sábado, 1 de junho de 2013

Keynes é nosso.

Localizei em meus arquivos este artigo do Gustavo Franco, o qual compartilho com os meus quase, ainda, espero, dois fiéis leitores. 

Há muita gente celebrando o fim do capitalismo, ou do neoliberalismo, os termos são usados como sinônimos.

Mas é verdade também que todos os celebrantes estão com muito medo, por causa de ao menos uma de três razões: não têm idéia do que está se passando, não sabem o que vem "depois" e, como as pessoas comuns, têm dúvidas sobre suas poupanças, sua aposentadoria, essas coisas materiais que afetam até mesmo os grandes poetas.

Embora a atmosfera esteja carregada demais para vaticínios, parece razoável supor que o capitalismo não vá acabar. E mais: como disse recentemente Paul Samuelson, a economia de mercado tem cerca de mil anos de serviços prestados, ao passo que os experimentos sob os auspícios de Marx, Lênin, Stálin, Fidel, Chávez são nada menos do que trágicos. Tal como a democracia, o capitalismo tem muitos defeitos, mas bate a concorrência por ampla margem.

Vale lembrar que as crises financeiras existem desde sempre, e que invariavelmente são combatidas por intervenções salvadoras dos governos, que terminam fazendo o sistema mais robusto. John Maynard Keynes, tão lembrado recentemente, foi um dos heróis na vitória sobre uma grande crise e estava muito longe de ser hostil ao que hoje se chama de neoliberalismo.

Muito ao contrário, desprezava os heterodoxos e dizia que a luta de classes sempre o encontraria ao lado da burguesia educada.

Na verdade, para os que acreditam em mercados e no capitalismo, o pragmatismo se chama Keynes. É dele que as pessoas falam quando é preciso inovar e produzir uma "resposta criadora" diante de uma urgência grave e inesperada. Podiam invocar também Schumpeter, a quem pertence esta linguagem, mas dá no mesmo. Ambos eram homens do sistema, e não "rebeldes".

O fato é que, na presença de crises bancárias, sempre há intervenção governamental, e não é preciso ir longe para atestar: aqui mesmo, durante uma época que se dizia haver um "interlúdio neoliberal", entre 1995 e 1998, o Banco Central do Brasil fez cerca de 80 intervenções em bancos, metade no contexto de regimes especiais, o resto no contexto de mudanças de controle acionário com variado grau de incentivo ou empurrão.

Graças a estas intervenções não tivemos crise bancária na ocasião, e chegamos a este momento com o sistema em excelentes condições.


Fica-se com a impressão de que "intervenções do Estado no domínio econômico" têm mais chances de funcionar quando feitas por gente que acredita em mercados e que vê a intervenção como exceção, não como regra.

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