segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

IMPORTANTE ARTIGO PARA REFLEXÃO

Este artigo foi publicado na revista EXAME, com o título ECONOMIA SOCIAL - Os economistas podem melhorar a condição humana?
Seu autor é o economista britânico Paul Ormerod, autor do livro A MORTE DA ECONOMIA. Inicialmente eu pensei em divulgar apenas alguns trechos. No entanto, avaliando melhor, entendo que o mesmo deva ser lido por todos os colegas ou admiradores/críticos da nossa ECONOMIA. Portanto, uma boa leitura. Afinal, ler é um ótimo remédio, principalmente no recesso de final de ano.
A matemática está se tornando cada vez mais difundida na economia. Para que fique registrado: na hora certa, entre adultos e de comum acordo, eu também uso matemática. Há boas e más razões para empregá-la a serviço da economia. Só que até agora as más prevaleceram. Isso não teria muita importância se os formuladores de políticas não levassem a economia tão a sério. Quase nenhum deles liga para loucuras da teoria literária, por exemplo. Mas a economia tem importância e, nas fronteiras da disciplina, uma mudança sutil mas profunda está ocorrendo. A economia está começando a se tornar mais realista, enraizada em instituições, em história, no mundo real, e, por conseguinte, mais útil. Foi assim, aliás, que a economia começou. Na época ela não era chamada de "economia", mas de "economia política", simbolizando o fato de que economias não existem independentemente de sistemas e instituições políticos.
Adam Smith fundou, sozinho, a disciplina de economia há cerca de 200 anos, e sua influência é grande até os dias de hoje. Mas seu livro seminal, A Riqueza das Nações, não contém nenhuma equação. Em vez disso, Smith emprega argumentos cuidadosamente construídos, apoiados numa profusão de evidências históricas. O corretor de ações inglês David Ricardo, autor de Princípios da Economia Política e Tributação (1817), é menos conhecido, mas a teoria econômica- padrão de comércio ainda se baseia em sua obra. Mais de um século depois, duas figuras de extremos opostos do espectro político fizeram contribuições de largo alcance à economia. John Maynard Keynes estudou matemática em Cambridge e depois passou para a economia. Friedrick Hayek, a inspiração intelectual para o thatcherismo, tinha insights profundos em psicologia e também em economia. Ricardo, Keynes, Hayek e uma série de outras figuras-chave evitaram deliberadamente a matemática. Eles preferiram usar argumentos ponderados respaldados em evidências.
Como foi, então, que a matemática se tornou tão presente na economia, quando tanta coisa foi alcançada sem ela? A pior razão é que o emprego da matemática faz com que os economistas se sintam como verdadeiros cientistas. Eles têm "inveja da física". Os físicos usam a matemática (tente fazer física quântica só com palavras), e são cientistas de verdade, que realmente explicaram como uma porção de coisas funciona. Portanto, se usarmos a matemática, isso nos fará verdadeiros cientistas, não é? Bem, o erro lógico desta última frase é bastante óbvio. Mas ele não impede a satisfação íntima que a maioria dos economistas sente quando cobre a página de símbolos matemáticos.
Há uma razão mais séria e mais danosa para a matemática, ao menos um tipo particular de matemática, ser usada em economia. Ela está inextricavelmente ligada ao conceito de "homem econômico". A economia é basicamente uma teoria sobre o comportamento dos indivíduos. E a história- padrão não só supõe que os indivíduos são movidos pelo interesse próprio, mas que eles se comportam como algum tipo de supercomputador -- sempre recolhendo cada pedaço de informação relevante para uma decisão. Esses indivíduos tomam então a melhor decisão possível com base nas opções disponíveis. Não apenas uma boa decisão, mas a melhor. Ou, como economistas gostam de dizer, ótima.
Essa ainda é a base para o ensino de economia na universidade. Mas, paradoxalmente, foi precisamente o emprego da matemática na economia que solapou essa visão do mundo. É também uma razão por que a disciplina está avançando dramaticamente. A matemática pode ser muito útil em economia desde que a pensemos como uma simples ferramenta entre muitas. Ela é uma ferramenta que pode nos ajudar no pensamento lógico. É como outra linguagem -- ela pode nos ajudar a encontrar nosso rumo.
Mas pioneiros como os vencedores do Nobel de 2001 George Akerlof e Joseph Stiglitz avançaram o tema nos anos 70. Eles perceberam que algo mais era necessário, por isso abandonaram a ideia de que as pessoas têm uma informação perfeita quando tomam decisões. Eles desenvolveram o conceito de "racionalidade limitada": embora possamos tentar tomar a melhor decisão, podemos não conseguir em razão da falta de informações vitais. Assim, num mundo de racionalidade limitada, as pessoas que se comprazem em comida vagabunda ou fumam pesadamente não são vistas necessariamente como tomando a melhor decisão possível para elas. O trabalho de Akerlof e Stiglitz representou um passo adiante enorme para tornar a economia mais realista.
Daniel Kahneman e Vernon Smith, vencedores do Nobel de 2002, deram passos ainda mais largos. Eles entraram efetivamente no mundo e conduziram experimentos para ver como as pessoas de fato se comportam. Observando e deduzindo, como cientistas de verdade! Descobriram que, na maior parte do tempo, as pessoas não se comportam como o homem econômico. Em sua palestra na cerimônia do Nobel, Kahneman afirmou: "A característica central de agentes (pessoas) não é que eles raciocinam mal, mas agem intuitivamente com frequência. E o comportamento desses agentes não é guiado pelo que eles são capazes de computar, mas pelo que enxergam em dado momento".
Em outras palavras, o conceito de um homem econômico racional, calculador, está sendo abandonado. A teoria do homem econômico postula que as pessoas têm todas as informações relevantes para tomar a melhor decisão. Nessa nova abordagem, as pessoas têm -- na melhor hipótese -- uma informação imperfeita. Elas seguem aos trambolhões, tentando tomar decisões racionais, às vezes conseguindo -- mas, com frequência, falhando. As novas abordagens que se desenvolveram para substituir o homem econômico, talvez surpreendentemente, tornaram a economia muito mais dura. Em vez de apenas manipular algumas equações, nós precisamos pensar nas regras de comportamento relevantes. E precisamos recuperar a importância de instituições e da história. Em suma, temos de recuperar a ideia de economia política numa roupagem completamente moderna. Friederick Hayek sofre a desconfiança de muitos, mas há uma verdade profunda em sua observação: "Um economista que é apenas um economista não pode ser um bom economista".
Tudo isso deixa a economia mais humilde. Em vez de pretender passar por uma teoria de comportamento completamente geral -- aplicável a todas as pessoas em todos os tempos e lugares --, a economia é agora muito menos pomposa. Mas, em última instância, essas mudanças servirão para tornar a disciplina mais realista. E potencialmente mais poderosa como uma força para ajudar a compreender e melhorar a condição humana.

Nenhum comentário: