sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

2012: a análise do relatório do Bacen.


Editorial do Valor Econômico de hoje e a análise do Relatório Trimestral de Inflação divulgado pelo Bacen. 

As previsões do mercado financeiro para o comportamento da economia, mais pessimistas do que as que o governo vinha apresentando, encontraram um respaldo de peso no Relatório Trimestral de Inflação de dezembro, divulgado ontem pelo Banco Central (BC). O Relatório Trimestral de Inflação reduziu em meio ponto a expectativa de crescimento da economia neste ano, de 3,5% para 3%, e, além disso, cravou para 2012 um crescimento de 3,5%. Outros setores do governo vinham propagando recentemente a previsão de que o Produto Interno Bruto (PIB) poderia crescer mais no próximo ano - a própria presidente Dilma Rousseff falou em 5%. Mas esse era apenas um arroubo de otimismo injustificado, um desejo de ano novo.

Uma previsão dessa magnitude não tem fundamento para se sustentar, inclusive tendo em conta o instável cenário internacional. O BC mantém a expectativa de que a crise internacional terá um impacto na economia brasileira equivalente a um quarto do ocorrido em 2008 e 2009, sem eventos extremos, com viés desinflacionário em vista da perspectiva de atividade mais moderada e do risco de recessão em alguns países.

O relatório explica que levou em conta na redução da previsão do PIB deste ano também as medidas tomadas entre o fim de 2010 e meados deste ano para desacelerar a economia, cujo impacto é defasado no tempo. O mercado financeiro trabalha com a expectativa de que o PIB vai crescer pouco menos de 3% neste ano. O número do último relatório Focus é de 2,92%.

Para o BC, o nível de atividades melhora ligeiramente no próximo ano e os 3,5% previstos de expansão do PIB não estão muito distantes dos 3,4% estampados na mais recente pesquisa Focus. O aumento do emprego, da massa salarial, da confiança do consumidor e da oferta de crédito vão contribuir para o crescimento maior da economia em 2012. A indústria e os serviços, que desaceleraram no segundo semestre deste ano, devem recuperar o ritmo em 2012.

Ao informar que o crescimento econômico acumulado em 12 meses recuou de 4,9% para 3,7% entre o segundo e o terceiro trimestre, o relatório avalia que a economia está agora em um "ciclo de crescimento em ritmo mais condizente com as taxas avaliadas como sustentáveis em longo prazo".

No cenário que o Comitê de Política Monetária (Copom) vai levar em conta em suas decisões, o nível de atividades vai crescer em um ambiente de inflação mais baixa. Apesar de manter a expectativa de que a inflação vai convergir para o centro da meta no próximo ano, a variação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 12 meses projetada para 2012 é de 4,7%, a mesma já prevista no relatório de setembro, e de 4,7% também para 2013. Ou seja, haverá uma significativa desaceleração de preços porque, em 2011, a inflação, que já está praticamente dada, chegará a 6,5%, conforme as projeções do BC. Houve ligeira revisão do número, pois no relatório anterior a expectativa era que o IPCA subisse 6,4% neste ano. Essas projeções levam em conta o que o Copom chama de cenário de referência, que pressupõe juros básicos e taxa de câmbio constantes até o fim de 2012. No cenário de mercado, que considera projeções de juros e câmbio capturadas pela pesquisa Focus junto a bancos e empresas, a inflação chega a 4,8% em 2012 e a 5,3% em 2013. Já o mercado financeiro prevê para 2012 inflação de 5,39%.

Como esclareceu o próprio diretor do Banco Central, Carlos Hamilton, isso se deve aos efeitos defasados do afrouxamento monetário que está sendo implementado e terá impacto no nível de atividades no segundo semestre de 2012, com prováveis reflexos na inflação no início do ano seguinte.

O relatório do Banco Central reforça a estratégia de ajustes moderados na política monetária, apesar de considerar a existência de pressões altistas da inflação no primeiro trimestre, derivadas de fatores sazonais como matrículas escolares e alimentos in natura.

Com uma frase já conhecida de cor e repetida praticamente com as mesmas palavras em outros relatórios, o de dezembro ressalta que "o Copom entende que, ao tempestivamente mitigar os efeitos vindos de um ambiente global mais restritivo, ajustes moderados no nível de taxa básica são consistentes com cenário de convergência da inflação para a meta em 2012".

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