quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A economia mundial — agora sem esteroides.

Com habilidade, Sri Mulyani Indrawati, ex-ministra das Finanças da Indonésia e diretora administrativa e de operações do Banco Mundial, apresenta um panorama da atual situação econômica mundial, onde fica implícito que faltou ao Brasil melhor aproveitar o contexto internacional quando a economia ia de vento em popa. Apesar de alguns colegas ainda acreditarem que a economia brasileira voa em ceu de brigadeiro, mesmo em Davos..., a tendência dos últimos números econômicos demonstra, pelo menos, motivos para preocupação. E ainda teremos eleições...            

O crescimento econômico está de volta. Não somente os Estados Unidos, Europa e Japão estão finalmente se expandindo, mas também os países em desenvolvimento estão recuperando forças. Como resultado, o PIB mundial deverá ficar em 3,2% este ano, ante 2,4% de 2013 – o que significa que 2014 pode muito bem ser o ano em que a economia começará a se recuperar.

O fato de as economias dos países desenvolvidos voltarem a ganhar força é uma boa notícia para todos. Mas, para os países em desenvolvimento, que dominaram o crescimento global nos últimos cinco anos, isso levanta uma questão importante: agora, com os países de alta renda juntando-se a eles no contexto do crescimento, os emergentes ainda estão fortes na competição? A resposta simples é não.

Assim como um atleta pode usar esteroides para obter resultados rápidos, evitando os exercícios difíceis que são necessários para desenvolver resistência e garantir a saúde em longo prazo, algumas economias emergentes, para crescer, têm se apoiado em influxos de capital de curto prazo, especulativos, atrasando ou até mesmo evitando as difíceis, mas necessárias reformas econômicas e financeiras. O Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, pretende restringir as condições monetárias excepcionalmente generosas, que levam ao crescimento "fácil". Frente a isso, essas economias emergentes terão de mudar sua abordagem, sujeitas a condições mais estreitas e ao risco de perder o terreno que ganharam nos últimos anos.

Com a política monetária restritiva do Federal Reserve tornando-se realidade, o Banco Mundial prevê que os fluxos de capitais para os países em desenvolvimento cairão de 4,6% do seu PIB em 2013 para cerca de 4% em 2016. Mas, se as taxas de juros de longo prazo dos EUA subirem muito rapidamente, ou se mudanças na política não forem bem informadas, ou ainda, se os mercados tornarem-se voláteis, o fluxo de capitais para os países emergentes pode cair 50% ou mais por alguns meses.

Esse cenário tem o potencial para interromper o crescimento dessas economias emergentes que fracassaram em aproveitar os recentes fluxos de capital para fazer reformas. A provável elevação das taxas de juros irá colocar pressão considerável em países com grandes déficits de conta corrente e altos níveis de dívida externa – um resultado de cinco anos de expansão do crédito.

De fato, na metade do ano passado, com a especulação de que o Fed começaria a redução gradual de compras de ativos de longo prazo (o chamado afrouxamento quantitativo, ou quantitative easing), as pressões financeiras foram mais fortes nos mercados suspeitos de possuírem fracos fundamentos. Turquia, Brasil, Indonésia, Índia e África do Sul – apelidados de "os cinco frágeis" – foram particularmente atingidos.

Da mesma forma, algumas moedas de mercados emergentes têm sofrido pressão nos últimos dias, provocada em parte pela desvalorização do peso argentino e sinais de uma desaceleração no crescimento chinês, bem como dúvidas sobre os verdadeiros pontos fortes dessas economias em meio a um mercado geralmente tenso. Como a grande turbulência no verão passado, o atual surto do mercado está afetando principalmente as economias caracterizadas por tensões políticas internas ou desequilíbrios econômicos.

Mas, para a maioria dos países em desenvolvimento, a história não foi tão ruim. Os mercados financeiros de muitas destas nações não sofreram tanta pressão – no ano passado ou agora. Com efeito, mais de três quintos dos países em desenvolvimento – muitos dos quais são fortes agentes econômicos, que se beneficiaram das reformas anteriores à crise (e assim atraíram mais influxos de capital, como investimento estrangeiro direto) – se saíram bem no último ano.

Novamente, retornando à metáfora do atleta: alguns continuaram a exercitar os músculos e a melhorar a resistência – mesmo sob pressão. O México, por exemplo, apresentou no ano passado um projeto de abertura do setor de energia para parceiros estrangeiros – uma reforma politicamente difícil que possivelmente trará benefícios significativos ao país no longo prazo. Sem dúvida, essa iniciativa ajudou o México a evitar unir-se aos cinco frágeis.

O forte crescimento nas economias de alta renda também criará oportunidades para os países em desenvolvimento – por meio da forte demanda de importação e novas fontes de investimento. Enquanto essas oportunidades serão mais difíceis, em comparação à facilidade dos fluxos de capital da época de maiores estímulos do Fed, as recompensas serão muito mais duradouras. Mas, para aproveitá-las, os países, assim como os atletas, devem se esforçar para competir com êxito – por meio de políticas nacionais sólidas que promovam um ambiente de pró-concorrência ideal para negócios, um regime de comércio exterior atraente e um setor financeiro saudável.

Em muitos países, parte do desafio será reconstruir reservas macroeconômicas, esgotadas ao longo dos anos em função do estímulo fiscal e monetário. A redução dos déficits orçamentários e  a transição da política monetária para um plano mais neutro será particularmente difícil em países como os cinco frágeis, onde o crescimento está muito atrasado.

Como no caso de um atleta exausto que precisa recuperar sua força, é muito difícil para um líder político tomar duras medidas de reforma sob pressão. Mas, para as economias emergentes, fazê-lo é fundamental para de restaurar o crescimento, bem como melhorar o bem-estar dos cidadãos. Sobreviver à crise é uma coisa; sair vencedor é algo completamente diferente. 

O texto está disponível no site da VEJA.

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