sexta-feira, 9 de março de 2012

Juros de um dígito.


Editorial da FOLHA de hoje comenta a redução da taxa básica de juros (Selic). 

Há algumas semanas, quando a valorização do real voltou a se acelerar, o governo reagiu aumentando a tributação sobre entradas de capitais e comprando dólares.

Ao perceber o fôlego limitado das medidas, o mercado financeiro avaliou que o BC (Banco Central) poderia acelerar os cortes de juros. Com isso, o BC reduziria mais depressa a distância entre a taxa básica brasileira (Selic) e as taxas baixíssimas praticadas nos países ricos. Esse é um fator importante de atração de dólares ao Brasil, pois investidores no exterior podem lucrar com a diferença.

A confirmação de que o PIB brasileiro continuou com desempenho fraco no trimestre final de 2011, somada à forte queda da produção industrial de dezembro para janeiro, reforçou a impressão de que o corte da taxa básica poderia ir além do meio ponto percentual das decisões anteriores.

O BC, ao optar por reduzir os juros de referência de 10,5% para 9,75% ao ano, ratificou a expectativa de que remaria com mais força contra a apreciação do real e a favor do aquecimento da economia.

Comparando a Selic com a inflação esperada para os próximos meses, constata-se que o juro real caiu para a faixa de 4,3% ao ano.

Segundo levantamento do BC, os analistas de mercado estimam que o juro "neutro", aquele que não pressiona nem alivia a inflação, está na faixa de 5% a 5,5% ao ano. Com o juro real abaixo disso, o banco estaria pisando fundo no acelerador, podendo incorrer em exagero indutor de inflação.

O comportamento recente da inflação, mais comedido, e a possibilidade de reverter os cortes de juros à frente limitam esse risco. Mas há outro, que também cabe assinalar: que a redução de juros se revele insuficiente para reanimar a indústria combalida.

O PIB industrial caiu, no quarto trimestre, pela terceira vez seguida. E o segmento da indústria de transformação vem tendo desempenho muito pior do que os demais, menos expostos à concorrência dos importados (como construção civil ou produção e distribuição de energia elétrica, gás e água).

O PIB da indústria de transformação caiu significativos 4% no segundo semestre de 2011. Cortes de juros não vão solucionar as dificuldades do setor. Faltam medidas estruturais para reforçar a competitividade.

Ainda mais urgente é a eliminação de distorções, como a "guerra dos portos": alguns Estados, ao conceder descontos na cobrança de ICMS, barateiam e atraem importações que entrariam por outros portos. Com isso, prejudicam a competitividade do produto nacional e destroem empregos aqui

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