sábado, 25 de fevereiro de 2012

Oscar - O ano da nostalgia - 2012.


Li no Valor Econômico e como amanhã tem Oscar 2012, vale a leitura neste econômico sábado. 

A nostalgia é a nova moda, a julgar pelos concorrentes ao prêmio de melhor filme do Oscar 2012, cuja cerimônia de entrega acontece no próximo domingo, em Hollywood. Dos nove indicados, seis exaltam o passado. "A Invenção de Hugo Cabret" e "O Artista", os favoritos na categoria, por exemplo, prestam uma clara homenagem à infância e à magia do cinema. Mas seria essa tendência escapista do cinema um reflexo de alienação política?

Para Annette Insdorf, professora de cinema da Universidade Columbia, o Oscar 2012 não reflete a situação corrente dos Estados Unidos, ainda convalescentes de uma crise econômica iniciada em 2008. "A sugestão de uma volta ao passado tem força. O saudosismo não é só em relação ao cinema mudo", diz Insdorf ao Valor. "'Meia-Noite em Paris' trata da atmosfera intelectual da Paris dos anos 1920. 'Cavalo de Guerra' é descaradamente antiquado. Mesmo 'A Árvore da Vida' tem um ar nostálgico por conta do enredo calcado em fatos passados, assim como 'Histórias Cruzadas', com a sua exploração dos conflitos raciais nos Estados Unidos de 50 anos atrás."

Nos Estados Unidos, historicamente, o cinema floresceu em épocas de crise. "Os últimos anos têm sido difíceis no país e, tal como a Academia, os espectadores veem o cinema como uma possibilidade de escape e não de reflexão sobre a atualidade", afirma Betsy Sharkey, crítica de cinema do jornal "Los Angeles Times".
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Para ela, isso explica o fato de filmes com temas políticos, sociais e econômicos, como "Margin Call - O Dia Antes do Fim", que acompanha o comportamento de funcionários de um banco de investimentos às vésperas de uma crise financeira, e "Tudo pelo Poder", sobre políticos desonestos, estarem fora da categoria principal. "Existe uma rejeição aos temas pessimistas, Neste ano a Academia parece disposta a contemplar os filmes de temática mais esperançosa."

Produções que têm recebido prêmios mundo afora e elogios da crítica, como "Melancolia", que aborda a depressão e o fim do mundo, "Shame", sobre um viciado em sexo, e "Precisamos Falar sobre o Kevin", que mostra o massacre em uma escola, foram completamente ignorados no Oscar deste ano.

"Existe uma saudade das histórias bem contadas. 'O Artista', por exemplo, é uma história clássica de amor, com um trilha sonora fantástica, que poderia ser narrada em qualquer época, apesar do seu contexto específico", diz a brasileira Paoula Abou-Jaoude, integrante da The Hollywood Foreign Press Association, responsável pela premiação do Globo de Ouro.

Com o sucesso inesperado de "O Artista", a indústria do entretenimento passou a explorar o filão. Até o fim deste ano, vai estrear na Broadway um musical sobre a vida de Charlie Chaplin (1889-1977). "Silent Life", filme sobre Rodolfo Valentino (1895-1926), ator do cinema mudo que morreu precocemente, está em fase de pós-produção. O longa-metragem tem Isabella Rossellini no elenco.

A alienação do Oscar deste ano é uma posição contrária à do Festival Sundance, ocorrido em Utah entre 19 e 29 de janeiro. Segundo reportagem de Brooks Barnes para o jornal "The New York Times", o evento, de perfil mais alternativo, mostrou como a tecnologia digital ajuda os cineastas a capturar "o momento". Os filmes, sobretudo os documentários, exibiram "o sonho americano transformado em pesadelo".

Não por acaso, o júri elegeu como melhor filme "Beasts of the Southern Wild", de Benh Zeitlin, o qual aborda, em essência, o descaso histórico com o Sul dos Estados Unidos. O melhor documentário foi "The House I Live In", de Eugene Jarecki, uma análise sobre a política do governo norte-americano de combate às drogas durante as últimas quatro décadas.

Antes os filmes tinham "um atraso de três a cinco anos para tratar da realidade do país", escreveu Barnes. Foi assim, por exemplo, com os ataques ao World Trade Center em 11 de setembro de 2001 ("Tão Longe e Tão Perto", que aborda o tema, é um dos concorrentes ao Oscar de melhor filme; leia texto nesta página). Por obra da tecnologia digital, esse intervalo foi superado. Programas de edição permitem que um filme seja finalizado em até quatro meses e sem tantos custos. Agora, os cineastas trabalham em casa e com rapidez.

O Oscar mostra, porém, que o uso da tecnologia digital pode ter outro tipo de influência. "Ela também serve para arrecadar", diz Paoula Abou-Jaoude. "Hoje o espectador pode escolher entre ver uma imagem bárbara de 3D em uma sala IMAX ou assistir a um filme em casa, o que é mais barato." Existe uma mudança no modo como se veem e distribuem as obras cinematográficas. Os estúdios estão mais atentos à sedução tecnológica que pode tirar as pessoas do conforto do lar.

"Filmes via internet são o futuro", diz Paoula. O serviço, oferecido por Netflix e Amazon, por exemplo, é um fenômeno que perturba os grandes estúdios de Hollywood. Ele representa um obstáculo ao lucro outrora obtido pelos estúdios com a venda de DVDs.

Para se ter uma ideia, por US$ 3,99, o espectador compra na Amazon e vê pelo computador filmes como "Meia-Noite em Paris", "Histórias Cruzadas" e "O Homem que Mudou o Jogo", todos indicados ao Oscar de melhor filme. O preço médio de um ingresso de cinema em Nova York - US$ 12,50 - quase paga a mensalidade de um dos pacotes do Netflix. Por US$ 15,98, um assinante tem direito à entrega de DVDs pelo correio e a uma quantidade imensa de longas-metragens disponíveis para exibição via internet. O preço cai pela metade (US$ 7,99) se o pacote oferecer apenas filmes on-line.

Segundo a empresa de telecomunicações AT&T, o Netflix, tendo mais de 24 milhões de assinantes, chega a ser o responsável por cerca de 30% do fluxo de dados gerado na rede virtual dos Estados Unidos e Canadá. "Cada vez mais o controle se transfere dos estúdios para as mãos da audiência", diz Betsy Sharkey, do "Los Angeles Times".

A possibilidade de exibir a sua obra pela internet fez com que os cineastas não ficassem escravos dos altos custos de distribuição. "De 5 a 7 milhões de pessoas podem hoje assistir a um filme que talvez nunca chegasse às salas de cinema", diz Paoula. A guerra atual se trava entre a tela grande e a tela do computador. A nostalgia vem de mais um momento de transição na história cinematográfica. Para Sharkey, "pertencemos a uma cultura da demanda e os filmes acabam seguindo essa tendência." Se existe limite para o poder da imaginação, ele é estabelecido pelo bolso dos espectadores.

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