. A economia está claramente em desaceleração, e a inflação, provavelmente como em todos os lugares, é transitória. O relaxamento monetário é apropriado.

Copom: decisão prevista, mas deixa dúvidas à frente


Editorial do ESTADÃO de hoje comenta a redução na taxa de juros para 9% ao ano. 
 
Como era previsto pelo mercado, o Comitê de Política Monetária (Copom) aprovou por unanimidade a redução de 0,75 ponto da Selic, que caiu para 9% ao ano, ligeiramente acima do mínimo histórico de 8,75%. A ata da reunião anterior do comitê já deixara entrever essa decisão.

Com o clima econômico de inflação baixa, que o comunicado da reunião atribui à fragilidade da economia global, e com o setor externo contribuindo para deflacionar, o Copom dá seguimento ao processo de ajuste das condições monetárias.

O uso de termos condicionais permite ao Copom alguma flexibilidade, como nota Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central (BC). Mas também deixa dúvidas sobre o futuro da política das autoridades monetárias. Fala-se em continuar o processo de ajuste, o que leva a perguntar se, ao contrário do que dizia Alexandre Tombini, presidente do BC, o Copom poderá reduzir a Selic abaixo de 8,75% - há quem admita que caia para 8%.

As condições para isso são que a inflação continue baixa e a situação internacional mantenha o efeito deflacionário. Parece que neste segundo trimestre, com a ampliação do crédito e o seu barateamento, a economia nacional vai entrar numa fase melhor. Todavia, continua existindo o problema do preço da gasolina, cujo reajuste se torna premente com a evolução do preço do petróleo.

É bom lembrar que, numa fase de prosperidade, manter os preços é mais difícil e a desvalorização do real ante o dólar gera uma elevação da pressão inflacionária.

A redução da Selic abaixo de 9% torna quase obrigatória uma revisão para baixo da remuneração das cadernetas de poupança, medida que seria muito mal recebida pelos poupadores. Isso representa um sério obstáculo para maiores quedas da taxa de juros básica.

Se a redução decidida anteontem foi bem recebida pelos bancos privados, que estão cedendo às pressões do governo baixando suas taxas de juros, convém não contar com que isso continue em paralelo com a queda da Selic. Na medida em que os bancos tenham de se adequar às normas de Basileia 3, sentirão a necessidade de aumentar muito seus ativos. Isso tornará difícil uma redução do spread, especialmente num período em que maiores taxas de inadimplência, decorrentes da elevação do volume do crédito e da redução dos juros, aumentarão os riscos do sistema financeiro, que nos últimos anos resistiu graças ao estreito respeito às normas de Basileia 2.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Amartya Sen na FOLHA.


Amartya Sen, Nobel de Economia e idealizador do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)  está no Brasil participando de evento em São Paulo. Vide abaixo trechos de sua entrevista publicada na Folha de S. Paulo de hoje.

Folha - Qual será o impacto das medidas de austeridade adotadas na Europa para combater a crise?
Amartya Sen - As medidas intransigentes adotadas na Europa são baseadas em um raciocínio muito confuso. Você diz que elas foram adotadas "para combater a crise". Na realidade, porém, elas estão agravando e muito o problema da recessão, ao acabar com os incentivos para a expansão da economia da Europa (por meio do aumento da demanda), justamente quando é mais necessária.

E quais seriam as alternativas às medidas severas exigidas pelo mercado?
Primeiramente, seria preciso aplicar uma disciplina seletiva, visando eliminar os erros de conduta fiscal e a tentação de voltar a cometê-los no futuro (sem cortar coisas como salário-desemprego ou serviços vitais). Em segundo lugar, seria necessária a escolha do momento adequado para a adoção destas medidas -sem reduzir a demanda do mercado por meio do corte selvagem dos gastos públicos, exatamente agora, quando a maioria dos países envolvidos já tem muitos desempregados. Não há incompatibilidade entre disciplina fiscal seletiva, bem escolhida e adotada no momento certo, e uma economia de mercado que funciona bem, suplementada por serviços sociais e um "Estado de bem-estar social". Tudo vai depender de uma escolha sensata do "timing" e da cobertura dos cortes a serem feitos. O que estão fazendo é impor um programa geral de austeridade em todos os setores, no pior momento.

Os Estados estão encolhendo? Como isso compromete o desenvolvimento?
Não creio que o papel do Estado esteja encolhendo no mundo. A crise global de 2008 foi iniciada em grande medida pelo fato de o Estado ter deixado de exercer seu papel supervisor. À medida que a recessão se aprofundou, o fato de o Estado, em muitos países, ter deixado de prestar apoio aos desempregados de longo prazo e deixado de fornecer outras medidas de segurança social agravou em muito o sofrimento provocado pela crise -para as pessoas mais pobres e mais afetadas pela recessão. A economia e a sociedade precisam de atividades do Estado, além do funcionamento da economia de mercado. A experiência recente da recessão global trouxe muitas lições sobre o que não fazer.

