quarta-feira, 10 de março de 2010

PAULO NOGUEIRA E A ORTODOXIA!

Direto da FOLHA DE S. PAULO, o colega PAULO NOGUEIRA BATISTA JR escreve: ORTODOXIA, “PERO NO MUCHO.” No artigo da quinta-feira passada, falei um pouco sobre certa empolgação heterodoxa, ou pelo menos revisionista, que toma conta até mesmo do FMI. Vinicius Torres Freire publicou ontem na Folha uma coluna ironicamente intitulada "Saudades da Bahia e da ortodoxia". Pois bem, leitor, não quero ser espírito de porco, mas devo dizer que até um economista como eu já começa a sentir "saudades da ortodoxia". O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, declarou que poderá tomar medidas impopulares e antipáticas, não se deixando influenciar pelo "calendário cívico" (eleições). A sua preocupação é com um possível aquecimento excessivo da demanda, com consequentes riscos para a inflação.J ustifica-se a preocupação? Em certa medida, sim. A maioria dos indicadores (produção, emprego, utilização da capacidade, arrecadação tributária, entre outros) sugere forte retomada da economia. As projeções dos analistas de mercado, coletadas pelo BC (relatório Focus), vêm indicando aumento da inflação esperada para 2010. A expectativa mediana para o IPCA subiu para 4,91%. Além disso - e mais preocupante no meu entender -, o crescimento da economia brasileira, que é bem superior ao da maioria dos nossos parceiros comerciais, está contribuindo para o rápido aumento das importações e para a deterioração das contas externas. Parece claro que a economia brasileira tem, sim, condições de crescer 5% ou 6% ao ano, talvez até um pouco mais. Convém, entretanto, estar sempre atento aos efeitos que a expansão da demanda possa vir a ter sobre a inflação e as contas externas (desculpe, leitor, a homenagem ao Conselheiro Acácio). Suponhamos que o governo conclua que precisa frear a demanda. Qual a melhor forma de fazê-lo? O BC prefere, normalmente, aumentar a taxa básica de juro. Um dos grandes inconvenientes desse caminho é o efeito sobre o câmbio. A deterioração das contas externas reflete não apenas o diferencial de crescimento entre o Brasil e o resto do mundo mas também a força persistente da moeda brasileira. Por sua vez, o real valorizado reflete, entre outros fatores, o diferencial de juros entre o Brasil e o resto do mundo.Se o BC resolver seguir esse caminho, o mínimo que se pode esperar é que atue com moderação, como recomendou Delfim Netto na Folha de ontem. O quadro inflacionário não parece alarmante.Parte da aceleração da inflação no início deste ano se deve a fatores sazonais ou acidentais. A inflação esperada para 2010 ultrapassou o centro da meta, é verdade, mas continua bem abaixo do teto, que é 6,5%. Além disso, a inflação esperada pelo mercado, tanto para os próximos 12 meses (4,49%) como para 2011 (4,53%), está muito próxima do centro da meta. Isso sugere que existe confiança de que serão tomadas medidas para controlar a alta dos preços.O ideal seria combinar as políticas monetária e fiscal. O instrumento fiscal é geralmente mais lento e mais sujeito a limitações políticas, mas pode ser utilizado para desaquecer a economia sem provocar pressões altistas sobre o câmbio. Outra possibilidade é tomar medidas adicionais para conter a entrada de capitais externos e a expansão do crédito interno (desacelerando, por exemplo, os empréstimos dos bancos públicos).O essencial é ter o cuidado de não exagerar na dose e acabar abortando a recuperação em curso. Ortodoxia, sim. "Pero no mucho".

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