sexta-feira, 5 de novembro de 2010

DELFIM E A EMPULHAÇAO.

Lemos na FOLHA DE S. PAULO, coluna de ANTONIO DELFIM NETO, com o sugestivo título: “EMPULHAÇÃO”. Ou prestamos atençao ao que acontece no mundo ou teremos um 2011 complexo.

A proposta de Timothy Geithner, o secretário do Tesouro dos EUA, para corrigir o desequilíbrio global, obrigando dentro de um prazo razoável cada país a limitar o seu superavit ou seu deficit em conta corrente a 4%, pode ser interpretada de várias maneiras.

Primeiro, como uma tentativa para não enfrentar o indigesto problema do câmbio chinês. É ilusão pensar que a resistência seja apenas de Pequim: as empresas americanas instaladas na China têm enorme poder de voto no Congresso americano, e os seus interesses seriam prejudicados com uma ação mais dura dos Estados Unidos.

Segundo, como uma empulhação. Os EUA sabem que o dólar precisa ser desvalorizado. Estão fazendo isso liquefazendo a sua dívida interna. No momento em que as "expectativas" de consumo e investimento se inverterem, poderemos ter uma taxa de inflação maior, que produzirá um aumento substancial da taxa de juro e uma depreciação do valor da sua dívida externa.

Se os países não conseguem controlar suas taxas de câmbio, como esperar que controlem os deficits em conta corrente? Mesmo simplificando o problema, o número de variáveis que precisam de controle (consumo, investimento, poupança, gasto público, taxa de juros, taxa de câmbio, salário real etc.) mostra que se trata de pura empulhação.

A recente descoberta -para dar solidez à proposta americana- de que Keynes sugerira algo semelhante em Bretton Woods (1944) beira o ridículo.

Keynes, no fundo, defendia uma espécie de "controle social dos investimentos" (que nunca se sabe como institucionalizar numa sociedade aberta). Ele, sem dúvida, foi o maior economista do século 20, e pagamos um preço alto por não levá-lo a sério. Podemos pagar outro levando-o, agora, a sério demais!

Lembremo-nos de que costumava responder a críticas de que era "volúvel" com a frase: "Quando o mundo muda, eu mudo. E você?". O que há de comum, afinal, entre o mundo de 1944 e o de 2010?

A despeito de a mídia financeira internacional ter classificado a proposta de Geithner como "sensata", é melhor prestar atenção à reação de quem tem a responsabilidade de manter funcionando a economia do seu país.

Para o ministro das finanças do Japão, Yoshihiko Noda, "a ideia de fixar metas numéricas é irrealista". O primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, acrescentou: "O G20 tem muita dificuldade em avançar tal ideia". E a resposta alemã, realista como sempre, foi certeira e mortal: "Não temos condições legais nem inclinação filosófica para interferir na economia para cortar nosso superavit. Afinal, é natural que países que estão envelhecendo poupem mais do que investem".

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