Que lição poderia ter evitado a crise de 2008?
A compreensão de que a economia de mercado pode, sim, dar seriamente errado e que o Estado deve ter o poder e a responsabilidade de impedir que isso aconteça. As coisas não teriam dado tão errado se os riscos excessivos assumidos tivessem sido conservados sob a disciplina da divulgação obrigatória de informações e da supervisão geral. Os executivos financeiros recebiam bônus enormes enquanto as firmas assumiam riscos não justificados, sujeitando a economia e o povo a incertezas enormes.

Qual é o papel dos Estados, hoje, no desenvolvimento?
A questão fundamental é que uma boa sociedade necessita tanto de instituições baseadas no Estado quanto de instituições de mercado.
O Estado precisa fazer coisas que os mercados não são capazes de fazer com eficiência ou equidade, como nas áreas de saúde, educação, segurança e apoio aos desempregados e aos pobres. O Estado não pode deixar de exercer a liderança nesses setores e na função de impedir a economia de mercado de correr riscos excessivos na busca por lucros rápidos. Ele precisa assegurar que o sistema de pagamento das firmas particulares (incluindo o pagamento de bônus enormes aos altos executivos) não cause desigualdades inaceitáveis e não coloque em risco a viabilidade do sistema econômico.

Qual a sua opinião sobre os movimentos "Occupy", que, apesar de terem demandas confusas, reivindicam transparência no setor financeiro?
Vejo os movimentos "Occupy" como uma das coisas mais interessantes e animadoras dos últimos anos. Suas queixas não são bem formuladas, evidentemente. Mas essa falta de precisão e de articulação não torna os movimentos pouco importantes. Eu os vejo como algo que está registrando a insatisfação com as disparidades e injustiças no mundo. O impacto que terão sobre o modo como o mundo funciona vai depender de como são levadas adiante essas explosões de protesto. Com um engajamento contínuo e liderança inteligente, poderão trazer para a discussão pública uma série de questões cruciais. 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Os melhores CEOs da América Latina.


Um ranking elaborado pela revista americana "Harvard Business Review", especializada em administração e negócios, mostrou 26 brasileiros entre os 50 CEOs (presidentes-executivos) de melhor desempenho da América Latina entre 1995 e 2009.

1. Maurício Novis Botelho (Embraer, 1997-2005, Brasil)
2. Roger Agnelli (Vale, 2001-2011, Brasil)
3. Benjamim Steinbruch (CSN, 2002-presente, Brasil)
4. Manoel Arlindo Zaroni Torres (Tractebel Energia, 1999-presente, Brasil)
5. Miguel Gomes Pereira Sarmiento Gutierrez (Lojas Americanas, 2001-presente, Brasil)
6. Renato Alves Vale (CCR, 1998-presente, Brasil)*
6. Paolo Rocca (Tenaris, 2002-presente, Argentina)*
8. José Antonio Fernandez Carbajal (Femsa, 1995-presente, México)
9. Daniel Hajj Aboumrad (América Movil, 2000-presente, México)
10. Moisés Afonso Sales Filho (Coelba, 2003-presente, Brasil)
11. José Sidnei Colombo Martini (CTEEP, 1999-2009, Brasil)*
11. Marco Antonio Bologna (TAM, 2004-2007, Brasil)*
13. José Galló (Lojas Renner, 1999-presente, Brasil)
14. Marcelo Awad (Antofagasta, 2004-presente, Chile)
15. Roque Eduardo Benavides Gonzaga (Compañia de Minas Buenaventura, 2001-presente, Peru)*
15. Oscar González Rocha (Southern Cooper Corporation, 2004-presente, México)*
17. José Humberto Gutiérrez Olvera-Zubizarreta (Grupo Carso, 2000-presente, México)
18. José Armando de Figueiredo Campos (CST/Arcelor Mittal Tubarão, 1997-2009, Brasil)
19. José Calderón Muñoz de Cote (El Puerto de Liverpool, 2004-presente, México)
20. Abraham Chahuan Abedrabo (Compañia Minera Milpo, 1999-2010, Peru)*
20. Carlos Henrique Piedrahita Arocha (Grupo Nacional de Chocolates, 2003-presente, Colômbia)*
22. Djalma Bastos de Morais (Cemig, 1999-presente, Brasil)*
22. Carlos Felices (Telecom Argentina, 2002-2007, Argentina)*
24. Marco Antonio Slim Domit (Grupo Financeiro Inbursa, 1997-presente, México)
25. Oscar Von Chrismar Carvajal (Banco Santander-Chile, 1997-2009, Chile)
  • Os números repetidos representam empate.
Fonte: UOL 

sábado, 14 de abril de 2012

Notas econômicas e afins.

Curtas notas dos melhores momentos da Exame desta quinzena:

- Brasília é um oásis cercado por cidades de renda sudanesa, descaso com a saúde pública e taxas de homicídio iguais às de Honduras.  

