terça-feira, 13 de outubro de 2009

AINDA SOBRE O NOBEL DE ECONOMIA 2009

Direto da Folha de S. Paulo de hoje, Toni Sciarretta explica que “No ano da crise macro, prêmio vai para o micro”. E como tínhamos postado antes da premiação, acertamos ao afirmar que o prêmio seria mais técnico do que político.

No ano da maior crise financeira desde 1929, seria esperado que o Prêmio Nobel fosse para algum trabalho que ajudasse a compreender melhor as forças de mercado que levam o mundo, de tempos em tempos, para o colapso. Em vez disso, a academia laureou pesquisas talvez menos ambiciosas, mas não menos importantes, que focam o papel de empresas e indivíduos - particular e coletivamente - na crise e seus mecanismos internos para se manterem no jogo do mercado.

Segundo analistas, o prêmio foi uma vitória do mundo real e das pessoas comuns sobre o fundamentalismo de mercado, que apregoa a busca da eficiência e a tendência de equilíbrio de preços, mas que não impede a instalação do caos.S

Discute aspectos de regulação e de autorregulação a partir dos interesses de cada agente. Mostra que, independentemente dos governos, pessoas, empresas e sociedade procuram caminhos para resolver seus problemas. E isso não significa que independem da ação dos reguladores, mas que a complementam.

No caso, a cientista política Elinor Ostrom foi a campo pesquisar como comunidades locais convivem com recursos naturais finitos, como lagos e florestas, que despertam cobiças e interesses divergentes, mas sem degradá-lo. Descobriu que, ao contrário do que prega a economia tradicional, que vê um caminho nítido para a destruição, as comunidades conseguem organizar certas regras de convivência para preservar o interesse comum. Acabam sendo mais eficientes do que se tivessem sob uma regulação forte. Oliver Williamson buscou explicação na institucionalização de regras e governança das empresas, como forma de mitigar conflitos e riscos diversos. "[O prêmio] Muda o foco para a microeconomia e sai das discussões de política econômica. Volta-se para aqueles que têm uma menor exposição, por ter menos interferência no debate da política econômica", disse Lauro Gonzalez, professor de microeconomia da FGV.

Para Alexandre Di Miceli, coordenador do Centro de Estudos em Governança Corporativa da Fipecafi, a academia procurou nos últimos anos premiar contribuições de outras áreas, como psicologia e ciências sociais, que complementem à teoria econômica clássica. "Economia não é matemática. O ser humano tem uma racionalidade limitada. Tudo isso que estamos vendo [na crise] tem a ver com conflito de interesses, tomada de decisões irracionais, vontade apenas de maximizar o bem-estar de curto prazo, e não de longo prazo. Esses trabalhos discutem isso."

O economista Paul Krugman, que levou o Nobel no ano passado, escreveu em seu blog que a premiação é um reconhecimento da importância da economia institucional moderna. "Se o objetivo é entender a criação de instituições econômicas, é crucial ficar atento que há mais variedade nas instituições, uma gama enorme de estratégias que funcionam, do que simplificar a divisão binária entre indivíduos e empresas. O prêmio é também uma lembrança feliz de que a maior parte da profissão não diz respeito só a macroguerras."

"Nós estivemos muito presos aos mercados eficientes e isso estava descarrilando nosso pensamento", escreveu Robert Shiller, professor da Universidade Yale, em blog.

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