quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O ano de 2011 foi terrível. Será que 2012 será melhor?


Este texto foi publicado originalmente pelo The Washington Post e nesta data no O Estado de S. Paulo. É mais um texto que postamos sobre o que poderá acontecer neste 2012. 

Nesta mesma época, há um ano, os analistas corriam para atualizar as previsões para o panorama econômico que nos aguardava em 2011. Todas as engrenagens pareciam estar chegando à posição certa para possibilitar que 2011 fosse o ano em que a recuperação econômica começaria com força. Parecia garantido apostar num crescimento de 3% e 4% pareciam ser mais do que plausíveis.

Mas, então, a realidade se impôs. Os primeiros dados econômicos de 2011 foram atribuídos pelos analistas ao azar: primeiro, pesadas tempestades de inverno, depois um acentuado aumento no preço da gasolina decorrente da instabilidade no Oriente Médio, o terremoto seguido de tsunami no Japão, o agravamento da crise europeia de endividamento, o acirrado debate envolvendo a elevação do teto da dívida nos Estados Unidos.

Mas, com o início do ano novo - tudo indica que o crescimento total em 2011 será de aproximadamente 1,8%, se as previsões para o quarto trimestre se mostrarem corretas -, a grande lição econômica do ano passado é a de que as forças que limitam o desempenho da economia americana são maiores do que previram há apenas 12 meses aqueles que ganham a vida com esse tipo de análise.

O verdadeiro motivo pelo qual 2011 foi tão frustrante não foi o azar.

O problema é que os obstáculos que afetam a economia americana são tão complicados que o país só poderá obter um crescimento robusto quando tudo der absolutamente certo. Os analistas não perceberam o quão profundamente a confiança das empresas e dos consumidores fora abalada.

O sistema político se mostra mais disfuncional, arrastando-se de uma crise inventada até a próxima, incapaz de tomar decisões simples, que dirá as difíceis. Problemas no financiamento das hipotecas e uma ofensiva de execuções de dívidas imobiliárias impediram a recuperação do mercado imobiliário, enquanto os dados demográficos sugeriam que tal recuperação estaria próxima.

As boas notícias: não houve duplo mergulho recessivo. A recuperação, iniciada há dois anos, parece suficientemente entrincheirada a ponto de os desafios terem apenas retardado o crescimento, em vez de levar a uma contração.

Ao mesmo tempo, um crescimento tão lento - muitos analistas preveem um quadro parecido para 2012, com projeções na casa dos 2,5% - não é suficiente para reduzir gradualmente o desemprego. Haverá pouca margem de erro para a economia.

Em outras palavras, a julgar pelos ventos contrários, será preciso que tudo dê certo para que seja possível o tipo de crescimento robusto capaz de transformar o momento atual numa recuperação real, e não apenas no sentido técnico ao qual os economistas se referem.

A meta de todo governante encarregado de elaborar políticas econômicas é (ou deveria ser) fazer com que as conversas nas mesas de jantar nas festas de fim de ano fossem a respeito daquele tio que, depois de tanto tempo desempregado, finalmente encontrou um trabalho; do primo que acabou de se casar e conseguiu comprar uma casa; do avô que finalmente achou que já tinha juntado dinheiro o bastante para se aposentar.

Algumas perguntas que pairam sobre a economia para o ano de 2012 vão determinar se é assim que as coisas serão ou se teremos outro ano de travessia pelo atoleiro - ou pior.

Será que o sistema político americano vai se comportar?

Em 2011, a política nos EUA viveu momentos tão feios que chegaram a prejudicar a confiança e atrapalhar as perspectivas econômicas. Uma das chaves para uma maior prosperidade econômica em 2012 será uma administração mais organizada e inspiradora de confiança no governo mais poderoso do planeta.

Tivemos a batalha de abril, envolvendo a questão dos gastos, cujo desfecho quase levou o governo à paralisia. A disputa de dezembro teve como foco a continuidade de cortes nos impostos colhidos na fila de pagamento com os quais ambos os partidos tinham concordado, em princípio. Mas o pior foram as ameaças apocalípticas feitas em meados do ano quando os republicanos ameaçaram vetar um aumento no teto da dívida - cujo significado seria uma moratória na dívida americana - a não ser que conseguissem fazer valer sua posição quanto a expressivos cortes nos gastos.