- A combinação infernal de custos no Brasil está, sim, causando um estrago no setor industrial. Mas a resposta escolhida para lidar com o problema - o aumento do protecionismo - pode tornar a situação ainda pior. 

- "Os Estados Unidos são um país diferente do resto do mundo. Ele emite moeda" - Dilma Rousseff.

- "A questão-chave não é escolher o melhor, se governo ou setor privado, mas saber quais papéis eles devem ter na sociedade. Para isso, precisamos começar perguntando que sociedade queremos" - David Rothkopf.

- Entre 22 das maiores cidades do mundo, São Paulo foi a 4ª a receber mais investimentos no ano passado, segundo a KPMG.  

- Quer entender a disparidade de renda no mundo? Olhe para as instituições de cada país, dizem os autores do ótimo Why Nations Fail. 

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Embate nos juros não é de fácil solução.


Editorial de hoje do GLOBO e as recentes mudanças ocorridas no Banco do Brasil e na Caixa Econômica. 

Os juros também obedecem a leis de mercado, e, no caso brasileiro, refletem uma demanda reprimida por crédito e uma oferta ainda insatisfatória. O total de crédito no país, embora tenha crescido a taxas anuais de quase 20%, não ultrapassa o equivalente à metade do Produto Interno Bruto (PIB). Nas economias mais desenvolvidas, essa percentagem chega ao dobro, e mesmo nas emergentes os índices estão mais próximos de 70%.

Uma das razões de o crédito ser caro e restrito no Brasil é que o sistema financeiro tem em seu passivo uma elevada concentração de recursos com garantia de liquidez imediata, herança dos tempos em que, para se proteger da inflação, os poupadores se habituaram às aplicações de overnight. De maneira geral, os poupadores não se sentem suficientemente seguros nas aplicações de mais longo prazo, haja vista que é relativamente recente a disseminação de fundos de previdência privada complementar, por exemplo. É um quadro que tende a mudar, pouco a pouco, à medida que o real consiga se mostrar menos vulnerável à inflação - e não sejam tomadas decisões em Brasília que gerem dúvidas sobre o futuro.

A garantia de liquidez imediata teve como lastro principal a rolagem da dívida pública. A diminuição e o alongamento desse endividamento certamente contribuirão para que os poupadores se sintam mais atraídos para aplicações de médio e longo prazos, especialmente se tiverem estímulos tributários para tal.

Enquanto essa transformação não se materialize, haverá um embate entre os bancos e os tomadores de crédito. Os juros muito elevados criaram, de fato, um ciclo vicioso. Por falta de opção, os que precisam recorrer ao crédito se arriscam a uma situação de desequilíbrio financeiro diante de qualquer eventualidade ou turbulência que afete seus rendimentos. O crédito caro embute, então, o risco de inadimplência alta. E a falta de pagamentos leva o sistema financeiro a compensar a perda com a cobrança de uma taxa média de juros salgada. Esta é uma das causas de um elevado spread no Brasil - diferença entre o que o banco paga ao investidor em seus títulos e o que cobra do tomador de empréstimo.

O embate muitas vezes resvala para disputas judiciais, que podem adiar a solução e ter um resultado imprevisível para ambos os lados. Assim, os bancos acabam cobrando menos juros em créditos nos quais se sentem mais garantidos (desconto em folha, retomada de bens e imóveis etc.) e vão ao exagero nos financiamentos sem garantia (cartões de crédito, crédito pessoal, cheque especial). São uma aberração taxas de 50% ao ano quando a inflação se encontra abaixo de 6% e a Selic aquém de 10% .

O governo parece acreditar que a quebra desse círculo vicioso ocorrerá por uma maior concorrência por parte de bancos estatais (BB e CEF). Não deveria ser muito otimista, diante da pouca mobilidade da clientela (é pequeno o número de clientes que costumam mudar de banco atraído por oferta de crédito menos caro). Então, é pouco provável que os juros recuem significativamente apenas por esse movimento, sem que outros fatores que contribuem para taxas elevadas se alterem. Os bancos, com razão, pedem menos impostos para praticar taxas mais civilizadas. O governo não gosta da reivindicação. Mas o espaço de negociação precisa ser mantido aberto, para que cheguem a pontos comuns. O Brasil não está condenado a ter juros nas nuvens por todo o sempre.

