sexta-feira, 15 de julho de 2011

Adapte-se ou morra.

MICHAEL SPENCE, laureado com o Nobel de Economia, é professor de economia na escola Stern de administração de empresas, Universidade de Nova York, pesquisador visitante no Conselho de Relações Exteriores e pesquisador sênior na Hoover Institution, Universidade Stanford. Escreveu hoje na FOLHA DE S. PAULO sobre a situação econômica atual do mundo.

A estrutura política que comprovadamente serve melhor às grandes economias emergentes se concentra não apenas na estabilidade monetária ou nos aspectos macroeconômicos, mas também na adaptação. Essa adaptação é orientada por uma avaliação projetiva das variações estruturais microeconômicas e macroeconômicas e das medidas necessárias a dar-lhes sustentação. E quanto aos grandes países avançados? Por motivos históricos, as atitudes de política econômica se provam menos flexíveis e adaptáveis. Um exemplo: em 8 de julho, depois do anúncio dos mais recentes e decepcionantes números sobre o emprego nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama expressou a opinião, compartilhada por muitos, de que um acordo sobre o limite das dívidas federais e sobre a redução do deficit público reduziria as incertezas que estão prejudicando o investimento em negócios, o crescimento e o emprego. Em outras palavras, os problemas fiscais dos Estados Unidos explicam sua recuperação econômica extremamente fraca. Assim que um acordo sobre a situação fiscal seja concluído, o governo poderá se afastar e permitir que o setor privado impulsione as mudanças estruturais necessárias a restaurar um padrão de crescimento inclusivo. Os comentaristas econômicos e financeiros parecem cada vez mais confusos quanto à fraca recuperação dos Estados Unidos. As diferenças entre a situação atual e as demais recuperações norte-americanas posteriores à Segunda Guerra Mundial são tão grandes que o uso do termo "recuperação" chega a ser dúbio. Mas os líderes norte-americanos ainda assim aceitam a visão cíclica da economia, analisam a recuperação fraca e imputam a culpa por ela a erros políticos posteriores à crise. Mas a conclusão sensata é a de que não vivemos uma recuperação cíclica, e sim o começo de um processo postergado de adaptação estrutural às mudanças na economia mundial, ao crescimento das economias emergentes e à variação nas vantagens comparativas e a poderosas forças tecnológicas. É claro que ninguém nega que existiram elementos cíclicos na crise de 2008. Mas vieram acompanhados de desequilíbrios estruturais que se acumularam por pelo menos 15 anos e que ocupam posição central na incapacidade da economia dos Estados Unidos para retomar seu nível normal de atividades. Os céticos podem bem questionar por que, se esses supostos desequilíbrios estruturais estão agora impedindo o crescimento do PIB e do emprego, eles não se tornaram aparentes antes da crise. A resposta é que já o eram, mas não nos números do emprego e do crescimento. Os demais sinais foram desconsiderados, ignorados ou tratados como pouco importantes. Um resumo curto desses sinais incluiria o consumo excessivo (que agora desapareceu) e a deficiência na poupança, baseados em uma bolha de ativos e em alto endividamento; um deficit em conta-corrente persistente e cada vez maior (sinalizando que o consumo e os investimento internos excediam a renda e a produção nacionais); e o crescimento líquido ínfimo do nível de emprego (ao longo de duas décadas). Com a queda na demanda interna agregada, o único propulsor de crescimento em operação, o comércio externo de bens e serviços, não serve à criação de empregos. Ignorar todos esses sinais gerou a ilusão de emprego e crescimento sustentáveis, antes da crise, e ajuda a explicar por que ela, e não aquilo que a causou, vem sendo vista como culpada pelos problemas. A "grande barganha" à qual Mohammed El-Erian, o presidente-executivo da Pimco, se referiu recentemente ao descrever a resposta correta à atual situação dos Estados Unidos precisa incluir um plano de estabilização fiscal. Mas também requer a adoção de uma estrutura política que reflita com precisão a natureza não cíclica das adaptações estruturais de prazo mais longo que serão necessárias para restaurar o crescimento e o emprego.

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