quarta-feira, 6 de abril de 2011

O que incomoda.

ANTONIO DELFIM NETTO, hoje na FOLHA DE S. PAULO, escreve sobre o que incomoda.

É um fato intuitivo que, quando existem fatores de produção disponíveis (terra, mão de obra, infraestrutura, bens de capital e empresários inovadores), a expansão do crédito induzirá o seu uso sem criar pressões inflacionárias.

Um "fator de produção" frequentemente esquecido é a importação de bens e serviços, que precisa ser "comprada" com as exportações. O papel da taxa de câmbio, nesse processo, é o de um preço relativo que equilibra o valor dos bens e serviços exportados com o dos bens e serviços importados, sem os quais a produção interna seria ineficiente.

Sendo assim, a expansão do crédito que mobiliza o crescimento pode ser feita com equilíbrio interno (sem pressões inflacionárias) e equilíbrio externo (sem acumulação de deficits em conta-corrente). Essa idealização do processo econômico é útil, mas esconde a complexidade dos problemas da política econômica quando se esgota a disponibilidade dos fatores de produção na proporção adequada.

É possível dar a esse nível do PIB o título pomposo de "produto potencial". Ele de fato existe, mas não pode ser calculado, mesmo com as mais estranhas funções de produção (que, às vezes, não passam de identidade) e, muito menos, como projeção do passado, pois depende do estado psicológico e das expectativas dos agentes sociais.

É fato óbvio que o melhor "hedge" para reforçar a credibilidade do Banco Central é parametrizar a sua política com uma subestimação do "produto potencial" e uma superestimação da taxa de juro real de equilíbrio, o que implica em custos sociais. Isso que agrada aos "falcões" parece estar mudando com a nova orientação da casa.

Mas, mesmo simples, tal idealização nos permite entender por que a taxa de câmbio (como preço relativo que equilibra o fluxo do valor da oferta e da procura) teria de valorizar-se no Brasil.

Se uma tonelada (composta das miríades de bens e serviços exportados) comprava uma tonelada (composta das miríades de bens e serviços importados) e, graças aos aumentos dos preços de nossos produtos exportados, ela hoje compra 1,3 toneladas, é claro que o preço relativo (a taxa de câmbio) deve valorizar-se.

É também um fato empírico (explicado analiticamente) que uma valorização do câmbio tende a seguir o aumento do nível do PIB per capita. O que nos incomoda não é propriamente que: 1º) a liberdade de movimento de capitais transformou a taxa de câmbio num ativo financeiro ou 2º) que as inovações financeiras tornaram o real uma das "commodities" mais transacionadas no mundo.

O que nos incomoda é que não faremos parte desse mundo enquanto nossa taxa de juro real for três ou quatro vezes maior do que a mundial!

2 comentários:

Anônimo disse...

João Melo,

preciso entrar em contato com o senhor.

Se possível, poderia passar-me seu e-mail de contato? Não consegui abrir o link disponível no seu Perfil.

hunewps@yahoo.com.br

Obrigado!

Hugo Oliveira
Estudante de Economia - FEA-USP

JOÃO MELO disse...

Hugo,

Estou no jmelo@uol.com.br.

No aguardo!