Gustavo Franco - Um liberal heterodoxo


Excelente o longo perfil que Sergio Leo publicou hoje no Valor Econômico sobre Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central. 
Franco, Ph.D. por Harvard, teve sua tese premiada pela Associação Nacional dos Centros de Pós-Graduação em Economia. Em fluente texto, Leo mostra a intimidade de Franco, incluindo informações do passado e do presente. 
Uma interessante leitura para iniciar mais um final de semana. Do texto, destaco para os meus dois fiéis leitores:

Com a morte de Getúlio, o pai de Gustavo Franco acompanhou a implantação da indústria automobilística, na direção do grupo Monteiro Aranha, que traria a Volkswagen ao Brasil. Já na faculdade, Gustavo fez estágio na corretora Garantia, hoje banco, onde o pai foi sócio. Decidiu estudar economia por influência paterna, mas o assunto não costumava ser discutido em casa. O pai, discreto, nem lhe contava dos debates homéricos que teve, no BNDES, com o amigo Roberto Campos, cofundador do banco. Divergências operacionais, ditadas pelo pragmatismo de Guilherme, garante o filho. "Nenhum dos dois era desenvolvimentista", assegura ele, que jura ser liberal "ma non troppo". "No contexto americano, de Estado mínimo, sou um heterodoxo."

"No Brasil, as situações e a experiência de política econômica são heterodoxas", diz. "Temos de navegar em um mundo de intervenção do Estado, onde o Estado é pesado." A PUC do Rio, "esse antro de neoliberais" onde estudou e até hoje dá aulas, é dissidência da Fundação Getúlio Vargas, essa sim, escola que seguiu por mais tempo o ideário ultraliberal da Escola de Chicago, que dominou países como o Chile nos anos 70.

Na PUC dos anos 70, Franco, estagiário, ajudou Edmar Bacha a escrever um bem-sucedido livro de introdução à economia, baseado no marxista polonês Michael Kalecki- o "Keynes de esquerda", para alguns, por ter antecipado ideias de John Maynard Keynes, santo padroeiro de muitos desenvolvimentistas. "O Edmar diz que eu é quem era o kaleckiano. Outro dia lemos que na Argentina queriam obrigar todo mundo a estudar Kalecki e pensamos: "Ora, vamos reeditar o livro"", brinca.

Após 40 minutos de conversa, pela primeira vez é acionada a campainha de chamar garçom. "Pode trazer aquelas coisinhas", pede Franco, íntimo da casa e do couvert, com delicados croquetes, risoles e outros acepipes. Indiferente ao ruído ambiente, Franco conta que, como professor na PUC, até adotou o manual kaleckiano escrito com Bacha.

"Seria ridículo ensinar economia pegando manual americano, escrito para um estudante que nem sabia o que era inflação, do tamanho que tínhamos, na época", defende-se. "Hoje, à medida que o Brasil fica mais normal, a integração com os livros-texto de outras partes do mundo fica mais tranquila."

Mas a economia brasileira não é excepcional? "É um velho tema", responde. E revela que, depois de ter produzido livros sobre a economia nas obras de Fernando Pessoa, Machado de Assis, Shakespeare e Goethe, se dedica a Kafka. Não o tcheco, Franz, mas um primo distante, o brasileiro Alexandre Kafka, ex-diretor do Brasil no FMI.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Economia em números.


Conforme solicitação de dois fiéis leitores, sempre que possível este post estará sendo atualizado com os números mais divulgados no mundo da economia. Vamos iniciar então?

PIB Brasil 2009: (-) 0,3% - 2010: 7,5% - 2011: 2,7%.
PIB nominal em milhões de reais: 2010 3.770.085 e 2011 4.143.013.
PIB em milhões de US$ 2010: 2.087.889. 
PIB China 2011: 9,2%.
PIB por hora trabalhada em 2011 (em US$): Estados Unidos: 62 e Brasil: 11.
Exportações Fevereiro/2012: US$ 258,3 bilhões.
Importações Fevereiro/2012: US$ 229,6 bilhões.
Taxa básica de juros Selic: 9,75% ao ano.  
Reservas internacionais: US$ 356,3 bilhões.
Inflação - IPCA 12 meses: 5,24%.
População 2010: 190.755.799.
Dívida pública total em percentagem do PIB: 2010 39,15% e 2011: 36,49%. 
Risco Brasil em 2011: 186 e 2011: 208.
Taxa de desemprego em 12/2011 4,7% - 01/2012 5,5% e 02/2012 5,6%. 


Fontes: IBGE - Ipeadata - Banco Mundial - Revista Exame - Banco Santander.

terça-feira, 10 de abril de 2012

The Two Economies.

David Brooks, no NYT de hoje, nos faz acreditar que tempos melhores virão: 

"The creative dynamism of American business is astounding and a little terrifying. Over the past five years, amid turmoil and uncertainty, American businesses have shed employees, becoming more efficient and more productive. According to The Wall Street Journal on Monday, the revenue per employee at S.&P. 500 companies increased from $378,000 in 2007 to $420,000 in 2011."

E com base num artigo de TYLER COWEN cita que "If Cowen’s case is right, the U.S. is not a nation in decline".  


segunda-feira, 9 de abril de 2012

President Dilma Rousseff.



President Obama met with  President Obama met with President Dilma Rousseff of Brazil today to discuss the bilateral relationship between the two countries. The United States and Brazil are the two largest economies and democracies in the Western Hemisphere, and share one of the most important trade and economic relationships in the world. U.S. goods and services exports to Brazil totaled $63 billion in 2011 and support approximately 300,000 U.S. jobs.

