segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O paradoxo da produtividade.


José Milton Dallari, ex-secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, integrante da equipe que implantou o Plano Real, é sócio da Decisão Consultores. Hoje, no VALOR ECONÔMICO.  

O Brasil vive um paradoxo. A economia segue em expansão, mas nem mesmo o crescimento contínuo dos últimos anos tem permitido às empresas ganhar produtividade. Na prática, é esse ganho que vai fazer com que o Brasil consiga competir em vantagem no cenário internacional, reduzindo a dependência em relação às oscilações das moedas mais fortes, como dólar e euro. No mercado nacional, ao aumentar a produtividade, as empresas conseguem vencer o dilema de aumentar preços para repassar custos e, com isso, alimentar a roda inflacionária.

Na busca pela produtividade, as empresas brasileiras estão vencendo a primeira barreira, a de investir em modernização de equipamentos, softwares e instalações. Falta, porém, vencer o obstáculo mais difícil, o de ter mão de obra treinada e capaz de acelerar as tarefas sem aumentar perdas com erros e retrabalho.

Todos os empresários, independentemente do ramo - indústria, infraestrutura, comércio e serviços, sabem bem do que estou falando. Não se trata de contratar engenheiros, administradores ou economistas. Mas de trabalhadores de linha de produção, pessoas de retaguarda nas empresas de serviço e, no caso do comércio, gente que simplesmente saiba fazer o que o cliente quer comprar. Faltam açougueiros para os açougues, padeiros para as padarias, confeiteiros para docerias, costureiras para confecções.

Na construção civil, faltam soldadores, pedreiros, azulejistas ou o bom fazedor de forma para encaixar o concreto. O setor cresceu cerca de 80% nos últimos anos, mas a formação de mão-de-obra não acompanhou esse ritmo. Em São Paulo, construtoras estão contratando funcionários de concorrentes com salários até 70% maiores e a disputa ocorre na porta dos canteiros de obras O piso salarial de um pedreiro é de R$ 1.086,00, segundo o Sinduscom, mas é difícil achar quem ganha esse valor.

A boa notícia é que o Brasil tem 20 milhões de brasileiros para serem treinados, segundo dados do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA). São eles que precisam aprender ofícios para atuar nessa faixa intermediária do mercado de trabalho. São profissões que não precisam de uma faculdade, apenas de pessoas bem preparadas para exercê-las.

Os 20 milhões apontados pelo Ipea são pessoas que terminaram o Ensino Fundamental e acabaram ingressando no mercado de trabalho, por necessidade financeira, exercendo funções como empacotadores de supermercado, operadores de máquina xerox, office-boys. Sem especialização, eles também não encontram estímulo para fazer carreira.

É essa turma que, recebendo treinamento, poderá manter o crescimento econômico do Brasil num ritmo de 4% a 5% ao ano.

Um padeiro que souber fazer bem o pão será disputado pelas empresas e poderá aumentar seu salário. Um funcionário de escritório que se sobressair por sua organização, agilidade e eficiência pode se transformar num gerente.

A boa notícia é que muitos estão empenhados na busca de solução para o problema. Um estudo da pesquisadora Marisa Eboli, da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo mostrou que pelo menos 150 empresas criaram universidades e escolas corporativas no Brasil nos últimos anos. A Universidade Petrobras treina cerca de mil pessoas todos os dias em cursos oferecidos no Rio de Janeiro e Bahia.

Para reduzir o problema o Governo Federal criou o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico (Pronatec), que será executado pelos ministérios da Educação, da Fazenda e do Trabalho. A meta é capacitar 3,5 milhões de trabalhadores até 2014, começando este ano com 500 mil.

O programa prevê, entre outras medidas, treinamento de alunos do ensino médio, de profissionais reincidentes no uso do seguro-desemprego e de beneficiários do programa Bolsa Família, além de incentivos a empresas privadas para formação de seus quadros.

Também os governos estaduais estão acelerando investimentos no ensino técnico, como é o caso de São Paulo. Mas ainda é pouco.

Por trás da falta de mão de obra qualificada está a difícil situação do ensino público do país, que já não consegue formar pessoas não só alfabetizadas, mas com estímulo para buscar no aprendizado a fórmula para vencer na vida.

O mau desempenho da educação básica é o responsável por deixar no caminho jovens sem perspectivas. As centenas de faculdades particulares com suas centenas de cursos ruins acabam enganando os jovens de menor poder aquisitivo, criando um imaginário que só um diploma de ensino superior vai resolver o problema da empregabilidade.

Conseguir um bom emprego não tem nada a ver com cursar uma faculdade, e estão aí como exemplo centenas de jovens de classe média que têm canudo nas mãos, mas ainda dependem dos pais para pagar as contas.

Os anos de educação básica devem servir também para reflexão dos jovens. O bom seria se conseguíssemos mostrar a eles, desde muito cedo, que o mercado de trabalho é bem mais amplo e complexo do que fazem crer os anúncios de faculdades.

A oferta de cursos profissionalizantes em cidades médias e pequenas é crucial para romper com a ideia de "precisar sair para estudar fora". Hoje, Prefeituras cedem ônibus para que estudantes cursem faculdade em outros municípios, a maioria instituições particulares com pouca qualidade.

Esse esforço precisa ser redirecionado, dando às pessoas primeiro a oportunidade do emprego qualificado. Com dinheiro no bolso, o jovem trabalhador poderá decidir como construir sua carreira.

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