sábado, 17 de novembro de 2012

Análise da macroeconomia brasileira.


MARCELO KFOURY MUINHOS, superintendente do Departamento Econômico do Citi Brasil e PhD em Economia por Cornell (Estados Unidos) e LEONARDO PORTO DE ALMEIDA, economista sênior do Citi Brasil e doutor em Teoria Econômica pela FEA/USP, escreveram especialmente para a FOLHA DE S. PAULO.

O PIB (Produto Interno Bruto) do terceiro trimestre deste ano deverá ter crescimento de 1% em relação aos três meses anteriores, caracterizando-se como o primeiro trimestre em que a economia brasileira expandirá acima do seu potencial, desde o início do governo de Dilma Rousseff em 2011.

Ainda que haja dúvidas sobre a sustentabilidade desse crescimento nos próximos trimestres, devido às prováveis influências positivas de alguns fatores temporários, o correto diagnóstico de algumas evidências paradoxais contribui para uma melhor avaliação do cenário prospectivo da economia brasileira.

1) Primeiramente, é importante olhar com atenção para o fato de que a indústria de transformação tem apresentado desempenho muito abaixo do restante da economia desde 2011.

Para nós, a crise nos países desenvolvidos (em especial na Europa) tem papel crucial sobre o entendimento da pior performance da indústria em relação ao PIB, agravado pelo fato de o mercado de trabalho brasileiro se encontrar extremamente aquecido.

2) Com relação ao mercado de trabalho, é surpreendente o fato deste se manter extremamente aquecido mesmo diante de um crescimento do PIB abaixo das suas potencialidades.

Enxergamos que a maior concentração do crescimento no setor de serviços (devido à crise no setor industrial) e suas características intrínsecas de ser intensivo em mão de obra e, consequentemente, apresentar menor expansão da produtividade, seriam algumas das possíveis explicações para este paradoxo.

3) Contudo, mesmo diante de condições tão favoráveis no mercado de trabalho, como explicar a evidência contraditória da taxa de inadimplência dos empréstimos bancários ter atingido o patamar mais elevado desde dezembro de 2009?

Uma possível explicação seria o aumento significativo da formalização do emprego desde 2004, que permitiu que uma parcela relevante da população acessasse o crédito bancário sem uma avaliação suficientemente satisfatória sobre as reais condições de pagamento desta dívida.

4) E como explicar que uma queda da taxa Selic (taxa básica de juros) em mais de 500 pontos pudesse ocasionar uma resposta tão fraca da atividade econômica depois de mais de um ano?

Acerca disso, a crise internacional e suas implicações ao setor industrial brasileiro, a resistência à queda da taxa de inadimplência, a resposta mais tímida do BNDES e da política fiscal em comparação ao afrouxamento monetário de 2009 apontam na direção de que outros fatores têm restringido o impacto expansionista da atual política monetária.

5) Por fim, diante de um crescimento tão pouco representativo da economia, não seria de se esperar que a inflação estivesse orbitando em patamares mais próximos ou até mesmo abaixo do centro da meta de 4,5%?

Sobre isso, o já mencionado aquecido mercado de trabalho, ao exercer pressões de alta sobre os salários e consequentemente manter a inflação de serviços em torno de 8,5% -acima dos 5,5% verificados no IPCA-, parece exercer papel crucial no entendimento deste paradoxo.

Como qualquer outra conjectura, nossas explicações para as inconsistentes evidências que vêm prejudicando a economia brasileira requerem maior comprovação.

Um denominador comum, entretanto, parece balizar todos os paradoxos acima relatados. Ele reside nos impactos que a crise internacional exerce sobre os diversos fundamentos macroeconômicos.

Nesse sentido, se estivermos certos de que a crise sobre os países desenvolvidos deverá perdurar por mais alguns anos, tais paradoxos tenderão a se manter por mais algum tempo.

Um comentário:

Mariana disse...

Se os países desenvolvidos estão em crises, ou outros geralmente estão muito pior, e as economias não avançam.
Antes eu tinha muitos pares de oculos vogue, e agora só compro um cada verão.