The two leaders also discussed a wide range of global issues, including global economic growth, the situation in the Middle East, and progress the two countries have made as co-chairs of the Open Government Partnership, which is increasing transparency and accountability in governments all around the world


FGV na Folha: parabéns.


Uma ótima notícia hoje na Folha de S. Paulo: FGV entra para lista dos 'núcleos globais do pensamento'.

Dias antes da cúpula dos Brics, os núcleos de reflexão ("think tanks") de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul se reuniram em Nova Déli, na Índia, para tratar de temas que os líderes discutiriam depois.

Entre os tópicos estavam o banco de desenvolvimento conjunto, o comércio em moedas locais, a coordenação em política externa e a inovação tecnológica.

Pelo Brasil, estava lá a FGV (Fundação Getúlio Vargas). O conceito é novo tanto aqui como nos outros Brics, mas os "thinks tanks" dos emergentes começam a ombrear seus modelos centenários dos Estados Unidos e da Europa.

Na nova edição do ranking dos 30 principais no mundo, feito pela Universidade da Pensilvânia (UPenn), a FGV surgiu em 27º. A Rússia emplacou dois centros, a China um -a Academia Chinesa de Ciências Sociais.

O ranking é levantado ao longo de oito meses, das indicações ao resultado, num processo que envolve 1.500 especialistas do mundo todo.

James McGann, diretor do Programa de Think Tanks e Sociedades Civis da UPenn, afirma que a presença do Brasil "está diretamente relacionada à sua ascensão no mundo". A comunidade internacional está mais atenta aos emergentes "por causa das mudanças no poder global".

Carlos Ivan Simonsen Leal, presidente da FGV, diz que "o mundo resolveu olhar para outros países e, em especial, para o Brasil". Para Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais que representou a fundação na Índia, "a capacidade de determinar a agenda da conversa global já não fica só com as instituições americanas".

Stuenkel diz que "hoje um debate sobre qualquer desafio global precisa de alguém de instituição brasileira, porque o país já é um ator importante em todas as áreas".

No ranking, outros centros do país são lembrados, como Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais) e Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Para além da maior visibilidade dos emergentes, McGann vê em seus governos e nas próprias sociedades "maior apoio a essas organizações de política pública, como forma de incrementar a projeção de sua influência, regional e global". Lideram a lista Brookings (EUA), Chatham House (Reino Unido), Carnegie (EUA) e Council on Foreign Relations (EUA).

Marcelo Neri, economista-chefe do Centro de Políticas Sociais da FGV, acredita que "a fundação funciona como uma janela do mundo para o país", que "as pessoas que querem conhecê-lo usam a fundação para conversar com o país".

Na avaliação de Simonsen Leal, uma das mudanças que levaram à classificação surpreendente foi que a instituição "resolveu colocar sua mensagem como os demais 'think tanks': não tem só a linguagem acadêmica, mas traduz essa linguagem para as pessoas".

A maior diversidade ocorreu sobretudo na última década, diz Neri. "A fundação sempre foi muito ligada à visão empresarial, mais 'business', que ainda é o lado preponderante, mas tem participado do desenho de políticas educacionais, sociais."

E se internacionalizou, por exemplo, abrindo cátedras para um chinês e um indiano, por ano.

Stuenkel diz que no ambiente acadêmico brasileiro, em que os pesquisadores ainda "se isolam bastante", a FGV se diferencia por "não se ver apenas como universidade, mas também como 'think tank', tomando como parte de sua missão ser um ator visível no debate público".

Além de políticas sociais e relações internacionais, outra área que cresceu foi a de tecnologia da informação.

"É a inserção da fundação na economia do século 21", diz Cláudio Vilar Furtado, coordenador do GVCepe (Centro de Estudos em Private Equity e Venture Capital).

Diz que em toda a instituição aumentou a produção de "bens públicos, bens de conhecimento". E que "no GVCepe as nossas publicações correm mundo, somos sempre procurados aqui e referidos por quem quer informação a respeito das start-ups de base tecnológica no Brasil, a respeito da indústria de venture capital".

Para McGann, "em termos de evolução" a FGV se compara à líder Brooking e à Rand, sexta na lista. Os dois think tanks também surgiram com escolas de graduação, ligadas à pesquisa e à análise que realizavam, algo que a Rand mantém até hoje "e é de primeira". 

Ciência versus intuição.


Luiz Carlos Bresser-Pereira, hoje na FOLHA escreve que “não é surpreendente que os países asiáticos tratem de administrar taxa de câmbio e não incorrer em déficit”. 
 
A teoria econômica é uma ciência mais simples do que seus cultores neoclássicos ou ortodoxos supõem. Toda a matemática que usam para desenvolver seus modelos alienados da realidade é, além de desnecessária, prejudicial, porque os conduz a transformar o mercado em um mito, e a propor sua desregulamentação, cujo resultado são graves crises financeiras.

