segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Entrevista com o Nobel Michael Spence.


Na FOLHA de hoje, entrevista com Michael Spence, Nobel de economia americano.

Para o economista americano Michael Spence, ganhador do Nobel em 2001, o discurso de que a China rouba empregos dos outros países não faz sentido. Para ele, a atração de mão de obra barata não é boa estratégia econômica.

Spence ainda afirma que o país asiático está prestes a deixar de ser a fábrica barata do mundo. Segundo ele, a tendência é que outros emergentes, em fases anteriores de desenvolvimento, assumam esse papel, conforme já aconteceu com outros centros manufatureiros nas décadas passadas.

O especialista também argumenta que os países emergentes estão mais ricos e mais conectados uns com os outros e que tendem a se desassociar da crise na Europa.

Ele diz que o Brasil pode sustentar seu crescimento econômico, mas deve ficar atento à diversificação da economia.

Folha - A crise econômica de 2008 se espalhou rapidamente em todo o mundo e terminou de forma relativamente rápida em países como o Brasil. O sr. acha que a crise atual será mais longa?

Michael Spence - A crise tinha uma história de alavancagem excessiva, desequilíbrios e problemas estruturais. A crise atual é em parte uma extensão das mesmas questões. Se a Europa avançar, será menos grave. Haverá apenas um período longo e difícil de ajustamento estrutural para restaurar padrões sustentáveis de crescimento e emprego. Mas outro cenário é uma grande recessão na Europa causada por uma incapacidade de lidar com as questões da zona do euro. Nesse segundo cenário, a crise será dura e de longo prazo.

Qual é o caminho para evitar esse cenário mais duro?

Não existe maneira de certamente eliminar os riscos do cenário pessimista. Se a Grécia eventualmente sair, criará riscos de contágio. Mas o fator principal para controlar o risco é conduzir reformas bem-sucedidas na Itália e na Espanha. E ter a Alemanha e o Banco Central Europeu de volta para estabilizar bancos e dívidas dos governos, com o FMI (o que significa o resto do mundo) apoiando. As reformas institucionais para a disciplina fiscal também têm que prosperar. Se todas essas coisas funcionarem, o risco permanece em nível controlável. Mas devo dizer que haverá retração econômica por um ano ou dois, mesmo no cenário mais positivo.

O senhor vê a possibilidade de diminuição no número de países que compõem a zona do euro?

Definitivamente sim. Os líderes estão tentando evitar esse desfecho, mas eu não acho que seja sábio. Nem é bom para Grécia e provavelmente tampouco para Portugal. Uma zona do euro menor e mais homogênea poderia ser um bom resultado. Ela poderia se expandir depois. Mas realmente eles têm que elaborar um mecanismo de ajuste para quando os países deixam de ser competitivos e têm problemas de produtividade. Ninguém tem uma boa resposta para essas questões ainda.

O senhor acha que os países emergentes vão repetir o desempenho que tiveram na crise passada, quando mantiveram a demanda por commodities e garantiram algum crescimento global?

Há desaceleração nas economias emergentes, mas é relativamente leve até agora. Deve haver uma espécie de repetição do desempenho pós-2008, desde que a Europa avance.

Os fatores que garantiram o crescimento de países como China, Índia e Brasil podem ser sustentados agora? E por quanto tempo?

Indefinidamente. São países saudáveis fiscalmente e geridos de forma eficaz do ponto de vista macroeconômico. Eles estão mais ricos, maiores e negociam muito uns com os outros. Estão parcialmente dissociados [da crise], embora não completamente. Ainda dependem de uma quantidade substancial de demanda agregada dos países avançados. O grau de dissociação irá aumentar gradualmente ao longo do tempo.

De que maneira o grau de dissociação aumentará? E caso a Europa não avance e o impasse político impeça a resolução dos problemas econômicos, quais seriam as principais formas de contágio para os emergentes?

Existem dois canais. Um é a economia real. Se a economia decresce, cai a demanda por importações, com consequências para os emergentes. O impacto varia entre os diferentes países porque eles sentem de modo diverso os movimentos de preço das commodities e a demanda por serviços (no caso da Índia). O segundo canal é o financeiro. Os mercados emergentes estão voláteis agora com a combinação de riscos domésticos e globais. Essa volatilidade tornará empresários e consumidores mais cautelosos, o que pode reduzir a demanda doméstica. Tendo dito isso, o nível de dissociação continua aumentando. Só não está completo.

Há rankings em que o Brasil aparece como a sexta maior economia do mundo. Como o senhor analisa a trajetória de crescimento do país?

A trajetória de crescimento do Brasil é excelente. A inclusão está aumentando e ajudando a sustentar o crescimento e a reduzir a desigualdade de renda. É um padrão sustentável. A gestão macroeconômica é muito boa. É preciso cuidado para não permitir que o aumento do preço das commodities, que beneficiou o Brasil, cause uma redução no padrão de diversificação da economia e reduza as oportunidades de emprego. Um fundo soberano bem administrado seria uma boa ideia, eu acho.

No discurso do Estado da União [em que anualmente o presidente americano presta contas ao Congresso], Barack Obama pediu a empresários para trazerem de volta os empregos que haviam deslocado para a China. Esse tipo de apelo é eficaz?

Não faz sentido trazer empregos de baixo valor agregado da China ou de outros países em desenvolvimento. O que podemos fazer é competir em empregos de maior valor agregado -mas não nos empregos muito tops, em que vamos bem de qualquer forma. Os modelos deveriam ser mais a Alemanha, o Japão e a Coreia do Sul.

A base para atrair empresas para a China tem sido a mão de obra barata. Essa situação persistirá?

Isso está prestes a mudar, tal como aconteceu na Coreia do Sul e no Japão no passado. A China irá se mover para rendimentos mais elevados e o trabalho intensivo nas manufaturas irá migrar para emergentes em fases anteriores de desenvolvimento.

A migração já começou? Para onde?

Começou, por exemplo, para o Vietnã, Bangladesh e para a Índia em alguma medida. Isso não é novo. A Coreia costumava fabricar sapatos e vestuário nos anos 1980 e 1990 e isso migrou para Vietnã, China, Indonésia etc. Hong Kong costumava fabricar vestuário e houve mudança para Cingapura e outros países.

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