Mesmo depois que um acordo foi estabelecido, a Standard & Poor"s rebaixou a classificação da dívida dos EUA, atribuindo a decisão à diminuição na "eficácia, estabilidade e previsibilidade" das políticas do governo americano.

Não por acaso, a criação de empregos e uma série de outros indicadores econômicos sofreram o impacto, apresentando queda justamente no momento em que a questão do teto da dívida começou a pegar fogo. Diante do processo, os executivos disseram sentir um clima generalizado de exasperação. Existe um importante debate envolvendo o papel que o governo americano deve desempenhar na vida dos cidadãos do país e o volume de impostos que deve ser pago por isto _ mas aqueles que respondem pelas contratações preferem que tal debate se desenrole sem a ameaça de moratórias e rebaixamentos.

Em 2012, seria bom para a economia se o Congresso americano e o governo Obama chegassem a acordos para manter o país funcionando sem tanta pirotecnia. É difícil que isso ocorra. Pense no profundo cisma entre os dois partidos quanto à direção que o país deve seguir, acrescente a ele a politicagem de um ano eleitoral, e imagine o resultado. A situação vai ficar feia.

Será que os líderes europeus serão capazes de encontrar um equilíbrio entre as demandas de todos os países?

O destino da economia americana está - num grau surpreendente e algo assustador - nas mãos da chanceler alemã, Angela Merkel, do presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, e dos outros líderes europeus que vão decidir, coletivamente, se o continente vai solucionar seus problemas financeiros ou permitir que eles escapem de vez ao controle.

O padrão tem se repetido nos últimos dois anos: quando parece que a crise europeia de endividamento está se agravando, o impacto logo se faz sentir do outro lado do oceano. Primeiro, o mercado americano de ações despenca - as empresas americanas têm muitos fregueses na França, na Itália e na Espanha, afinal. E, em questão de meses, a criação de empregos perde força e o país entra numa nova estagnação econômica, um quadro que se tornou bastante comum desde o fim da recessão, em meados de 2009.

Foi o que ocorreu no primeiro semestre de 2010 e novamente no início de 2011. Resta saber se a Europa será um fator negativo ou positivo para a situação do crescimento dos EUA em 2012.

A resposta está com os líderes europeus. Os funcionários do governo americano, principalmente o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, serão uma câmara de eco e uma fonte de pressão para que sejam adotadas medidas - e não participantes encarregados de tomar decisões.

O cenário mais provável indica que a Europa - que já parece estar em recessão - continuará mancando no sentido da criação de uma união fiscal mais abrangente, para acompanhar a união monetária já instalada.

Isso vai significar que os países europeus terão de abrir mão de parte do seu controle sobre os impostos, gastos e empréstimos, recebendo em troca um ganho gradual de confiança na certeza de que não haverá mais países como a Grécia, tomando de empréstimo somas muito acima da sua capacidade de quitá-las.

Mas, mesmo dentro desse cenário provável, não houve linhas retas nesta crise.

Durante mais de dois anos, num número tão grande de reuniões de cúpula que os participantes encontram dificuldade em mantê-las organizadas na cabeça, foram necessários um declínio dramático no mercado financeiro e o flerte dos líderes europeus com o desastre para que medidas fossem tomadas pouco antes de se tornar tarde demais para evitar o colapso da zona do euro - e as décadas de esforços no sentido de uma Europa mais unificada.

Será que a China vai conseguir fazer um pouso suave?

A crise na Europa não é a única ameaça à economia americana vinda do exterior. Preocupantes sinais observados nos últimos meses sugerem que o colosso do crescimento chinês estaria perdendo força, algo que aumenta os riscos para os Estados Unidos e para o restante do mundo.

A China demonstrou a solidez de uma pedra durante toda a tumultuada década passada, com a resposta ágil do governo à crise de 2008 e a sua ascensão enquanto fonte de estabilidade para a ordem econômica global.

A pergunta é se os líderes chineses serão capazes de conduzir a economia do país a um pouso suave, preparando mudanças econômicas há muito necessárias sem incorrer numa estagnação do crescimento.

Será que a China conseguirá buscar uma maior dependência em relação à demanda doméstica por bens de consumo e serviços, afastando-se das exportações e do setor imobiliário, sem provocar uma grande recessão capaz de por em risco o crescimento global? A resposta vai ajudar a determinar o grau de saúde da economia americana em 2012 e no futuro.

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