Mas isso não significa que a teoria econômica seja um conjunto de conhecimentos intuitivos. Pelo contrário, ela só se torna inovadora quando rompe com o senso comum.

Adam Smith rejeitou o senso comum quando disse que a riqueza da nação não estava em seu ouro e seus templos, mas na produção; Marx, quando mostrou que o lucro resultava de uma troca de valores equivalentes no mercado.

Schumpeter, quando ensinou que não é a posse do capital mas a capacidade do empresário de inovar e de ter acesso ao crédito que é decisiva; Keynes, quando argumentou que é o investimento que determina a poupança.

Hoje os economistas estão diante de um quebra-cabeça. A intuição lhes diz que "os países ricos em capital devem transferir seus capitais aos países pobres em capital", ou seja: países em desenvolvimento deveriam incorrer em deficit em conta-corrente e financiá-los com empréstimos ou investimentos diretos.

Entretanto, os países asiáticos dinâmicos, que crescem bem mais do que os latino-americanos, têm superavit em conta-corrente (superavit comercial inclusive serviços, juros e dividendos); a China, sempre.

No governo Lula, o Brasil apresentou taxa maior de crescimento quando teve superavit em conta-corrente; desde que voltou ao deficit, tem crescido menos. Na maioria dos casos, um país em desenvolvimento crescerá mais se apresentar superavit em conta-corrente e, assim, financiar os países ricos.

O modelo da doença holandesa explica essa surpreendente verdade. Para um país neutralizar a doença holandesa ou a maldição dos recursos naturais, precisa deslocar a taxa de câmbio do equilíbrio corrente (que zera sua conta-corrente) para o equilíbrio industrial (que torna competitivas empresas que usam tecnologia no estado da arte mundial). Ao lograr fazê-lo, o país terá superavit em conta-corrente, e os países ricos incorrerão em deficit.

Os países em desenvolvimento devem, portanto, tentar crescer com despoupança externa ou superavit em conta-corrente.

Um segundo argumento mostra o que ocorre com o país que tenta crescer com poupança externa. As entradas de capitais necessárias para financiar esse deficit apreciam a taxa de câmbio, aumentam artificialmente salários reais e o consumo, de maneira que mesmo quando se trata de investimentos diretos, aumentam afinal mais o consumo do que o investimento. Em seguida, o país, além de ter de remeter lucros e juros para fora, fica ameaçado de crise de balanço de pagamentos.

Não é surpreendente que os países asiáticos dinâmicos, que ouvem muito menos que nós os economistas ortodoxos do Norte, tratem de administrar sua taxa de câmbio e não incorrer em deficit mas em superavit em conta-corrente. Se o Brasil apresentasse também um superavit, cresceria muito mais e com muito mais segurança do que hoje. 

sábado, 7 de abril de 2012

Capitalismo em 2012.


Mailson da Nóbrega na VEJA:

Desde Adam Smith, o capitalismo se reinventou. Não será diferente desta vez. Os desafios incluem a reforma dos marcos regulatórios e ações para reverter a concentração de renda de alguns países ricos. As vantagens do capitalismo superam largamente os seus defeitos. Nenhum regime econômico será capaz de substituí-lo com sucesso. Está provado.


É o que também acredito. Diante disso, pergunto a você, um dos meus dois fiéis leitores, SE tivesse que escolher onde morar, o que preferiria: A Coreia do Norte ou a Coreia do Sul?        

Banco Central independente.


Por volta dos anos de 1930, quando a Argentina construiu o primeiro arranha-céu com sistema de ar condicionado da América Latina, o edifício Kavanagk, com 32 andares em estilo art déco, localizado na Florida, 1065, Raúl Prebisch batalhava pela criação de um Banco Central. Apesar das resistências de praxe, as atividades do novo Banco Central da Argentina foram iniciadas em 31 de maio de 1935. Desconheço como está hoje, mas na época, no hall do edifício tinha um letreiro com a declaração da missão do banco:

A missão primeira e  fundamental do Banco Central da Argentina é preservar o valor da moeda.”    

Embora decorridos quase 80 anos, essa deve ser a verdadeira missão de um Banco Central independente das interferências políticas do governante de plantão.    

Inflação x Desemprego.

O que serve para os Estados Unidos, não necessariamente é útil para o Brasil. É possível até entender Paul Krugman afirmar que um pouco mais de inflação não é má ideia, considerando o atual nível de desemprego americano. Porém, acredito que isso não deve ser regra para a atual política econômica brasileira. Afinal, os indicadores de inflação e desemprego, para felicidade de todos os brasileiros, estão em queda.  E que seja sempre assim ou permaneça por um longo período.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Ainda falta uma política industrial.


Editorial do Globo de hoje e o novo pacote de estimulo à indústria.  

