sábado, 18 de outubro de 2014

As diferenças nas ideias econômicas de Aécio e Dilma.

Texto na revista ÉPOCA desta semana, relaciona as as diferenças nas ideias econômicas de Aécio Neves e Dilma Rousseff e isso é muito importante neste momento de eleições. 

Para os meus ainda fiéis leitores e eleitores, uma boa reflexão ainda nesta semana, antes do dia 26. 

Os candidatos Aécio Neves, do PSDB, e Dilma Rousseff, do PT, rolaram na lama nos últimos dias, atracados numa violenta briga eleitoral. Acusações e denúncias têm seu papel no debate. Parte dos eleitores decide o voto na suposição de que um candidato seja mais honesto que outro. Mas a parte dos eleitores que prefere escolher ideias se sente abandonada, ao tentar encontrar algum diamante no meio do lamaçal. Por isso, vale a pena avaliar com carinho as ideias em confronto. Os dois candidatos e seus partidos representam hoje visões bem distintas sobre como funciona a economia e como um governo pode contribuir com a prosperidade dos cidadãos. Para esclarecê-las, convidamos economistas ligados às duas campanhas a explicar suas ideias.

Tanto o ideário econômico de Aécio como o de Dilma resultam da interação de diferentes correntes de pensamento. No caso de Aécio, a mais evidente no momento é o princípio do liberalismo econômico. Na tradição brasileira, liberais defendem que o Estado seja comedido. Cabe ao governo cumprir funções fundamentais, como prover segurança, educação, ou garantir a estabilidade econômica – controlar a inflação, dar bom rumo às contas públicas e revelar com transparência como cumpre essas tarefas. “O PSDB de hoje acredita que cabe ao mercado usar os recursos da melhor forma possível e ao Estado criar regras apenas para corrigir as falhas de mercado”, diz o economista Fernando Holanda Barbosa Filho, professor do Ibre-FGV.

Liberal em economia, no Brasil, é o governo que dá o máximo de liberdade possível aos agentes, como os profissionais e as empresas. Por esse credo, se o cenário econômico for estável e as regras claras, as empresas farão planos, investirão e criarão empregos. O grande nome dessa corrente no Brasil é o economista Eugênio Gudin (1886-1986). Mas não há sentido em chamar Aécio e o PSDB de economicamente liberais, muito menos xingá-los de “neoliberais”. O liberalismo é um princípio, não um programa de governo. Pode-se usá-lo com diferentes intensidades. No Brasil, uma boa dose seria bem-vinda, pois nossa economia ainda é fechada ao mundo, tem presença exagerada do Estado em comparação com países desenvolvidos e barra com burocracia o caminho dos empreendimentos. Resolver esses entraves exige uma aplicação bem calibrada de liberalismo.

A influência dos economistas liberais no PSDB começou no governo Itamar Franco, em 1993. O então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, incumbido de enfrentar a hiperinflação, reuniu um grupo deles. A reunião resultou no Plano Real e no fim da hiperinflação. Esses economistas mantiveram sua influência no governo Fernando Henrique, a partir de 1994. Eles apresentaram ao país conceitos importantes de gestão pública, como responsabilidade fiscal, metas de inflação e agências reguladoras com autonomia, de que nos beneficiamos até hoje. O pensamento econômico liberal deverá se manter em alta no partido, caso Aécio seja eleito, porque se opõe frontalmente à estratégia econômica do governo Dilma. “Há duas visões do que é incentivo a quem produz e cria empregos. Para o PT, é dar dinheiro, subsídio, financiamento. Para o PSDB, é criar regras atraentes, inspirar credibilidade, confiança”, diz a economista Monica de Bolle, doutora em economia pela London School of Economics. Pesquisadora visitante no Wilson Center, nos Estados Unidos, ela hoje prepara um livro crítico sobre o governo Dilma Rousseff.

O liberalismo dos economistas que apoiam Aécio é temperado com a social-democracia. Trata-se de uma ideia nascida na Europa, na segunda metade do século XIX. Originalmente, defendia uma transição pacífica do capitalismo para o socialismo. Ao longo do século XX, evoluiu. Deixou para trás conceitos empoeirados, como o conflito de classes e a vilipendiação do empresário. Na concepção moderna, busca justiça social sem abrir mão da economia de livre mercado. Esse conceito fundamental norteou a criação do PSDB, em 1988.

Dilma também se alimentou de duas fontes principais para formar seu credo econômico. Ela é uma desenvolvimentista. Essa corrente de pensamento surgiu em países subdesenvolvidos, em reação à Grande Depressão, iniciada em 1929. A crise varreu o mundo – no Brasil, sumiram os empregos na lavoura cafeeira, principal atividade do país naquela época. Nesse cenário, surgiram economistas dispostos a não dar chance ao acaso e garantir o desenvolvimento por meio de planejamento estatal. No Brasil, o principal nome dessa escola econômica foi Celso Furtado (1920-2004). Dilma, como boa desenvolvimentista, acredita que cabe ao governo mais que regular e garantir estabilidade. Por essa visão de mundo, cabe ao Estado fazer o que for necessário para promover o crescimento – investir, contratar, emprestar ou produzir ele mesmo. A “nova matriz econômica” defendida pelo governo Dilma nos últimos anos consistiu em tolerar mais inflação, oferecer mais crédito e estimular o consumo. Essa receita deveria incentivar as empresas a investir mais, para atender os consumidores. Esse resultado, até o momento, não apareceu. O governo passou também a agir de maneira pontual, com subsídios e intervenções em setores que considerou estratégicos e com apoio a grandes empresas que considerou ter chances de se tornar multinacionais com poder de fogo global. Esse curso de ação manteve empacados o investimento e a produtividade. Seu efeito positivo foi disseminar o surgimento de empregos, mesmo que de baixa remuneração e qualificação. A combinação de baixo desemprego, aumento real do salário mínimo, expansão do Bolsa Fa­mília e da oferta de crédito teve efeito poderoso no bem-estar dos brasileiros durante a maior parte dos 12 anos de governo petista. “O PT dá mais ênfase às políticas sociais. Por essa visão, o Estado é importante para contribuir com a redução das desigualdades sociais, porque o mercado é incapaz de propiciar isso à população excluída do sistema. Estamos num país com desigualdades muito gritantes”, afirma o economista Fabrício de Oliveira, ex-professor da Unicamp e da UFMG. Oliveira foi um dos economistas a assinar o manifesto “O Brasil não quer voltar atrás”, de apoio a Dilma, publicado na terça, dia 14.


A outra fonte em que bebe o pensamento econômico de Dilma é o trabalhismo. Ela iniciou carreira no PDT, representante de uma esquerda moderada e pragmática, orientada para a conquista de resultados para os assalariados. O PT nasceu em 1980, num momento em que o ideário socialista ainda cativava, mundo afora, os idealistas ingênuos, os desiludidos com a democracia e os desinformados de economia – ainda que já se comprometesse mais com resultados práticos do que com princípios ideológicos. Mesmo assim, o PT era um partido sectário, que tendia a dividir o mundo em explorados e exploradores. Essa visão de mundo evoluiu gradualmente, à medida que ganharam força, no exterior, movimentos trabalhistas mais dispostos a negociar e a buscar resultados práticos. Formou-se nesse caldeirão o maior líder do PT, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Dilma ingressou no PT em 2001 e mostrou-se mais apegada a ideologias que Lula. No momento, é difícil ver isso como uma vantagem. 

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