quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O BC e as expectativas de inflação.


Fabio Giambiagi, economista, co-organizador do livro "Economia Brasileira Contemporânea: 1945/2010" (Editora Campus), hoje no VALOR ECONÔMICO.   

O regime de metas de inflação sofreu alguns arranhões na sua credibilidade desde 2010. Para explicar isso, convém olhar as duas tabelas que acompanham este texto. A tabela I mostra o que aconteceu a cada ano t, com: a) a expectativa de inflação dos Top 5 de médio prazo (as instituições com melhor índice de acerto para o médio prazo, na pesquisa Focus), feita no começo de janeiro do ano anterior; b) a expectativa da mediana de mercado para o próprio ano; e c) a inflação de fato observada no final do ano.

A tabela I sugere, primeiro, que até 2007 o mercado trabalhava com o cenário de que o governo, dando continuidade à política de combate à inflação reafirmada no início do governo Lula e mantida, até então, com excelentes resultados, promoveria reduções posteriores da própria meta de inflação a partir de 2009, a ponto de o mercado acreditar na época que a inflação de 2008 seria inferior à meta daquele ano (no começo de 2007, o mercado achava que a inflação de 2008 seria 3,5 %!). E, segundo, que desvios da inflação acima da meta eram vistos como temporários.

Isso começou a mudar durante 2010. Até o começo daquele ano, com meta de 4,5%, não se duvidava que o governo voltaria a alcançar a meta, mesmo que não no ano, pelo menos no ano seguinte. Já a tabela I indica que, em 2011, pela primeira vez, não apenas duvidou-se que a inflação estaria na meta naquele ano, como desde o começo do ano os Top 5 de médio prazo já sinalizavam que sequer a meta de 2012 seria alcançada.

A rigor, não haveria problemas se o BC explicasse por A + B que por alguma razão a meta no ano não seria cumprida, mas que no futuro a trajetória convergiria para 4,5%. Quando no começo de cada ano se insiste que a meta será alcançada e depois isso não ocorre, porém, os efeitos cumulativos sobre a capacidade de inspirar confiança são óbvios. Observe-se na tabela II que a comparação da inflação prevista para 2011 entre o cenário de mercado do Relatório Trimestral do BC e a previsão dos Top 5 (de médio prazo em 2010 e de curto prazo em 2011) mostra uma subestimação sistemática da inflação futura por parte do BC que vinha se arrastando desde 2010.

O fato é que tivemos inflação distante da meta por dois anos consecutivos em 2010 e 2011 e com expectativas descoladas da meta em 2011 e 2012. O nosso BC é muito melhor que o de nossos vizinhos heterodoxos e é difícil fazer política monetária em um mundo conturbado como o atual. Os fatos de 2011 sugerem, de qualquer forma, que a comunicação institucional do BC deve ser aprimorada. Ao mesmo tempo, a repetição de alguns desses problemas recomenda que o horizonte de referência da meta seja explicitamente estendido para um período de 24 meses à frente.

Faz mais sentido o BC agir a cada reunião para tentar que 24 meses depois a inflação esteja na meta - dando tempo para um ajustamento suave a eventuais choques - do que ficar repetindo em janeiro promessas que em dezembro acabam se frustrando. Comunicação é o nome do jogo. A propósito: a expectativa de inflação da mediana dos Top 5 de médio prazo para o ano que vem (2013) está subindo e já está em 5,3%. Os Top 5 podem errar? Sim, mas nos últimos tempos acertaram bastante. O BC deveria prestar atenção nos sinais que eles estão emitindo.

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