Assim que as condições da economia mundial começaram a se degradar, na explosão da bolha imobiliária americana, em fins de 2008, a competitividade de cada país passou a ser testada a fundo. A crise americana, transmitida para a Europa pelos canais financeiros, com impactos em todos os continentes, estreitou mercados e, com isso, gerou um tal acirramento na competição global que dificuldades mascaradas na longa fase de expansão começaram a surgir. "Só quando a água baixa a gente vê quem está nadando nu" - a folclórica frase do bilionário americano Warren Buffett se aplica à perfeição ao que aconteceu no Brasil. A maré dos bons tempos vazou, e vários setores atolaram, sem conseguir competir com produtos importados - estes também ajudados pelo câmbio -, tampouco exportar.

Mais um pacote de estímulo à indústria foi desembrulhado em Brasília, para proteger o mais atingido dos setores pela maré vazante. A série de medidas, algumas bem-vindas, outras discutíveis, demonstra que nem sempre um conjunto de decisões compõe uma "política", no sentido mais profundo da palavra. Ao ampliar de quatro para 15 o número de setores beneficiados pela desoneração da folha de salários, em troca de uma taxação sobre faturamento, Brasília faz o reconhecimento implícito de que a necrose já vai longe na legislação trabalhista brasileira. Mas não consegue ir adiante para moldar uma verdadeira política com metas de curto, médio e longo prazos de redução efetiva e permanente do "custo Brasil". É provável que as corporações sindicais aliadas impeçam.

O que se passa com a indústria automobilística é exemplar. Depois de baixar o édito protecionista do aumento do IPI sobre veículos importados, Brasília tenta rever exageros, com o aceno de cotas - afinal, os grandes importadores têm fábricas no Brasil -, e acerta ao estimular investimentos em pesquisa. Mas as dificuldades do setor vão bem mais além. Estudo da PricewaterhouseCoopers, noticiado por "O Estado de S. Paulo", comparou os custos de produção de vários países e ficou evidente o porquê as montadoras, embora queiram vender no promissor mercado brasileiro, não planejam transformar o Brasil em plataforma de exportação: custos não competitivos. Enquanto o custo nacional de manufatura de veículos compactos, os escolhidos para serem montados no Brasil, é de US$ 1.400, comparável ao americano e japonês, no México ele se situa em US$$ 600, US$ 500 na Tailândia e na China, US$ 400.

Não serão medidas pontuais, muitas tomadas em função do maior acesso a Brasília de segmentos do empresariado, que alterarão este quadro. No pano de fundo desses números há uma infraestrutura precária, operários mal treinados e um sistema educacional público imerso em dificuldades conhecidas. Uma política de fato de aumento do poder de competição da indústria, ou qualquer outra atividade, fica capenga sem melhorias nestes campos.

Não é mesmo fácil executar uma política de fato de elevação de competitividade. Na solenidade em Brasília, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, no seu minuto de propaganda, disse que o Brasil estava reduzindo custos da produção sem retirar "direitos dos trabalhadores", ao contrário de outros países, e deu o azar de citar a Alemanha. Errou no exemplo. Lá, os trabalhadores, via sindicatos e o próprio Parlamento, concordaram em reduzir altos custos do "estado de bem-estar" alemão para defender o maior dos direitos: o do trabalho.

O que fazer? Gastar!


José Roberto Mendonça de Barros e Sergio Vale no Globo de hoje perguntam e respondem: O que fazer? Gastar!

Todo ano repete-se a discussão sobre o governo conseguir ou não fechar o superávit do setor público em 3,1% do PIB. Antes costumávamos duvidar da capacidade do governo em atingir tal objetivo, mas agora acreditamos 100% que o governo fará esse resultado. Como? Com a criatividade usual, que vai de jogar investimentos e custeio em restos a pagar cada vez maiores a manobrar com dividendos das estatais.

Mas essa discussão não depende apenas desses movimentos. Grande parte disso vem da expansão das receitas além do crescimento do PIB, algo que temos tido recorrentemente nos últimos anos. Em termos práticos, a cada aumento de 1% no PIB a receita real tem crescido em torno de 1,7% sistematicamente nos últimos anos. Isso se explica por vários motivos. Primeiro, nosso sistema tributário é progressivo nos impostos diretos e o aumento da classe média num ritmo maior do que o resto da economia ajuda a explicar parte do aumento de receita. Segundo, nosso sistema também tributa mais via impostos indiretos do que diretos, algo diverso do resto do mundo, mas dado que são esses setores que mais crescem na economia, como telecomunicações, combustíveis, financeiro e energia, é natural que contribua com maior arrecadação do que setores industriais tradicionais, por exemplo. Terceiro, a formalização tem aumentado ano a ano e permitindo aumento além da média tradicional do imposto de renda e outros tributos. Quarto, mesmo com perda de impostos importantes, como a CPMF, o governo achou um substituto à altura no IOF, que já tem nível de arrecadação semelhante ao finado "imposto do cheque". Como se espera que esse imposto vá aumentar pelas majorações recorrentes de alíquota, também é mais uma receita que cresce acima da média do PIB. Não podemos esquecer que o governo aproveitou o momento para trazer à discussão novamente aumentos de alíquotas de IPI de bebidas e cigarros, algo compensador das desonerações recentes.

Tudo isso fica mais evidente quando um setor como a indústria sofre mais do que o resto da economia como aconteceu em 2008/2009: a receita tributária acaba crescendo num ritmo ainda maior do que o PIB comparado com momentos sem crise. Nesses dois momentos, o governo tem optado pelo caminho mais prejudicial para o crescimento, que é aumentar os gastos num momento em que havia a oportunidade de desonerar de forma mais ousada a economia. Ou seja, mudamos de patamar de gastos, que se tornam rígidos, e não ajudam a indústria no longo prazo. Agora isso ocorre da mesma forma. A oportunidade perdida aqui não é simplesmente de se pensar num superávit primário maior do que já temos. Com 3,1% do PIB em 2016 chegamos a uma dívida líquida de 32% do PIB, um número bastante baixo sob qualquer critério. O que se perde é a possibilidade de pensar numa desoneração mais ampla e ousada que de fato significasse redução de custos para as empresas. Isso não acontece em grande parte porque o governo tem uma visão equivocada de acreditar que o câmbio é o grande vilão industrial. Algo que ficou muito claro no anúncio da nova política industrial. Além disso, acredita que parte do problema também é falta de financiamento, aportando mais recursos no BNDES.

Tudo isso apenas ajuda a distorcer mais o sistema fiscal, premiando uns em detrimento de outros, e amarrando ainda mais o financiamento de longo prazo no BNDES, um aporte que se torna um custo relevante para o Tesouro por se financiar pela Selic. Por mais relevante que seja o banco, e acreditamos que o seja, seu foco recente tem sido apoiar grandes campeões nacionais de forma pouco eficiente deixando de lado o que deveria ser um objetivo natural, que é o financiamento da inovação.

Daí a alusão no título ao fato de o governo amarrar as novas receitas com mais gastos. Mas não necessariamente gastos em si. O gasto aqui é de tempo desperdiçado ao não pensar em uma estratégia de longo prazo para a indústria. Países como Coreia do Sul e Taiwan não viram suas indústrias florescerem com políticas curto-prazistas. Ao fazer isso o governo joga fora novamente a oportunidade de estimular a indústria voltando a dar diretrizes para o setor. Um saudosismo das câmeras setoriais dos anos 80 que não nos cheira bem.

A indústria precisa de uma Bolsa Família?


Editorial do Estado de S. Paulo de hoje comenta “A produção industrial e o novo programa de ajuda”.

No mesmo dia em que o governo anunciava um novo programa de estímulos à indústria, o IBGE divulgava os dados da produção industrial em fevereiro. Embora se registre um crescimento de 1,3% sobre o mês anterior, não se pode pensar que o setor manufatureiro esteja saindo do marasmo em que se encontra. O resultado de fevereiro é estatístico e explica-se, na verdade, porque houve uma violenta queda de 2,1% da produção industrial do mês de janeiro, em relação a dezembro de 2011. Nos dois casos, são dados com ajuste sazonal.

Dos 27 setores analisados, 18 apresentaram crescimento em valor absoluto. O resultado mais brilhante se verificou com os caminhões, cuja produção cresceu 13,1%, mas, de novo, em seguida a um mês em que houve férias coletivas e em que a produção havia caído 31,2%.

A estagnação da indústria aparece melhor quando se verifica que, em relação ao mesmo mês do ano passado, houve queda de 3,9% e que nos dois primeiros meses do ano a produção caiu 3,4% em relação ao mesmo período de 2011.

Não se deve concluir, diante do aumento de 5,7% na produção de bens de capital, que as empresas industriais se empenham em aumentar ou modernizar sua produção. Na verdade, os dados sobre equipamentos em geral foram inflados pela produção de caminhões, considerados bens de capital, porque a produção dos destinados para fins industriais diminuiu. O único resultado que se pode considerar de fato positivo foi a elevação de 2,3% da produção de bens intermediários, que talvez oculte uma antecipação das medidas que o governo tomou e que pode levar a um aumento da produção de bens acabados, em vista das novas facilidades.

A indústria extrativa - que não tem acesso às medidas fiscais do novo pacote - cresceu 9,9%, aumento que se verifica apenas no caso dos minérios ferrosos e de minerais não metálicos.

O fato é que a maioria dos produtos que serão favorecidos pelo novo programa de ajuda à indústria acusa queda nos dois primeiros meses do ano.

O novo programa terá força para relançar a produção industrial? - essa é a pergunta. Sem dúvida, os setores de mão de obra intensiva terão possibilidade de aumentar suas margens de lucros, graças à desoneração da folha. Subsistem, porém, dúvidas quanto à redução de preços. O problema essencial consiste na redução do custo global da produção, que depende tanto da produtividade dos trabalhadores quanto da modernização dos equipamentos, assim como da capacidade de inovação das empresas.